• Frei Lourenço M. Papin
A travessura de Frei Cristóvão

Frei Lourenço M. Papin, OP
Da Equipe de Colaboradores

Em 1952, quando era frade estudante no Convento San-Domenico, em Bologna-Itália, uma notícia chegou ao meus ouvidos e muito me comoveu. Vivia em Santa Cruz do Rio Pardo uma família humilde e pobre vinda de Itapeva. A ela pertencia um garotinho com 12 anos chamado Cristóvão.
Ajudava seus pais e suas duas irmãzinhas, trabalhando pra valer como engraxate. Trabalhava, estudava e encontrava tempo para ser coroinha na velha matriz, sob a orientação do sempre lembrado Frei Martinho Mantovani.
Garotinho religioso, vivo e inteligente, sonhava em ser padre. Apresentou-se ao diretor do Seminário de Santa Cruz, Frei Henrique Sbrogiò, pedindo para ser admitido como seminarista. O severo diretor achou por bem não aceitá-lo.
Aconteceu então uma travessura do menino. Ele bem sabia que o influente prefeito da cidade, Leônidas Camarinha, era um grande amigo de Frei Henrique. Mãos à obra, foi procurá-lo na prefeitura e o convenceu a ser seu intercessor junto ao diretor. E o prefeito persuadiu Frei Henrique a tranqüilamente aceitar o menino no Seminário. Santa travessura!
E os anos foram passando. Terminando o curso colegial em Santa Cruz, fez o Noviciado na Ordem Dominicana em Belo Horizonte e o curso de Filosofia aristotélica-tomista em São Paulo. Em seguida foi enviado a Bologna-Itália para o curso de Teologia no Convento San Domenico. Ali foi ordenado sacerdote no dia 25 de julho de 1964 pelo Cardeal Giacomo Lercaro, Arcebispo dessa cidade.
De Bologna foi para Roma onde doutorou-se em Filosofia pela Universidade Dominicana Angelicum.
Por conta sua aprofundou-se no estudo da música gregoriana e polifônica, tornando-se um exímio organista, habilidoso em organizar e dirigir corais seja de crianças, de jovens ou adultos.
Voltando para o Brasil, exerceu seu ministério sacerdotal em diversas cidades, começando por Curitiba, passando por Santa Cruz (onde foi diretor do Seminário dominicano), depois por Goiás-GO, São Paulo, Goiânia (onde lecionou Filosofia e Teologia no Seminário Arquidiocesano), Itumbiara-GO e novamente Santa Cruz, aqui sendo pároco de 1999 a 2005.
Há alguns meses foi transferido para o Convento dominicano São Tomás de Aquino no Rio de Janeiro, no bairro do Leme.
E agora, uma notícia dolorosa nos foi dada: no dia 8 de agosto, terça-feira passada, vítima de um enfarto, Frei Cristóvão partiu para a Casa do Pai com a rapidez dos relâmpagos do céu. Era a Festa Litúrgica de São Domingos de Gusmão (1170-1221), fundador dos Frades Dominicanos.
Na manhã desse dia tinha telefonado para uma pessoa amiga de Santa Cruz, lembrando São Domingos e contando-lhe alegremente um bonito sonho que uma antiga crônica atribui a esse santo. Sonhou São Domingos que estava no Paraíso e ficou triste porque ali não estava vendo nenhum de seus frades falecidos. Com lágrimas nos olhos aproximou-se de Maria que sorrindo lhe disse: “Não chores, Domingos, teus filhos aqui estão sob meu manto sagrado!”
Frei Cristóvão, que desde criança nutriu a mais terna e filial devoção a Maria, estaria pressentindo e como que confidenciando sua partida deste mundo?
Esse nosso irmão era muito simples, de temperamento bem humorado e comunicativo. Tinha, sim, suas humanas limitações e fragilidades. Ninguém de nós é perfeito. Mas de quantos predicados era dotado!
Pelo seu desprendimento dos bens materiais, ele foi fiel à sua origem humilde e pobre. Seu trato pastoral com o povo de Deus tinha a marca da atenção e da delicadeza fraterna. Ele sabia ser acolhedor com a sinceridade de seu sorriso.
Transmitia segurança e esperança aos que procuravam sua orientação ou aconselhamento espirituais. Confiava nos leigos e leigas e sabia respeitar sua atuação pastoral na comunidade e na sociedade.
Era fácil encontrar Frei Cristóvão, pois sempre foi muito caseiro e valorizava a vida recolhida no convento.
Anunciava a Palavra de Deus com simplicidade humana e teológica. Gostava de rezar cantando. Celebrava a Eucaristia pausada e piedosamente, como um sinal de sua espiritualidade centrada em Cristo.
Meu irmão, Cristóvão, você encerrou sua caminhada de 42 anos de sacerdócio e 48 de vida religiosa como dominicano, a serviço do Reino.
O Senhor que inspirou aquela sua travessura de garoto sonhador, o acolheu em seus braços amorosos de Pai para a vida em plenitude. Você um dia sonhou em ser sacerdote. Você é sacerdote para sempre!