| D-mulher |
MODA Peças
fabricadas por estilista são feitas com material natural
e seguem tendência própria
Marina
Belei
Especial para o DEBATE
A cultura afro-brasileira é
o diferencial do primeiro ateliê de estilo de Santa Cruz
do Rio Pardo. Com o nome de Mulheres de Alma e Cor, o espaço
existente na cidade há 3 meses é também uma
marca de bijuterias, acessórios e roupas. A proprietária,
a estilista Anna Luiza Morandin de Andrade, é formada em
moda pela Universidade Anhembi Morumbi de São Paulo e já
trabalhou em diversos setores da moda. Anna Luiza começou
a se interessar por bijuterias quando montou uma coleção
lançada em um restaurante da Vila Madalena, em São
Paulo. O pessoal da casa adorou e daí em diante não
parei mais de fabricar bijuterias. Montei um ateliê no mesmo
bairro, mas fechei quando resolvi voltar para Santa Cruz,
conta Anna Luiza.
As peças todas fabricadas à mão são
vendidas também em São Paulo. Em princípio
a idéia era montar um ateliê em Santa Cruz e vender
as peças em São Paulo, mas resolvi divulgar meu
trabalho aqui também. O que estou buscando é atingir
um mercado de atacado, diz. As peças do ateliê,
fabricadas por Anna Luiza e por duas ajudantes treinadas por ela,
são todas de materiais natural e possuem um estilo próprio,
independente das tendências de moda. Ela conta que devido
a isso, nunca teve rejeição dos consumidores. Embora
minhas peças sigam uma linha diferente, com um estilo próprio,
nunca senti rejeição. Acho que isso se deve aos
materiais naturais e às cores fortes que uso, conta.
Quanto à inspiração afro-brasileira, a estilista
descendente de italianos disse que sempre teve gosto por esse
tipo de cultura, mas até a época da faculdade, não
havia percebido. Tenho uma emoção muito forte
com o Brasil, sou daquelas que só de ouvir o hino nacional
já derrama lágrimas, e descobri a paixão
pela cultura afro quando comecei a trabalhar com arte, na faculdade,
afirma. Ela conta que seus trabalhos na faculdade eram todos inspirados
na cultura afro. Nessa época as pessoas começaram
a me questionar sobre isso, mas para mim era tudo normal, ainda
não havia me dado conta disso, explica.
A paixão pela cultura afro-brasileira está até
no nome do ateliê e da marca. No início pensei
em colocar Mulheres de Alma Preta, mas alma não tem cor,
nós pintamos a alma da cor que a gente quiser. A minha
marca é para todas as mulheres, e não só
para mulheres negras, por isso resolvi mudar para Mulheres de
Alma e Cor, justifica.
Segundo Anna Luiza, a maioria das pessoas no interior não
tem uma noção correta do que é o trabalho
do estilista. O estilista estuda tendências, comportamento,
política, porque tem que saber o que está acontecendo
no país. Por exemplo, se o país não tem algodão,
então esse tecido não vai ser uma tendência.
Ele é o responsável direto pelas vendas de uma determinada
confecção, de uma marca, explica. Anna percebe
que houve um grande salto do Brasil no mundo da moda após
o surgimento da modelo Gisele Bündchen. Antes o que
se produzia aqui eram apenas cópias das tendências
do exterior. O São Paulo Fashion Week cresceu muito e isso
também ajudou, mas a explosão da moda no Brasil
com certeza se deu depois da Gisele, completa.
Estilista acredita que a
arte é
pouco incentivada no interior
Uma prática tradicional
no Brasil, o artesanato vem dando lugar às produções
em larga escala. Segundo a estilista Anna Luiza Morandin de Andrade,
até mesmo os produtos apresentados nas feiras hippies muitas
vezes não são artesanais.
Ela acredita que isso se deve à falta de incentivo à
arte, principalmente no interior, inclusive em Santa Cruz. A estilista
afirma que há outro tipo de cultura no interior, que valoriza
a pecuária e o esporte mas a arte não tem
forte expressão. Anna Luiza acha que deveriam existir mais
cursos que incentivassem a produção artística.
Agora existem alguns cursos de artesanatos, mas na época
em que morava em Santa Cruz, não tive acesso a nada. Já
me propus a montar cursos de bijuterias, oficinas de arte, pois
acredito que a arte é a base de tudo, conta.
A valorização das peças artesanais é
outro problema, já que muitas pessoas acham os artigos
caros. As pessoas criticam porque não conhecem a
arte, é uma crítica ignorante, proveniente da falta
de conhecimento de um determinado fato, por isso também
a importância de levar a arte ao maior número de
pessoas possível, avalia Anna Luiza.