| Frei Betto |
FREI BETTO *
Foi divulgada este ano uma interessante
pesquisa realizada no Brasil, México, Colômbia e
Bolívia (Pesquisa Belden Russonello & Stewart Research
and Communications; Ibope/CDD). À pergunta na sua
opinião, os postos de saúde e hospitais devem ou
não devem oferecer pílulas para as mulheres que
mantiveram relações sexuais sem usar algum método
anticoncepcional e não querem engravidar? Referia-se
à chamada pílula do dia seguinte, que se pode tomar
no prazo de até 72 horas depois de uma relação
sexual desprotegida, para garantir que a mulher não engravide.
Muitos a consideram abortiva, sobretudo a Igreja Católica.
Responderam sim 58% dos bolivianos, 65% dos colombianos,
77% dos mexicanos e 68% dos brasileiros. Entre várias denominações
religiosas, a aprovação foi de 72%. Na comunidade
católica, 71% estiveram de acordo que a pílula deveria
ser ingerida.
Diante da questão e para as mulheres que foram estupradas
e querem ter a certeza de que não ficarão grávidas?,
o resultado comprovou aprovação entre 84% dos bolivianos,
82% dos colombianos, 88% dos mexicanos e 89% dos brasileiros.
Nas denominações religiosas em geral, concordaram
91%. Entre os católicos, 90%.
Levantou-se a questão para os católicos: Caso
a Igreja Católica passasse a permitir que os católicos
usem preservativo na prevenção contra a Aids e outras
doenças sexualmente transmissíveis, você aprovaria?
Responderam sim 88% dos bolivianos católicos;
93% dos colombianos; 85% dos mexicanos; e 94% dos católicos
brasileiros. Quanto ao uso de contraceptivos, a aprovação
decresce entre os católicos: 71% dos bolivianos; 83% dos
colombianos; 72% dos mexicanos e 83% dos brasileiros.
Ao considerar se as decisões do presidente do país
e dos legisladores (parlamentares e juízes) devem se basear
nos ensinamentos da Igreja Católica ou na diversidade de
opiniões existentes no país, a grande maioria dos
católicos latino-americanos manifestou-se a favor do Estado
laico. No Brasil, 85% concordaram que devem levar em conta a diversidade
de opiniões, superado pelos 92% de católicos mexicanos.
Também merece destaque o elevado percentual de brasileiros
(74%) favoráveis à prática de aborto legal
nos serviços públicos de saúde, em comparação
com os colombianos (21%), bolivianos (27%) e mexicanos (33%).
A esmagadora maioria dos católicos (86%) considera que
uma pessoa pode usar anticoncepcionais e continuar sendo boa católica.
O paradoxo entre o que pensam e praticam os fiéis e o que
exige a doutrina religiosa só pode ser superado se for
levantado o véu do tabu e permitido o debate que envolve
os pressupostos da teologia moral. E pensar que até 1903
a hierarquia eclesiástica considerava pecado o simples
gesto de carinho entre o casal! Mas ainda hoje a cabeça
da Igreja Católica defende a finalidade procriatória
do casamento, e não o amor que une o casal e do qual os
filhos são frutos diletos.
Se a Igreja Católica quer evitar o relativismo moral, denunciado
pelo então cardeal Ratzinger, é preciso que se rompa
o silêncio quanto à sexualidade e sejam considerados
os avanços da ciência. Caso contrário, daqui
a pouco teremos um papa repetindo a honrosa atitude de João
Paulo II, que pediu publicamente perdão a Galileu e a
Darwin, vítimas de uma visão obtusa que confundia
a autoridade com a verdade.
Vale lembrar a observação de Santo Agostinho, de
que Deus nos deixou dois grandes livros: a natureza e a Bíblia.
É sempre bom quando eles dialogam entre si. O cientista
que esquadrinha a natureza e o teólogo que interpreta a
Bíblia estão imersos no mesmo terreno divino. E
a história já demonstrou que tanto o positivismo
quanto o fundamentalismo são formas perigosas de miopia.
Frei Betto é escritor,
autor de Típicos Tipos perfis literários
(A Girafa), entre outros livros.