Mísseis com dedicatória
ARTIGO
Maria Clara Lucchetti Bingemer *
A tragédia do
Líbano vem provocando a circulação de recados
e mensagens pela internet, enviados por amigos ou conhecidos,
ou listas de chat. Assim, além da grande imprensa e da
mídia em geral, recebem-se informações mais
específicas. Nem sempre a fonte destas é muito confiável,
mas às vezes o é. E pode trazer elementos impressionantes
sobre um fato já de por si impressionante como a guerra
desigual entre Israel e o Líbano.
A mensagem que recebi vem assinada por uma jovem libanesa casada
com um brasileiro. Mostra criancinhas israelenses de Kyriat Shmona,
perto da fronteira do Líbano, escrevendo mensagens com
canetinhas coloridas nos mísseis israelenses que quase
seguramente serão usados para bombardear o território
libanês. O lugar onde as fotos foram feitas é um
posto avançado de artilharia e a entrada de crianças
em tal lugar só pode ter se realizado com uma autorização
especial do exército.
De fato, em uma das fotos se vê um soldado em cima de um
tanque olhando placidamente as crianças escreverem seus
recados endereçados ao lado de lá do conflito. Alguns
dos recados estão em inglês e nas fotos em power
point que compõem a mensagem se pode ler o que vários
meninos e meninas escreveram: De Israel com amor.
A mensagem afirma que as crianças estão sendo ensinadas
a aceitar com naturalidade o fato de que seu país bombardeie
outros quando considera seu território ameaçado.
O fato de serem estimuladas a escrever recados nos mísseis
seria uma das técnicas pedagógicas usadas com esse
fim. Não posso saber e não quero crer que assim
seja. Parece-me uma autêntica barbaridade que tudo isso
seja parte de uma estratégia montada para fazer a cabeça
das crianças no sentido de uma visão banalizada
da violência.
No entanto, há alguns dados comprovados e de fonte segura
que tornam o fato retratado nestas imagens mais bárbaro
e cruel do que já parece à primeira vista. Segundo
a ONU, um terço das vítimas do Líbano são
crianças. Ou seja: enquanto de um lado há crianças
que se divertem mandando recados escritos sobre armas letais,
de outro há crianças massacradas por estas mesmas
armas. A única diferença será que alguns
dos mísseis que lhes estraçalharem a cabeça
e os corpos virão com dedicatória de suas companheiras
da mesma raça semita e da mesma árvore abraâmica,
que são ensinadas a se acostumar com a presença
das armas e da guerra em suas vidas.
Todo o episódio desta guerra cruel e sangrenta é
absurdo e sem sentido. Mas não há certamente nada
mais sem sentido e mais cruel do que usar crianças para
ornamentar e protagonizar o conflito cruel e sem quartel que encontra
teoricamente sua raiz no seqüestro de um soldado, mas que
tem suas origens ensangüentadas em ódios muito antigos,
com tintas de uma rivalidade e uma violência ancestrais.
Tão triste quanto o Estado de Israel estar bombardeando
com seu poderoso arsenal um país quase desarmado é
o fato de os países árabes não aceitarem
o Estado de Israel, o direito ao povo israelense de ter uma terra.
Ambas as intolerâncias estão na raiz deste conflito,
do qual as vítimas mais fatais acabam sendo as crianças,
tanto as que escrevem dedicatórias nos mísseis quanto
as que por eles são assassinadas quando haviam apenas começado
a viver.
* Maria Clara Bingemer é teóloga,
professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas
da PUC-Rio, autora de A Argila e o espírito - ensaios
sobre ética, mística e poética (Ed.
Garamond), entre outros livros.