| Caderno D |
Meus amigos e meus inimigos.
Lá pelos idos da década de 60, meu pai adorava brincar
com uma expressão, num espanhol fajuto: Hay gobierno?
Soy contra!
Ele também gostava de brincar com outras expressões
que eu não entendia e nem queria mesmo entender. Como todo
moleque do bairro, o que eu queria mesmo era jogar futebol, bolinha
de gude e empinar pipas, sem cerol.
Só muito mais tarde é que comecei a compreender
o que ele dizia, na medida em que informações mais
sérias começavam a fixar-se em meu pensamento. Ele
se referia à ascensão de Fidel Castro em Cuba, da
guerra fria e outros cacos ditatoriais da época. Apesar
das ironias e brincadeiras, vale dizer que meu pai sempre condenou
o militarismo e as ditaduras.
Pois bem, Fidel assumiu o poder em Cuba. Fechou o país,
mandou os exploradores norte-americanos de volta para
casa e introduziu um violento regime comunista à la Stalin.
Se por um lado, o líder cubano excluiu a exploração
dos americanos, que usavam e abusavam do poder de utilizar mão-de-obra
a zero níquel, por outro entregou-se à exploração
política dos soviéticos, que passaram a usar Cuba
como isca, a fim de anteporem-se ao poder norte-americano e com
isso, dividir a hegemonia armamentista no planeta, alimentando
a histórica guerra fria.
A guerra fria acabou, a união soviética desabou.
Mas Fidel permaneceu firme no trono cubano, conservando-o como
um dos últimos refúgios do comunismo no planeta,
que arregimentou uma verdadeira legião de presos políticos,
de forma que igual não há em lugar algum do planeta.
Fidel eternizou-se no poder. Para o bem ou para o mal, transformou-se
no último grande líder político do século
20, transformou-se num mito. Tornou-se ídolo de dois presidentes
sul-americanos: Hugo Chavez, da Venezuela e Evo Morales, da Bolívia.
Ídolo, sim, mas apenas na forma. Não como modelo
inspirador, pois para Chavez, a inspiração vem de
Simón Bolívar e para Evo Morales a coisa remete
à era pré-colombiana.
Fato que há diferenças entre a Cuba castrista e
seus apadrinhados. Venezuela e Bolívia são economias
de mercado, os partidos políticos são livres, as
instituições funcionam e há eleições
regulares. Cuba, ao contrário, é um país
fechado, onde todo o poder é concentrado em seu líder.
A pergunta que se faz hoje é: como será a Cuba pós
Fidel?
Certo é que sem ele, o castrismo acaba e vira apenas mais
um punhado de páginas nos livros de história.