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"O que mata o soropositivo é o preconceito"

SAÚDE— Com 35 anos, Pedro luta para conseguir superar as dificuldades sociais e financeiras que vivencia desde que descobriu ser portador do vírus HIV


"Pedro" se emociona ao falar do preconceito que sofre por ser soropositivoHá doze anos Pedro (o nome foi trocado a pedido do entrevistado) passou pelo primeiro momento de incerteza em sua vida quando assumiu à mãe que era homossexual. Seu medo era quanto à reação da família diante de sua opção sexual. Nove anos depois, ele teve que encarar o segundo e pior momento ao descobrir que era portador do vírus HIV, o vírus da imunodeficiência que causa a AIDS. Nessas duas etapas, ele teve o apoio incondicional da família. Hoje, com 35 anos, ele luta para sobreviver. Não contra a doença, mas contra o preconceito, que em sua opinião é o que “mata” o soropositivo.
Aos 32 anos, Pedro fez o primeiro de uma série de exames para saber se realmente era portador do vírus HIV. Suas dúvidas iniciaram depois que começou a emagrecer muito, se sentir mal e ter problemas na pele. O teste deu negativo. Insatisfeito, ele resolveu procurar um especialista na área em Assis. Dessa vez, o resultado deu positivo. “Foi um choque muito grande. Na hora quase desmaiei. Eu chorava sem parar. Naquele momento eu queria morrer”, recorda. De acordo com Pedro, na hora a maior preocupação era com a discriminação que sofreria e não tanto com a doença.
Amedrontado com a reação da mãe ao contar sobre a sua infecção, Pedro resolveu arrumar sua mala e sair de casa depois de conversar com ela. “Foi quando tive a maior surpresa. Ela disse que não queria que eu fosse embora, pois independente do que eu tinha não deixaria de ser filho dela”, conta. Mas mesmo com ajuda da família, ele entrou em depressão profunda e decidiu que não queria mais viver. Durante um mês, Pedro não tomou os medicamentos corretamente, não se cuidou de maneira adequada e pensou muitas vezes em suicídio. “Foi quando eu decidi fazer tratamento psicológico para conseguir forças para enfrentar esta nova etapa na minha vida que eu não esperava”, afirma.
Pelo que lembra, ele acha que foi infectado por um ex-companheiro da época em que morou em São Paulo. “Isso não justifica nada. Se tiver algum culpado nesta história sou eu. Fui imprudente em não me preservar e usar preservativo”, desabafa. O relacionamento terminou antes da descoberta da infecção, e Pedro nunca mais teve contato com o antigo parceiro. Apesar de não guardar mágoas, ele acha que a atitude do ex-namorado foi desumana em não avisar que era portador do vírus. “Eu tinha consciência da doença, mas a confiança nele prevaleceu. A gente nunca acha que vai acontecer com a gente só com os outros”, frisa.
Segundo ele, atualmente o HIV não afeta em nada sua vida, pois faz questão de “encará-lo” como tantas outras doenças. “Só preciso me tratar e cuidar, assim posso levar uma vida normal. Lógico que com algumas restrições como bebidas, alimentação, horas de descanso, entre outras coisas”, garante. Os programas noturnos que antigamente gostava de fazer como sair para dançar, ele prefere não fazer mais para garantir uma boa saúde.
“Tomo cuidado, pois tenho baixa resistência. Procuro evitar situações de risco como sair no frio, por exemplo, para não pegar uma gripe que, no meu caso, pode virar pneumonia devido à baixa imunidade”, explica.
Preconceito – Os piores momentos vividos por Pedro desde que descobriu ser portador do HIV foram os de discriminação e preconceito. Para ele, a exclusão social que sofreu foi a fase mais difícil de ultrapassar. “Uma amiga falou para outra que quando eu fosse na casa dela, ela não deveria deixar eu usar o banheiro e nem os copos para não transmitir o vírus para os filhos dela”, comenta ele com revolta. Depois da infecção, poucos foram os amigos que permaneceram ao lado dele.
Durante todo o relato de Pedro, a maior preocupação dele foi com o aspecto profissional. Depois que contraiu o vírus ele não conseguiu arrumar um emprego fixo. Para se manter faz vários “bicos” em sua área de atuação. Ele mantém sigilo sobre sua doença, pois afirma que se descobrirem que é soropositivo não será empregado nunca. “Minha vida mudou muito. Fico inseguro, pensando se quando descobrirem vão me manter empregado”, desabafa. No momento de maior emoção, ele diz chorando que não pode assumir que é portador do vírus, pois sabe que “irão fechar às portas”.
Ele ressalta que tem as mesmas capacidades que as outras pessoas e pode trabalhar normalmente. “Não quero que tenham pena de mim. Só quero respeito. Quero ser tratado como um ser humano igual aos outros”, afirma. Um dos seus maiores medos é não conseguir um emprego fixo para garantir um futuro digno.
Pedro é formado em um curso técnico e sonha fazer uma faculdade no próximo ano. Ele se diz mais preparado para enfrentar novas barreiras e por isso pretende prestar vestibular em Jacarezinho na área de Educação Física. “Quero crescer profissionalmente”, acrescenta.
Tratamento – De acordo com Pedro os medicamentos usados pelos soropositivos variam de acordo com a carga viral do infectado. Ele conta que o seu nível viral está baixo e por isso toma três remédios por dia. Os exames para controle do vírus são realizados trimestralmente. “Através do exame CD4 é possível saber como o vírus está. Os medicamentos mudam de acordo com os resultados”, explica. Foi durante o tratamento que ele conheceu seu atual namorado, também portador do HIV, com quem convive há mais de um ano. “Resolvemos ficar juntos, pois não temos preconceito um com o outro, afinal nós dois somos soropositivos. Um cuida do outro”, disse. Mesmo assim, eles têm que usar preservativos nas relações para não transmitir o vírus e aumentar a carga viral do HIV.
Pedro lembra com remorso do passado, quando confiava nos parceiros e não fazia questão de se prevenir. “Não importa a aparência, se a pessoa é bonita e saudável. Hoje em dia um portador pode ter uma aparência saudável. As pessoas ainda acham que os infectados são magros, com feridas, doentes, mas nem todos ficam assim. Por isso é importante que todos usem camisinha”, enfatiza Pedro.