• Caderno-D
Uma "outra" viagem



ARTIGO

Maria Clara Lucchetti Bingemer *

Problema número um de saúde pública no Brasil e no mundo, a dependência química oriunda do uso de drogas e alucinógenos envolve na ilusão que vende um número cada vez maior de pessoas, sobretudo jovens. Por isso, o trabalho de recuperação dos dependentes químicos tornou-se uma necessidade de primeira ordem e uma exigência mais que prioritária.
Sem encontrar sentido para suas vidas, experimentando dolorosamente um vazio existencial desesperador, muitos e muitas vão encontrar nas drogas uma válvula de escape que os fará “viajar” por mundos desconhecidos e aparentemente encantados. No entanto, muito cedo a “viagem” mostra seu lado sombrio, perigos mortais e seu fim: a dependência; a erosão da energia, das relações, da estabilidade; a entrada no submundo do crime; a overdose; a morte. O drama dos que embarcam nesta “viagem” que pode se tornar sem volta tem tocado os corações de alguns que resolvem dedicar o melhor de suas vidas à recuperação.
No último domingo, quando seguia para a Fazenda Esperança, em Guaratinguetá, não fazia idéia da experiência que me seria dada viver. Já havia ouvido falar do trabalho maravilhoso que fazem essas fazendas, que já são 40 no Brasil e começam a alcançar outros países do continente. Mas não imaginava que iria encontrar tanta gente envolvida nesta missão nem viver uma experiência espiritual de tal magnitude.
Na missa, havia perto de cem pessoas, a grande maioria jovens em recuperação. O clima era de fervor e os cantos entoados com entusiasmo. A voz forte de Frei Hans, franciscano alemão que comanda o projeto das Fazendas Esperança, ecoava na capela e transpirava vigor. Junto a concelebrava Pe. Haroldo Rahm SJ, jesuíta estadunidense de mais de 80 anos, o primeiro a começar o trabalho de recuperação de dependentes ao criar a ANPOT e desenvolver a metodologia do “amor exigente”. Estava também Pe. Vincenzo Sorce, italiano que criou a fundação Famiglia Rossete, com sede em Palermo e também em Porto Velho.
Qual a diferença entre o trabalho daqueles três homens e das equipes que os ajudam? As Fazendas Esperança — coordenadas por Frei Hans — recebem o dependente por um ano, durante o qual seu contato com os familiares será restrito e controlado. E lhe oferecem dias preenchidos com oração, trabalho manual e cultivo da terra e vida comunitária. A ANPOT também atua assim: oração e trabalho, coordenados por uma equipe mista de psicólogos, educadores e orientadores espirituais. Ao lado disso está a metodologia dos doze passos para sair da dependência e a pedagogia do amor exigente para ajudar os pais e os que lidam com o dependente.
Pe. Vincenzo usa a mesma fórmula, mas lhe acrescenta um outro elemento: durante a recuperação os dependentes servem a pessoas vítimas de paralisia cerebral, síndrome de down, retardo mental, enfim, portadores de necessidades especiais. Isso contribui para que a auto-estima do dependente se eleve e que seja mais respeitado pela comunidade.
O mais importante, porém, é o que o trabalho daquelas três obras tem em comum: um amor gratuito e desinteressado pela pessoa que embarca na triste “viagem” da dependência química; um desejo enorme de trazê-la de volta antes que seja tarde demais; e uma fé inabalável de que só Deus, com seu amor, sua graça e sua misericórdia sem limites, pode realizar isso.
O trabalho destes três estrangeiros missionários que adotaram o Brasil como sua segunda pátria é todo um esforço de resgatar jovens e adultos de ambos os sexos da “viagem” sem porto e sem destino das drogas e descortinar diante de seus olhos o fascínio e o encanto de uma “outra” viagem. Viagem em direção ao Outro que os criou e para eles sonha uma vida plena e humana, não diminuída e atrofiada pelas substâncias químicas que pouco a pouco vão erodindo o cérebro e a vontade. Viagem em direção aos outros, carentes, necessitados, frágeis e vulneráveis, que necessitam ser servidos, ajudados, cuidados.
Enquanto a missa prosseguia, eu contemplava os três celebrantes e agradecia a Deus por sua existência. Ao mesmo tempo em que pedia nunca desembarcar nem voltar atrás desta viagem perene e consistente que é a fé que dá sentido à vida e a tudo que existe.

* Maria Clara Bingemer é autora de “A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética” (Ed. Garamond), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)