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"Me sentiria envergonhado com aquele salário"

ENTREVISTA — Samuel Reis, que assumiu a pasta da Cultura em Santa Cruz, admitiu que sentia “vergonha” com o salário de R$ 3,8 mil que receberia na Codesan



Samuel dá entrevista ao lado do assessor jurídico da prefeitura, João Gabriel Lemos FerreiraLuís Fernando Wiltemburg
Da Reportagem Local

O vereador afastado e novo secretário de Cultura de Santa Cruz do Rio Pardo, Samuel Reis (PSC), concedeu entrevista coletiva na última terça-feira, 31, no gabinete do prefeito Adilson Donizeti (PSDB) — que não estava presente —, para tentar explicar os motivos da adesão ao governo. Relator da CPI do ITBI, que há cinco meses responsabilizou o prefeito por corrupção, Samuel estava acompanhado dos vereadores Roberto Mariano Marsola (PTB) e José Celso Locali (PSDB), além do assessor jurídico João Gabriel Lemos Ferreira, para quem a mudança de postura do parlamentar “deve ser encarada como uma situação perfeitamente normal”. Segundo admitiu o advogado, “não havia ainda uma certeza quanto ao cargo que ele ocuparia”, esclarecendo que havia a pretensão de Samuel em ocupar cargo na Codesan, mas depois optou-se pela secretaria de Cultura. “Não posso entrar em detalhes porque eu não acompanhei esse processo”, disse João Gabriel, lembrando que a escolha da secretaria de Cultura deu-se “por razões internas diante dos últimos acontecimentos”.
Calmo, Samuel sentiu-se “em casa” no gabinete do prefeito que há meses acusou de corrupção. Ele insistiu que trocou a oposição pelo governo “pelo bem de Santa Cruz”, repetindo bordão amplamente usado por Adilson Donizeti. Samuel confessou que a escolha da pasta ocorreu “de última hora”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

DEBATEPor que o senhor preferiu a secretaria de Cultura ao invés do cargo de diretor-executivo da Codesan?
Pastor Samuel — Eu analisei bastante valores, também de remuneração, e achei inconveniente o que iria receber por aquele trabalho na Codesan. Na verdade, fiz a opção visando trabalhar com o povo e o salário era incompatível com aquilo que queria fazer pelo município. Optei pela Cultura, já era algo no meu coração. Foi de última hora o pensamento que me orientou a para a Cultura e estou muto satisfeito com o cargo que estou assumindo.

DifusoraQuando decisões são tomadas, agradam a uns, desagradam a outros. O senhor esperava já por isso?
Samuel — Sim, política é isso: um dia você é compreendido, noutro não. Mas nós estamos numa democracia e qualquer um pode tomar qualquer posicionamento com relação àquilo que está acontecendo. Muitos estão concordando, outros não, mas tudo isso é válido. São opiniões.

DifusoraMas e no campo da amizade?
Samuel — No campo da amizade, perco alguns, ganho outros, mas o importante, na verdade, é o objetivo, acima de tudo, de trabalhar pela cidade.

DifusoraPastor, qual seu conhecimento sobre a pasta que está assumindo?
Samuel — Nós vamos averiguar o que pode exercer o “dono” da pasta, como oficina de teatro, de dança, projeto Guri e muitos outros que ainda podem ser implantados. Vamos por enquanto deixar esses que já estão em andamento e correr atrás de outros para implantar dentro da secretaria.

DEBATEEm sua primeira resposta, o senhor comentou que o salário na Codesan seria incompatível com o que pretende fazer pela cidade. O senhor acha que iria trabalhar menos do que a Codesan pagaria?
Samuel — Não senhor. A interpretação é a seguinte: eu me sentiria envergonhado de receber aquela quantia de R$ 3,7 mil, haja vista que eu venho de uma eleição pela Câmara e, no cargo de secretário, vou ganhar apenas R$ 500 a mais. Então, não estou assumindo um trabalho para obter um benefício próprio. Eu quero trabalhar pela cidade e hoje tenho uma responsabilidade muito maior do que na Câmara. Vou estar trabalhando com o povo e tenho o Tribunal de Contas para prestar contas — e inclusive o serviço é muito maior. Eu quero é mostrar trabalho. Na Câmara, estava amarrado devido a todos os acontecimentos que vieram desde o início do mandato. Hoje, tomei um posicionamento certeiro na minha vida e estou em paz comigo. Infelizmente não consigo agradar a todos, mas aqueles que são meus amigos, vão continuar sendo meus amigos.

DEBATEO senhor acabou de fazer uma coligação com o prefeito que indiciou na CPI e que acusou-o de corrupção. O senhor acha normal se coligar com alguém que fez uma acusação tão grave?
Samuel — Foi uma acusação infundada, numa situação de nervosismo do prefeito. Qualquer um faria aquilo. Num momento de alvoroço, de intranqüilidade, foi dito aquilo, mas é uma coisa infundada. Como uma pessoa vai se vender por um terno? Isso é incabível. Mas eu encaro com naturalidade, foi alguma coisa que depois foi conversado entre nós, tanto que ele me chamou e confiou uma pasta em minha mão.

DEBATEEm contrapartida, o senhor foi relator da CPI e indiciou o prefeito por suposta corrupção e improbidade administrativa. Isso mudou?
Samuel — Na verdade, o julgamento político pela Câmara está encerrado, haja vista que só voltará para a mão da juíza para o veredicto final. Ela não acatou o recurso da Câmara, que foi mandado para o Tribunal de Justiça — que também não foi favorável. O agravo está voltando para a própria juíza que deu a liminar. Então, infelizmente, meu posicionamento, no começo, achei cabível. Fiz tudo o que minha consciência mandava e hoje está tudo trancado. Então, minha parte foi feita, mas a Justiça entendeu que está trancado e eu não posso falar mais nada a respeito.

DEBATEMas a opinião do senhor mudou?
Samuel — Dentro do meu posicionamento na CP eu não vou voltar atrás, porque fiz tudo que minha consciência mostrou. Mas hoje entendo que não existe mais CP. Está tudo arquivado.

DEBATEMas não houve uma mudança de posição em considerar que o prefeito não deveria ter sido indiciado?
Samuel — O que eu achava no momento, foi colocado num papel e assinado. Nesse momento, a justiça decretou trancada a CP.

DEBATEMas o relatório do senhor foi baseado em supostas irregularidades...
Samuel — Acho difícil falar de algo que não existe mais.

DEBATEMesmo uma coisa tão pessoal?
Samuel — A questão pessoal não pode ser levada em consideração porque nós somos pessoas públicas que desempenham um papel. O prefeito desempenhou o papel dele. Até aquele momento fiz meu papel como vereador e, agora, não posso mais responder como vereador porque já estou afastado da função.

DEBATEComo ex-vereador e atual secretário da Cultura, o senhor considera que a Câmara atrapalha o trabalho da prefeitura?
Samuel — Eu acredito que o ano passado foi tumultuado, no qual a prefeitura teve muita dor de cabeça com a Câmara e os vereadores presos na CP e na CPI. Foi um período difícil que já é passado. Agora, alguns projetos que poderiam ter sido colocados em pauta serão votados nesse ano.

DifusoraO senhor tinha a idéia de se lançar candidato a deputado. Abortou essa idéia?
Samuel — A idéia continua e está mais que concretizada na minha mente. Dependo ainda de reuniões com o partido. Conversando com algumas pessoas ligadas ao partido, cheguei à conclusão de dar o apoio à administração e trabalhar muito mais pela cidade do que como vereador. Na secretaria, eu tenho mais disponibilidade de trabalhar pela cidade.

DifusoraE esta aliança com o novo partido que o senhor agrega, apóia também o senhor como pré-candidato?
Samuel — O PSDB é um partido muito grande, que lança seus candidatos. Eu não vim para receber apoio do PSDB, mas para ajudar a administração a governar a cidade. E o tempo em que eu for útil aqui, quero permanecer. Quando não for estiver mais fazendo um bom trabalho, vou para outra área. Sou hoje candidato a deputado estadual. Ainda que alguns entendam que não é viável, continuo afirmando que sou candidato. Tenho muito apoio de gente da nossa região e da nossa cidade.

DEBATEExistem boatos de que o prefeito Donizeti também tem a pretensão de se lançar candidato a deputado. Se isso acontecer, como fica sua candidatura?
Samuel — Eu abro mão para ele, que tem muito mais abrangência, contatos com várias prefeituras da região. Com certeza eu abro mão. Como também, numa composição, poderia abrir mão até para o sargento Severo (Luciano Severo), meu amigo pessoal. Mas ainda gostaria de manter minha candidatura. Não sou uma pessoa que quer colocar as coisas forçadas. Defendo a paz e a política tem que crescer. Acho que todo político tem que pensar em crescimento e desenvolvimento, para que a nossa população não venha sofrer mais. Santa Cruz está atrasada em relação a Ourinhos, mesmo com tantos anos a mais de emancipação. Mas, graças a Deus, um dos motivos que me fez aproximar da administração foi a faculdade de Direito, que é uma realidade e que eu achava impossível.

DEBATEO que o senhor pretende fazer na Cultura?
Samuel — Pretendo trabalhar lado a lado com o povo, com promoção de eventos em conjunto com entidades. Com certeza vamos fazer muita festa na cidade.

DEBATEAlgum projeto?
Samuel — Dentro da minha concepção, é muito prematuro dizer já, mas tem um projeto que há tempos foi extinto, quando a equipe da secretaria fechava uma rua e promovia gincanas. Isso tá no meu coração e, dentro das possibilidades reais da secretaria, quero ver se consigo resgatar esse projeto.

DifusoraAlgum projeto voltado para o religioso?
Samuel — Também. Tem um trabalho chamado “Santa Cruz em Chamas”, de despertamento, desenvolvido com todas as igrejas da cidade, e existe uma lei, aprovada ano passado, do “Dia do Evangélico”, na terceira semana de outubro. Nós vamos trabalhar com esses eventos.

DEBATEE os boatos em relação ao carro?
Samuel — Eu gostaria de mencionar a respeito do carro. Existem boatos de que recebi um carro como forma de troca. Isso é algo infundado, não tem base nenhuma. Comprei um carro semanas atrás e depois surgiu todo esse movimento nos últimos dias. Comprei na Sasel e está à disposição de qualquer munícipe, qualquer pessoa, qualquer dirigente de partido. É um carro velho, mas novo para mim. Gostaria de mencionar que é uma mentira e estou muito triste com isso. As pessoas não devem jogar palavras ao vento. Isso é muito mal, a nossa cidade perde muita coisa com pessoas que ficam ventilando coisas sem base. Eu gostaria de dizer que os munícipes analisassem antes de tomar qualquer posicionamento. Eu não falei antes porque era um momento de tumulto, que causou estranheza a muitos, mas agora estou tranqüilo, em paz. Quero contribuir para a cidade.

DEBATEO senhor não acha que a mudança de posição pode significar perda de eleitores?
Samuel — Meus companheiros estavam divididos entre eu e o sargento Severo. Eu acho que, se falamos em grupo político, temos que fechar uma idéia. Hoje vejo que posso perder de um lado, mas estou ganhando do outro. Minha consciência está tranqüila e quero trabalhar pela cidade.