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Da tabuada ao computador

ARTIGO



“Só interessam o presente ou o passado remoto –
o passado próximo aborrece”. Pitigrilli (Mamíferos de luxo)

Geraldo Machado
Da Equipe de Colaboradores

Eu e você — meu leitor menos sectário — estamos muito juntos com a reflexão oportuna de Pitigrilli. O passado recente lembra-me esta máquina de escrever surrada, que me faz também portátil e disponível. Mas, ao mesmo tempo, a Olivetti tem história e aborrece o presente — que é dos computadores de última geração. O passado remoto esquadrinhado nas minhas crônicas (então como atualmente), só é aceito como prenúncio e antegozo do futuro vislumbrado. Conta com a regularidade quase tacanha da minha insistência, coisa forte nos teimosos que, por birra, envelhecem assim. É o passado das tabuadas, da aritmética de Trajano e da palmatória do mestre-escola, o sergipano Constâncio Carlos, que ensinou meu pai a ler, escrever e contar. O velho mestre foi pai do Benedito Carlos e da Antônia, mãe dos Brittos do Boanerges. Todos membros da história e do passado remoto de Santa Cruz do Rio Pardo (se for bem contada), e que está ainda viva na minha memória que não esquece valores e respeita a lembrança que, se não for grata, desmente; se não for sincera, desonra. Esse passado não aborrece e, lembrá-lo é curioso e agradável. Ver na naftalina o vestido de noiva da mãe, já desmerecido do branco. O retrato abigodado do pai, tirado com um amigo da época, de palheta e bengala, à sombra de uma centenária figueira-da-Índia, no Jardim da Luz, na capital da garoa — hoje do PCC. Há, para esta situação, um plural que enfatiza: reminiscências. Nós, mamíferos de luxo, somos assim. (Assados são os leitões nos fornos, e os “farofeiros” nas praias, com suas assaduras e bronzeadores, lembranças vivas do urucum que dava cor aos tupinambás do litoral).
Ao leitor cordato, já acostumado com os meus igarapés literários, digressões nascidas da desordem mental vinda à tona como a vitória-régia e os aguapés, agora, na plenitude da minha limitação, vou passar ligeiro (prometo) uma anedota árabe que fraudei do livro de Emil Ludwig: “O Nilo”. Meu amigo e colaborador do DEBATE — o Seixas — comprou-o num sebo em Joinville e deu-me de presente por ser raro (não o presente, mas o livro). Talvez o tenha feito de olho nos filés de tilápia na fritura, com cerveja e por-de-sol (lembrando o Zé Rios e a Laurinda, casal fundador do histórico balneário do Rio Pardo), que sempre lhe devo (não o Rio Pardo: digo o filé). Perdão, leitor, de uns tempos para cá, não acredito nem no óbvio (aprendi com o Lula).
Hierografando, vamos ao Nilo e à anedota: Um felá opulento levou um colega menos favorecido pela sorte para ver o mausoléu suntuoso que erguera ao pai. Mas o pobre simplesmente exclamou: “Antes que teu pai possa erguer essa lousa pesada, há muito tempo estará o meu no paraíso”. São fraquezas do mamífero de luxo, meu desprendido amigo e leitor, sem pompas no berço, sem mausoléu no enterro.
Ouvi de minha mãe (bons tempos!) um caso assim: Vizinho, ao lado da casa da minha avó Sinhaninha, morava um solteirão já com o prazo de validade vencido — ou subtraído por descuido do tempo. Numa achega para o historiador Magali, essa casa avoenga existe e tem mais de 100 anos. Morou lá o Jaime Castanho e, por fim, o Luiz Brondi. Minha avó ficou viúva muito cedo, com seis filhos. Há 80 anos eu ia visitá-la, com meus pais, de trole, tirado por dois cavalos baios: o Camurça e o Rondelo. Minha mãe Cacilda tinha três irmãs: Odete, Dinorah e Isa. Dois irmãos: o Agripino e o Agrício. O primeiro faleceu bem moço. Poeta, culto, autodidata. O livro do Magali — o primeiro — traz poesias dele, com o pseudônimo de Homero. Tomado pelo alcoolismo, morreu sem alcançar 30 anos. Casadas as filhas (menos a Odete – Dedé), dona Anna (minha avó) foi morar com o tio Agrício em Jaú. Fui morar com eles, aos sete anos, e lá fiz o primário, sem palmatórias, das tabuadas decoradas. O “Externato do Reverendo Tancredo Costa” era protestante. O ministro Tancredo e as irmãs professoras de sobrenome Meinbach eram bons educadores. Nisso, Chavantes saía de estação para cidade — lentamente.
No quintal do casarão, com uma varanda alta, de tábuas, no lado da rua que descia para o rio Pardo, havia um depósito de coisas. Meu avô, Quincas Negrão, tinha terras (mata) em Salto Grande. Lá ainda havia bugres mansos. Ele guardava apetrechos artesanais feitos pelos índios (cestos, adornos, arcos, flechas, cerâmica...) nessa casinha. Veio daí — quem sabe? — meu gosto por essa cultura. Havia boa música na casa da vovó. Saraus ao piano de candelabro e velas. Uma sala de janelas baixas que davam para a rua Joaquim Manuel de Andrade. Mobília com cadeiras de palhinha — austríaca. Quem lembrava sempre desse tempo era o Ataliba Santos, saudoso do convívio dos moços com as moças. Danças e recitais na sala alegre. “Seu” Nonô Novaes Cortês, casado com a Dona Áurea, prima da minha mãe, declamava, acompanhada ao piano (com a cadência melódica da “Dalila”), poemas inteiros de Guerra Junqueiro (O Melro, O Fiel) e de Thomaz Ribeiro (A Judia). E o solteirão da história? Morava numa casa entremeio a da minha avó e uma certa viúva, mãe de uma “Capitu” machadiana, moça e solteira. Os quintais eram separados por cerca de balaústres que assanhavam a visão e comprometiam a privacidade do pomar, da horta e dos varais de roupas. O cavalheiro solitário era abastado. Tinha economias: papéis, letras, escrituras – apólices. Afora isso (muito, na época), sonhava com a vizinha-moça, ali, tão perto do seu coração, também apertado no peito. Foi numa manhã de odores florais vindos dos pomares e dos jardins, perfume que as cercas não impedem e não distinguem. Já arrumado, o solteirão saiu para o quintal para respirar o ar renovado e fluir esperanças renascidas. Ali, rente à cerca, junto com a mãe que cuidava dos canteiros da horta, estava a moça. A senhora (saudada com uma mesura que estendia até o coração da filha), disse com voz de velada insinuação, matreira, na verdade: “Perdeu a hora esta manhã, senhor Gonzaga? Sempre o temos como madrugador — que é isso?”. Ele, todo gente e, mais ainda, gentil, não perdeu a vez nem o fio por ela estendido: “Senhora Umbelina, não lhe falta razão e, do meu lado, justo motivo. Não dormi bem, confesso. Fui deitar muito tarde ocupado com a papelama”. Disse assim para impressionar a “Capitu” da beira do Rio Pardo, de suspiros resumidos e anseios reprimidos e (como não intuir), a sogra, ao pé da cerca. Se a papelama levou a unir os quintais contíguos e as duas vidas solitárias, não sei nem minha mãe – avessa a bisbilhotices – levou a sério. Casada com meu pai, “situante”, veio pra roça criar filhos. Houve uma troca desigual: dos saraus para os serões de rasgar palhas de milho para encher os colchões rústicos dos filhos que, para lembrá-los (os colchões), não vou cochilar detalhes.
Esqueço os Mamíferos de Luxo de Pitigrilli e a papelama do Gonzaga. Fico com a minha Olivetti e o casarão da dona Sinhaninha na minha lembrança, já que o Ataliba Santos não está mais entre nós para confirmar a história e falar comigo.