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"Língua de Trapo" comemora 25 anos com coletânea

CULTURA — Grupo musical fundado pelo santa-cruzense Guca Domênico, no início da década de 80, tem como característica o humor escrachado


Guca em apresentação do "Língua", no Sesc Pompéia, em São PauloO grupo musical Língua de Trapo, criado pelo santa-cruzense Carlos Augusto Mastro Domênico — o Guca Domênico —, junto com Laert Sarrumor e Carlos Melo, está completando 25 anos com os integrantes originais reunidos novamente. Para comemorar um quarto de século das músicas com humor ácido e escrachado, marca registrada do grupo, a Atração Fonográfica lançou um box com a discografia completa do grupo, contendo seis CD's, um compacto e um DVD ao vivo.
A história do Língua teve início em 1979, quando Guca estudava na Cásper Líbero. “Fui para a faculdade de jornalismo com a intenção de me tornar músico”, revela o músico, que esolheu a Cásper somente por ser a faculdade mais próxima de sua casa. Nos corredores da instituição, ele, Sarrumor e Melo se reuniam e mostravam suas composições um para o outro. Embora acompanhassem a política com seriedade, eles preferiam compor músicas escrachando o cenário político e tudo o que servisse de inspiração. “O interessante disso tudo é que eu ia para as aulas com um violão”, se diverte Domênico. Quando já tinham um repertório consideravelmente grande, os três amigos passaram a se apresentar sem um nome definido para o grupo. “Quando eu era o protagonita, era ‘Guca e seus Cúmplices’, quando era o Laert, era ‘Laert e seus cúmplices’. O grupo e o repertório eram os mesmos, só mudávamos o nome”, revela o músico e escritor.
Somente em 1980 os três adotaram o nome “Língua de Trapo”, com base na música “Dá Nela”, do Ary Barroso. Na marchinha carnavalesca, um homem ameaça bater numa mulher fofoqueira. “Língua de trapo” era a gíria para pessoas que falavam mal de todo mundo, assim como faz o grupo musical em suas canções. “Ninguém escapava da gente, nem Maluf ou Figueiredo”, explica Domênico.
As composições do grupo carregam no escracho e humor politizado. Há músicas em todos os ritmos e estilos imagináveis, desde xote e música caipira até heavy metal, passando por choro e música italiana. No início da carreira, ainda sob a ditadura militar, os músicos davam suas opiniões sob temas que iam do machismo até a campanha das Diretas Já. “Em toda a sua história, o Língua deu sua opinião de uma forma áspera e ácida”, avalia Domênico. As apresentações do grupo misturam teatro e música. Na época em que começaram, eram bastante ousados. Domênico revela que teve o “privilégio” de ter uma música censurada. “Nós fazíamos tudo na base do humor, mas as pessoas vestiam a carapuça”, avalia o músico.
A consagração popular da banda, para ele, veio quando a música “Quem ama não mata” — sátira ao fatídico episódio em que Lindomar Castilho, compositor de músicas românticas, assassinou sua esposa — ilustrou um caso de crime passional narrado pelo radialista Gil Gomes. “Foi nesse dia que percebi que minha música havia chegado ao povo”, conta o músico e escritor.
Em 1982, querendo seguir uma carreira mais séria, Guca Domênico deixou o grupo por considerar que o Língua de Trapo não o “completava”. Ele compôs canções “sérias” para crianças e adultos, que foram gravadas por grandes nomes da MPB. Entretanto, embora não fosse mais membro efetivo da trupe, ele conta que sempre fazia participações nos shows.
Com o lançamento da coletânea comemorativa, Domênico praticamente retornou ao grupo que ajudou a criar. “Estou participando de tudo, praticamente de volta ao grupo, porque agora percebo que o Língua não concorre com meu outro lado mais sério”, explica o músico e escritor, que revela estar lançando “um livro atrás do outro”.
A receptividade da coletânea pelo público e sua repercussão na mídia pegou em cheio os integrantes da banda, que não tinham noção do legado que deixaram nesses 25 anos de estrada. O box trouxe uma visão panorâmica da produção para o próprio grupo. “O Língua de Trapo fez um registro sonoro da história ao longo de sua existência”, avalia Guca.
O público não se resume apenas aos antigos apreciadores. “O escracho é uma maneira meio jovem de se encarar a vida e o humor faz com que os mais novos se interessem pela banda”, explica Guca. Para ele, o humor é uma forma de levar conscientização ao público, porque faz a pessoa relaxar e derruba a barreira que ela utiliza para se “defender” de idéias novas. Entretanto, ele acredita que é mais fácil tocar pessoas mais inteligentes com o humor. “Nosso fãs são inteligentes, mas não é mérito nosso. Eles apenas se identificam com a gente”, avalia. Para Guca, o humor é a melhor maneira de conscientização. “O Maluf, por exemplo, era um cara que a gente não podia levar a sério, ele é ridículo”, exemplifica Guca.