| Frei Lourenço M. Papin |
Frei Lourenço M. Papin,
OP
Da Equipe de Colaboradores
No dia 21 de junho de 1950,
o sábio, austero e místico papa Pio XII canonizava,
isto é, declarava santa uma humilde garota camponesa chamada
Maria Goretti, Marietta para seus familiares.
Mais de quinhentas mil pessoas superlotavam a Praça de
São Pedro. Era a primeira canonização fora
da Basílica de São Pedro. Lá se encontravam
presentes a mãe, irmãos e parentes e, por incrível
que pareça, aquele que assassinara Marietta, no despeito
de uma violenta paixão insatisfeita!
Quem foi essa menina? Nasceu em 16 de outubro de 1890, na cidadezinha
de Corinaldo na região de Marche de Ancona, no sudoeste
da Itália. Seus pais eram agricultores, muito pobres. Era
a maior de cinco irmãozinhos.
Premida pela miséria e pela fome onde vivia, a família
Goretti muda para o litoral do mar Tirreno, num lugar pantanoso
infestado pela malária que levou à morte seu pai,
Sr. Luigi em 1900.
Numa mesma humilde casa, com cozinha comum, por motivo de pobreza,
morava sua família como também a de um jovem de
dezoito anos, Alexandre Serenelli, juntamente com seu pai e seu
irmão.
Marietta ficava em casa cuidando dos irmãozinhos, preparando
a comida para todos e fazendo a faxina, enquanto sua mãe
trabalhava na roça.
Marietta não pôde freqüentar escola, mas conseguiu
preparar-se, com muito sacrifício, para sua Primeira Comunhão,
em 29 de maio de 1902, festa de Corpus Christi, numa igreja que
estava bem longe de sua casa. A exemplo do Menino Jesus, ela crescia
em idade, estatura e graça diante de Deus e dos que a conheciam.
Com seus doze anos, era já uma jovenzinha, singela e simpática,
de oração e trabalho, sem maldade alguma no coração.
Alexandre passa a assediá-la sexualmente. Por duas vezes
tenta agredi-la, mas ela consegue escapar. Numa tarde, eventualmente
encontram-se os dois sozinhos em casa. Alexandre tenta persuadi-la,
mas Marietta reage e resiste com simplicidade e coragem dizendo:
Não, não, Deus não quer. É pecado!
Enfurecido pela recusa, com um ferro pontiagudo ele golpeia o
peito, o ventre e as costas do corpo incontaminado da menina.
Sangrando, agonizando, é levada ao hospital da cidade de
Nettuno onde, no dia seguinte, morre perdoando seu agressor ao
dizer: Quero que ele, um dia, venha comigo ao Paraíso!
O assassino é preso e cumpre severa pena durante vinte
e sete anos. A cena de perdão vai repetir-se quando ele
deixa a penitenciária e bate à porta da mãe
de Maria Goretti, dona Assunta.
Lembra-se de mim, dona Assunta?
Sim, eu me lembro, Alexandre!
A senhora me perdoa?
Se Deus o perdoou, porque eu poderia não perdoá-lo?
Consta que era véspera de Natal. E ambos comungaram juntos
na Missa Natalina da meia-noite, celebrando o nascimento do Salvador
que veio para todos perdoar.
Sabemos que Alexandre converteu-se e tornou-se um homem penitente,
um homem novo, segundo a linguagem do apóstolo
Paulo. Aos noventa anos morre na enfermaria de um Convento de
Frades Franciscanos Capuchinhos na cidade de Macerata, invocando
Santa Maria Goretti como sua salvadora!
A canonização de Maria Goretti sempre me pareceu
um fato religioso emblemático, seja para o século
passado como para o presente.
Nada anda tão banalizado, desvirtuado e explorado em nossos
tempos como o sexo. Quebraram-se os tabus do sexo, caindo de um
extremismo proibitivo do passado para um outro extremismo que
é a permissividade, o sexo pré-matrimonial como
norma de vida, o sexo entre os menores, enfim o sexo livre e desenfreado.
Afinal de contas, sexo é algo sério e não
mera busca do prazer pelo prazer. Tenho comigo que o melhor critério
para entendermos a dignidade intrínseca do sexo é
encará-lo à luz do ideal e da vocação
matrimonial. O matrimônio é sagrado e pode inspirar
uma sadia vivência e espiritualidade da sexualidade.
Essa menina mártir, Santa Maria Goretti (cuja festa litúrgica
é celebrada no dia 6 de julho), na sua simplicidade, na
sua candura e no seu heroísmo apresenta-se certamente como
um exemplo fortemente falante e questionador para os tempos da
modernidade ou, como queiram, da pós-modernidade. Adolescentes
e jovens: tenham coragem como Santa Maria Goretti, digam não,
não, Deus não quer.
Bem-aventurados os puros de coração, porque
eles verão a Deus! (Mt 5, 8).