| Marcelo Picinin |
ARTIGO
Marcelo
Picinin
Da Equipe de Colaboradores
Desta vez, não foi por
trinta moedas (foi por muito mais) e certamente não haverá
remorsos nem ressentimentos extremos que levem a um suicídio.
Mas, para quem ainda duvidava que em política vale tudo
pelo poder e pelo dinheiro, a última sexta-feira
talvez por capricho celestial contemplou a paixão
da decência, a crucificação da ética
e o sacrifício da moralidade.
O Judas Iscariotes da terrinha é a personificação
típica daquele que se escuda nas palavras santas para tirar
proveito próprio. Se as ovelhas que oram não foram
sacrificadas (ainda), a imolação das ovelhas que
votam e pagam impostos sacramentou-se sem cerimônia nem
piedade. Nas palavras do convertido, tudo por força de
uma inspiração divina e com a intenção
de desapertar seu coração. Como diz o ditado: quem
não te conhece que te compre.
A milagrosa conversão do pescador de almas merece registro
nos anais do cristianismo, ainda que o caminho desse infeliz quinta-coluna
siga paralelamente àquele que leva a Roma. Os motivos apresentados
para justificar seu rito de passagem constituem uma obra-prima
de cinismo, desfaçatez, arrogância e o que
é pior absoluta falta de escrúpulos. O Judas
bíblico, pelo menos, arrependeu-se e enforcou-se; já
o nosso pequenino Iscariotes, ao contrário, rejubila-se
com a paga recebida e parece não se incomodar com a pecha
que lhe caberá daqui para frente, com a canga da mentira,
da aleivosia e do oportunismo.
Conta-nos o Livro Sagrado que o apóstolo-traidor era visto
com certa desconfiança pelos outros onze discípulos
exatamente porque era o responsável pelo dinheiro do grupo
(Jó 12, 6). Por cá, o missionário de si mesmo
não pode tomar conta da bolsa, mas achega-se dela por meios
tortuosos, obscuros e indecentes.
Ainda segundo Jó (13,27), o Senhor, antecipando a perfídia
de seu seguidor, advertiu-o: O que pretendes fazer, faze-o
depressa. E assim, num misto de déjà vu e
tragicomédia, nosso diminuto Iscariotes não se fez
de rogado e mais do que depressa fez o que tinha de fazer: abraçou
sua nova causa e passou a professar mais que nunca seu credo capitalista.
Imperfeito que é, o pequeno Judas também subverte
as Escrituras. Não beijou a face de quem traiu, mas passou
a beijar a mão de quem o comprou. Não se arrepende
nem atira de volta aos pés de seus corruptores as moedas
de prata que o compraram; em vez disso, aninha-se no templo argentário
para tirar dele o quanto puder.
Durante a ceia derradeira, o pão molhado em vinho que Jesus
deu ao seu algoz foi a senha que indicou a João quem era
o traidor dentre os comensais. Na terrinha dos joões-ninguém
que sustentam a soberba da monarquia, o sinal para a perfídia
do ovelheiro nem secreto foi: resplandece sobre quatro rodas e
inscreve o nome do fementido numa folha de pagamento. Tudo bem
explícito assim, para que todos vejam e, resignados, novamente
engulam a suprema humilhação que se reafirma a cada
dia: quem pode mais, chora menos.
A Páscoa ainda está um pouco longe, mas desde já
temos a quem malhar no Sábado de Aleluia. Perdoai-lhe,
Senhor...