• Frei Betto
E a reforma política?

FREI BETTO *


Falta ao governo Lula promover a reforma política. Ano passado, ensaiou-se, graças ao mensalão. Destacou-se o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para apresentar uma proposta. Descobriu-se, todavia, chover no molhado. Outros projetos dormitavam havia anos nas gavetas do Congresso Nacional. Renan Calheiros, presidente do Senado, chegou a ressuscitá-los. Em vão.
A corrupção veio à tona no Congresso e jogou a reforma política às calendas. Estamos a nove meses das eleições e nem sabemos se haverá ou não verticalização. Ou se o caixa dois entrará na lista dos crimes eleitorais.
Pelo menos é um avanço obrigar as contribuições de campanha a passarem pelo sistema bancário. Mas, e o financiamento público? Por que não se fala mais nisso? Por que não obrigar os candidatos a revelar suas contas na internet?
Maquiavel, que sabia das coisas, sobretudo em matéria de política, dizia ser inútil esperar que o parlamentar modifique a lei que o beneficia. Donde se deduz que só resta ao eleitor mudar o parlamentar que se recusa a promover reforma política. As eleições deste ano terão caráter plebiscitário. Desde que os eleitores esclarecidos não cedam ao engodo do voto nulo, que só favorece os maus políticos.
Como esperar do atual Congresso uma reforma que poderia decretar a cassação, nas urnas, da carreira de inúmeros deputados e senadores?
Ainda bem que, pressionada pela opinião pública — da qual a imprensa é porta-voz — a Câmara reduziu o recesso parlamentar de 90 para 55 dias (a maioria dos trabalhadores tem direito a apenas 30 dias) e cassou a remuneração da convocação extraordinária. Porém, este ano muitos já embolsaram a bolada, onerando os cofres públicos. Pena que não leiam Aristóteles, que condena fazer do cargo público uma fonte de renda.
O que estarrece a nação é que a maioria enfiou o dinheiro no bolso e entrou em férias entre o Natal e o dia 16 de janeiro. Três semanas de folga e dois salários a mais na conta bancária! Pagos para trabalhar, os parlamentares foram gazetear. Às nossas custas. Voltando a Aristóteles: “Em questão de riqueza, bens, poder, glória e todas as demais coisas deste tipo, os homens não sabem impor um termo aos seus desejos.” (L 4, c I, § 3). Vale a pena reeleger quem recebe e não trabalha?
A reforma política, quando vier, terá de reduzir também o número de servidores do Congresso, hoje cerca de 17 mil. Se somarmos os 513 deputados federais aos 81 senadores, a conclusão é que a proporção é de 28 funcionários para cada parlamentar! Não é um exagero? É bom lembrar que os eleitos são nossos empregados, pagos pelos nossos impostos, e a nós devem prestar contas. Culpa nossa se, uma vez empossados, dão-nos as costas e se locupletam com o nosso dinheiro.
Cabe ao eleitor consciente investigar como o parlamentar em quem votou se comportou nessa farra de receber extras para trabalhar e ficar três semanas em férias. Quem não valoriza o voto, deteriora a democracia. O mau político não é apenas o corrupto, é também o omisso, o conivente com maracutaias, o que faz da função uma plataforma de alpinismo social.
Diz acertadamente Montesquieu: “Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder”. E o único poder capaz de frear abusos, desvios e corrupções de políticos é o das urnas, o que emana do voto do eleitor.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar” (Ática), entre outros livros.