Marcelo Picinin

Constrangimento paternal

ARTIGO


Marcelo Picinin
Da Equipe de Colaboradores

Dias desses, curtindo uma linda tarde de sol na pracinha, o escriba testemunhou o seguinte diálogo:
— Papai, o que é CORRUPÇÃO?
— Bem, filho... Como é que eu vou explicar...? Bem, deixa ver... CORRUPÇÃO é quando alguém faz alguma coisa para alguém em troca de dinheiro.
— Mas então, papai, o sorveteiro é corrupto, porque ele me dá sorvete em troca de dinheiro!
— Não, filho, não é bem assim... O sorveteiro vende o sorvete, entendeu? Não? Vou tentar explicar melhor: CORRUPÇÃO é quando alguém importante faz alguma coisa, algum favor, para alguém e recebe outro favor — geralmente dinheiro — pelo serviço que faz.
— Não entendi, papai. Parece a mesma coisa quando eu compro suco de laranja: eu estou com sede e dou o dinheiro para o dono da padaria em troca do suco. Ele me faz um favor: mata minha sede. Eu faço um favor pra ele: dou o dinheiro...
— Não, não, não... Não é a mesma coisa. Você ainda é muito pequeno para entender, mas seu interesse é importante. Veja bem: CORRUPÇÃO não é quando alguém vende alguma coisa; é quando alguém, geralmente muito importante, se vende por alguma coisa. Sendo uma pessoa importante, que tem algum cargo de destaque, ele faz alguma coisa para beneficiar outra pessoa. Isso é errado, porque a lei não permite que ele faça. Capisce?
— Mais ou menos... Por que ele faz isso se é errado?
— Ora, filho, ele faz isso geralmente por dinheiro, ou até mesmo para ter mais poder. Ele fica mais rico. Além disso, quanto mais gente ele agradar, maior a influência que ele tem. Por ser uma pessoa importante, ele pode trazer cada vez mais gente para o seu lado, usando em seu benefício aquilo que essas pessoas podem dar a ele.
— Como assim?
— Vou tentar dar um exemplo: imagine um menino que os seus amiguinhos sabem que não é boa companhia. De repente, esse menino vai lá e começa a dar presentes para eles: carrinho de rolimã, ingresso para o cinema etc., só para poder participar da turma. Aí seus amiguinhos, que gostam muito de presentes, vão começar a aceitar o menino, fingindo que gostam dele só para ganhar mais presentinhos. Com seu dinheiro, o menino compra a fidelidade dos demais, e daí o menino vai passar a se impor sobre os outros, sempre em troca dos presentes. E os coleguinhas, para não perderem essas vantagens, passam a defender o menino...
— Ué, papai, mas aí meus amiguinhos também não vão ser corruptos, já que eles estarão se vendendo?
— Sim, sim...
— Ah, agora parece que eu entendi. Mas, papai, ninguém faz nada contra a CORRUPÇÃO?
— Faz, sim, filho. Só que ela se tornou uma coisa tão comum que as pessoas às vezes acham tudo normal. O pior é quando aqueles que fazem a CORRUPÇÃO negam que tenham feito, mesmo que todo mundo saiba que ele fez. Existem também aqueles que ganham dinheiro para esconder da população que determinada pessoa é corrupta, mas aí a coisa é mais complicada de explicar...
— Puxa, papai, esse negócio de CORRUPÇÃO é mesmo difícil de entender, hein? Mas, papai, e aquele negócio que aquele jornal canceroso publicou sobre um cara aí que estava sendo acusado de CORRUPÇÃO? É igual a isso que o senhor explicou?
Nesse momento, passou um carro de som anunciando a campanha de vacinação anti-rábica, e o escriba não pôde ouvir a resposta do angustiado pai. Logo em seguida:
— Olha lá, papai, estão anunciando a campanha contra raiva. Será que tem vacina contra CORRUPÇÃO?
— Tem sim, filho. Mas a próxima é só em 2008.
***
Relógio da liberdade: Apegando-se ao seu ceticismo, o escriba computa 804 dias para o fim da monarquia.