• Caderno D
Humor atual no rádio é "mais rápido e descartável"

OURINHOS — Carlos Alberto Escova afirma que faltam bons redatores para escrever roteiros no mercado atual, embora existam muitos humoristas



O comediante e radialista Carlos Roberto EscovaO comediante Carlos Roberto Escova acredita que um programa de humor do tipo “Show de Rádio”, no final das jornadas esportivas das décadas de 70 e 80, é difícil repetir o mesmo sucesso dos tempos da Globo e Jovem Pan.
Na opinião dele, com a debandada de jogadores para clubes do exterior, o torcedor está perdendo vínculo com os times e extinguindo a paixão pela camisa do clube — o jogador brasileiro sempre está mudando de equipe. Isso atrapalha, na opinião dele, o estilo do “Show de Rádio” de criar personagens para representar os clubes.
O humorista Serginho Leite ainda cria os mesmos personagens na rádio Capital-AM de São Paulo, com recriações iguais aos tempos de Osvaldo Sangiardi, Tatá Alexandre e Carlos Alberto Escova. “Hoje o humor no rádio tem de ser mais rápido e descartável”.
Escova define como “besteirol” o humor non sense dos tempos de Jovem Pan e Globo. É o que ele chama de caricatura de determinados personagens, os quais exageram em alguma situação inverossímil. “Na época eu fazia imitação do repórter da Globo, Hélio Costa, recriando situações como se ele estivesse em uma favela e não nos Estados Unidos. Inventava situações. Quem se aproxima desse tipo de humor que fazíamos é a Regina Cazé”, conta o comediante de Ourinhos.
Escova admite que a falta de bons redatores para escrever as piadas e os roteiros têm dificultado o surgimento de programas mais criativos. Para ele, há bons humoristas no país. “Há muitos imitadores, bons comediantes, melhores do que eu, que não vão mais longe na carreira por falta de bons redatores especializados nessa área. A própria Record e a Globo sempre estão a procura de pessoal”.
Escova diz que a Record tem interesse em recriar um programa do tipo “Perdidos da Noite” na TV, mas a dificuldade é ter equipe e redatores.
Uma reclamação quanto ao rádio: falta criatividade no atual momento. “É uma mesmice. Ninguém quer ousar. A direção das rádios exigem determinado comportamento para não confrontar com a parte comercial. Em Araraquara, as rádios são invadidas por programas de pastores evangélicos. O rádio perdeu o bonde da história”.
Para ele, falta respeito ao ouvinte e programas de auditório. “O ator Mário Lago já dizia que rádio é o império da imaginação. E continua um veículo rápido e barato”.

Osmar Santos dizia 100 palavras por minuto

O locutor Osmar Santos revolucionou as transmissões esportivas. É dele jargões como “pimba na gorduchinha”, ”pai da matéria”, “Animal” — apelido do jogador Edmundo —, “ripa na chulipa” entre outros. Carlos Alberto Escova trabalhou com Osmar no programa Balancê da rádio Globo. Santos, aliás, foi assunto de tese de dissertação na Escola de Comunicações de Artes (ECA) da Universidade São Paulo da jornalista Edna Andrade.
O segredo do sucesso de Santos, segundo a pesquisadora, foi aliar perfeita dicção, respeito com o ouvinte e criatividade na transmissão. Santos falava até 100 palavras por minuto, “sem atropelar nem engolir nenhuma letra”. Ela chegou a essa conclusão com base na análise de uma fonoaudióloga de um trecho de uma locução de Osmar Santos, que definiu como “perfeita, maravilhosa, uma verdadeira obra-prima”. Depois de passar por rádios de Osvaldo Cruz e Marília, Santos fez sucesso inicialmente na Jovem Pan e depois na Globo-AM. Nas transmissões esportivas, Santos comandou o “Show de Rádio”, programa humorístico que encerrava as jornadas esportivas. Soube enxergar a importância de se engajar na campanha a favor das eleições diretas para presidente. O país vivia os últimos momentos da ditadura militar. Comandou os comícios ao lado de grandes personalidades políticas como Tancredo Neves, Leonel Brizola, Lula e Fernando Henrique Cardoso. Sua carreira foi abreviada ao sofrer um acidente em dezembro de 1994, quando perdeu parte dos movimentos e da fala.