Marcelo Picinin
Dois reais

ARTIGO


Marcelo Picinin
Da Equipe de Colaboradores

Adepto incondicional do tapetão e da embromation, praticando sua propalada “transparência”, o imperador obteve na Justiça uma liminar que impediria a CPI do ITBI de solicitar a quebra de seu sigilo telefônico para verificar as conversas mantidas com o fazendeiro-empresário.
Embora a investigação ainda não tenha solicitado judicialmente a autorização, o monarca, antecipando-se àquilo que poderia vir a comprovar as denúncias do plantador de laranjas, quer resguardar-se contra supostas “intereferências indevidas” na sua privacidade.
No entanto, o telefone a ser investigado, segundo consta, é de propriedade da prefeitura, ou seja, público; daí que as conversas nele mantidas deveriam, em tese, dizer respeito aos interesses públicos, sendo assim perfeitamente cabível que os vereadores tomassem conhecimento das chamadas efetuadas e recebidas dentro do período a que se refere o inquérito parlamentar.
(Alguém aí lembrou daquele velho ditado — quem não deve, não teme? Alguém também se lembra da “promessa” do imperador de “colaborar” com as investigações? É parece que a lama do caso é tanta que, além de turvar a visão de alguns, também já tornou alguns ouvidos meio moucos.)
Igual a qualquer plebeu que valoriza seus caraminguás, este humilde escriba amador também possui um telefone celular pré-pago. Assim como também ocorre com a maioria dos infelizes usuários telefônicos de bolso vazio, aquela mensagem de “crédito adicional de dois reais para sua comodidade” tornou-se tão familiar nos últimos tempos que chega a dar inveja de quem, como o imperador, já chegou a gastar algo em torno de quatro mil reais em créditos somente em um único mês. Haja assunto...
Como ao monarca não é dado sofrer as agruras da limitação orçamentária, a malfadada mensagem telefônica certamente nunca lhe foi transmitida. Entretanto, por força das denúncias e das investigações da CPI, tudo leva a crer que o “crédito adicional” concedido ao suserano-mor não se restringiu a meros dois reais.
Afinal, interessaria sobremaneira aos vereadores-detetives (e ao populacho) saber se houve conversas entre o condestável e o empresário-fazendeiro, com a finalidade de cruzar as informações existentes sobre os horários fornecidos pelo segundo interlocutor. Mas, daí, vai que poderia haver “interferência indevida” na privacidade da realeza, e CPI não é revista de fofocas...
A verdade — aquela utopia com a qual os politiqueiros se engasgam — mais uma vez parece que foi temporariamente impedida de correr solta por aí com suas duas pernas, como diria Nietzsche. Não bastasse ter de ver-se constantemente socorrida pela gorjeta das empresas de telefonia celular, a plebe corre o risco de ver cortada a linha que liga a verdade aos culpados. Uma pena.