| Cidade |
FUTEBOL O italiano
Giovanni Lanfranchi torcia pelas duas equipes antes da derrota
brasileira; mas ele não disfarça: sua preferência
é mesmo pela Itália
Thelma
Yeda Roder Kai
Da Reportagem Local
Aperitivos, cerveja, cornetas
e muito verde e amarelo. Essa é a cena básica dentro
de qualquer lanchonete ou residência brasileira durante
a Copa do Mundo. Mas em pelo menos uma casa de Santa Cruz do Rio
Pardo, a conversa é diferente. Na residência do professor
de música Giovanni Lanfranchi, a torcida pelo Brasil existia,
mas desde que o jogo não fosse contra a Itália.
Nascido na aldeia de San Ponzo, perto de Milão, o italiano
acompanha todos os jogos da sua terra natal na Copa. Na tarde
de sexta-feira, Giovanni comemorava a vitória da equipe
contra a Ucrânia e apostava na possibilidade da Itália
ser a campeã da Copa da Alemanha. Meu coração
fica dividido, mas pesa para a Itália, admite Giovanni.
O professor se recorda de uma vez ter sido criticado por uma pessoa
por dizer isso. Tem gente que acha chato eu falar isso,
mas para que vou mentir? Sou italiano, explica.
Sua mulher, Maria Romano Lanfranchi, ajuda na torcida descendente
de italianos, ela é nascida no Brasil. Maria diz torcer
para as duas equipes, mas com uma preferência pelo Brasil.
É o meu país, nasci aqui, justificava
na sexta-feira, antes da desclassificação do Brasil.
Porém, foi interrompida pelo marido, que usa o mesmo argumento:
Mas meu país é a Itália, nasci lá.
O imigrante garante adorar o Brasil e Santa Cruz do Rio Pardo.
Fui muito bem recebido, a cidade me acolheu, explica.
Giovanni veio para o Brasil com 25 anos, diretamente para Santa
Cruz onde tinha uma família conhecida. Foi
uma aventura. A Itália, depois da guerra, estava difícil.
Éramos três irmãos e havia pouca terra,
recorda.
O italiano veio para o Brasil com um amigo. Inicialmente, sem
saber falar português, foi trabalhar como servente de pedreiro
atuou na obra da rodovia Ipaussu-Bauru e na construção
da ponte da Estação. Foi com ajuda dos frades dominicanos
que Giovanni passou a compreender a língua. Aos poucos,
o imigrante foi se tornando conhecido pelo seu talento com a sanfona.
Quando cheguei, ninguém sabia tocar. Eu tocava em
festas e foi aparecendo gente querendo aprender, conta.
Por algum tempo, Giovanni trabalhou como pedreiro e também
deu aulas mas o número de alunos acabou sendo tão
grande que ele abandonou o que era antes seu principal serviço,
passando a se dedicar apenas à música. Foi dessa
maneira, aliás, que conheceu a mulher Maria era
sua aluna. O casal já foi várias vezes para a Itália.
Giovanni diz que não pensou em voltar de vez para o seu
país depois de ter constituído família no
Brasil.
Mas pelo menos uma vantagem em ter o coração dividido
na Copa Giovanni diz ter, ainda acreditando, antes do fatídico
jogo de ontem do Brasil, numa final entre os dois países.
Neste caso, serei campeão e vice, brinca.
Como em 98, França tira o Brasil da Copa