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COMPORTAMENTO Entre
os internos do Lar São Vicente de Paulo, de Santa Cruz,
há até um alagoano que viajou em caminhão
de pau-de-arara
Quem
passa em frente do Lar São Vicente de Paulo de Santa Cruz
do Rio Pardo dificilmente pode fazer idéia da quantidade
de histórias que o lugar guarda. São as memórias
de seus 72 internos algumas parecidas com o cotidiano de
qualquer pessoa, mas muitas delas surpreendentes e emocionantes.
Na última semana os idosos receberam inúmeras visitas
de alunos de escolas da cidade, voluntários ou cidadãos
comuns que se dispuseram a dedicar algumas horas de atenção
a eles em comemoração à Semana do
Idoso, a entidade abriu suas portas para visitação
e realizou uma série de eventos.
São nessas oportunidades, por exemplo, que Manoel Augusto
da Conceição, 67, pode falar de sua história
difícil mas que nem por isso é contada sem
uma dose de bom humor e muitas risadas. Nascido na pequena Porto
Calvo, em Alagoas, Manoel resolveu descer para o sul
por volta dos 14 anos. Meio século depois, vangloria-se
de ter passado por inúmeras cidades e ter achado ouro
infelizmente, sem saber do valor do mineral.
Manoel viveu cerca de 40 anos em um sítio no distrito de
Caporanga. Sem parentes conhecidos nessa região do país,
foi levado há um ano para o Lar. Questionado sobre o motivo
de ter deixado a cidade natal, ele é enfático: Vim
fazer o destino que Deus me deu. Meu destino é só
andar para frente. Depois de sair de Porto Calvo em um caminhão
de pau-de-arara com mais de 70 pessoas e enfrentar 13 dias de
viagem, Manoel instalou-se em uma fazenda no Guarujá. Na
época, andava apenas com um salvo-conduto e foi orientado
a fazer seu registro de nascimento, que não possuía.
Trabalhando quase sempre de peão, Manoel passou
por várias cidades do Paraná: Cornélio Procópio,
Londrina, Jacarezinho e Ibaiti onde chegou a cortar cabelo
para sobreviver. Com a ingenuidade de quem não conhece
os costumes do local, chegou a ser enganado por um grupo de garimpeiros
à beira de um rio paranaense. Vi aquela gente com
peneira no rio e pensei que eram doidos. Perguntei se estavam
pescando e disseram que estavam, conta, rindo. Só
muito mais tarde Manoel foi descobrir o que era o garimpo.
Foi em uma pequena cidade paranaense, da qual não se lembra
o nome, que Manoel conta ter achado ouro bruto ao cavar
um local para construir uma casa. Eu não sabia o
que era. Enterrei tudo de novo e um tempo depois, fui embora,
afirma. Hoje, ele acredita que seu destino seja encontrar ouro
para vender na capital do Estado e fazer caridade.
Cidade melhor A ipauçuense Jandira Moretão,
85, mudou-se para Santa Cruz do Rio Pardo após se casar.
Em Ipaussu não tinha nada. A cidade aqui é
melhor, explica. Mãe de quatro filhos, ela lavava
roupa em casa para ajudar o marido a sustentar a casa no
tempo em que não havia máquina de lavar e as roupas
eram fervidas em tachos e postas para quarar no sol.
Há dois anos no Lar, Jandira vê muitas diferenças
entre a cidade que conheceu e a atual. Tinha pouca gente
e todo mundo se conhecia. A cidade cresceu e parece que foi da
noite para o dia, diz. Outra diferença, segundo ela,
é a postura dos jovens em relaçãos aos mais
velhos. Eles precisam ter mais respeito por quem é
velho. Antigamente havia mais, opina.
Para Iolanda de Souza, 67, a questão é diferente.
Os jovens de agora são mais preocupados com os idosos,
diz. Há cinco anos no Lar, Iolanda nasceu em Maringá,
no Paraná, e foi para uma casa de repouso daquela cidade
por volta dos 60 anos. Solteira, ela é visitada com freqüência
pelos irmãos que a levam para passear: já foi conhecer
Campinas, São Paulo, Aparecida do Norte e Nova Tentro,
em Santa Catarina.
Ocupação Antônio de Freitas, 73,
o Jacaré, acha que não tem motivo para morar fora
do Lar São Vicente de Paulo. Se eu fosse rapaz novo,
tudo bem. Qquando era moço eu jogava bola, passeava, ia
até a beira do rio. Mas agora, de idade, vou fazer o quê?,
questiona. O santa-cruzense que trabalhou em diversas máquinas
de café da cidade como ajudante está no Lar
há 18 anos. Solteiro, tem quatro irmãos que o visitam.
No Lar, ajuda a tomar conta da enfermaria. Tenho minha casa
e sempre vou lá, mas me acostumei aqui, afirma.
Problemas de saúde são motivo da permanência