Música sertaneja é típica
do Brasil "mestiço"

CULTURA — Romildo Sant’Anna, professor da Unesp e da Unimar de Marília, diz que país não deve ter preconceito da música sertaneja


O professor-doutor Romildo Sant’Anna, durante aula no curso de jornalismo da Unimar de MaríliaNo dia-a-dia do interior é comum ouvir música caipira e sertaneja nas rádios. Ao longo dos anos, forjou-se uma divisão de que a música raiz é mais “autêntica” e a sertaneja, proveniente de um Brasil “atrasado”. Ambas são da mesma origem e se diferenciam somente devido ao êxodo rural — vinda do homem do campo para a cidade. Mas as duas têm o seu lugar na cultura brasileira. O professor-doutor Romildo Santa’Anna, da Unesp de Rio Preto e da cadeira de Cultura do curso de Jornalismo da Unimar de Marília, diz que não há motivo para alimentar preconceito com a música sertaneja. “É um novo modelo que mistura simbologia tradicional e nova, uma colcha de retalhos que reflete a pressa do mundo contemporâneo dos aviões, dos meios de comunicação e da internet”, diz o especialista ao explicar a origem da música caipira e sua similar, a sertaneja.
A diferença de estilo musical ocorreu a partir de 1940, quando houve grande transferência migratória da população do campo para a cidade. De acordo com Romildo Sant’Anna, as pessoas levaram os signos que persistiram no campo durante 450 anos para o mundo urbano. “Dessa maneira, a música sertaneja banaliza símbolos da música caipira, a qual reserva símbolos tradicionais que perduram séculos e até milênios. A música caipira fala de valores muito antigos; já a sertaneja reflete valores mais ordinários, coisas mais passageiras deste mundo sem raízes”, explicou Santa’Anna. A seguir, a íntegra da entrevista concedida na última segunda-feira na Unimar, em Marília.

DEBATEQual a origem da música caipira?
Romildo Sant’Anna — Ela é, antes de tudo, uma vertente daquilo que chamamos de “Poesia do Livro”— a poesia contemporânea, o poema. Eles eram musicados desde os gregos do século IV a.C. no período Medieval. A música popular e caipira representa a volta da poesia acompanhada por um instrumento. No descobrimento do Brasil, a poesia cantada era a coqueluche da população rural, aquela mais pobre que veio para a cidade. Ela era chamada romancero peninsular, foi a que veio para o Brasil com os imigrantes. Esse estilo foi difundido por instrumentos que vieram com os portugueses. A viola era um instumento medieval — proveniente do alaúde, instrumento palaciano que foi muito utilizada na época. Os jesuítas usavam aquela música para catequisar os indígenas e os africanos escravos. O instrumento foi sendo difundido pelos mestiços que andavam por todo o país. Na verdade, nossa música caipira não é nem portuguesa, nem africana e nem indígena. Ela é original do Brasil. É o país como ele é: o Brasil mestiço.
DEBATEQual diferença para o estilo sertanejo?
Romildo — Houve no Brasil, a partir de 1940, uma grande transferência migratória da população do campo para a cidade. Com isso, as pessoas levaram os signos que persistiram no campo durante 450 anos, transportando-os para o mundo urbano, onde predominam outros valores. É o mundo da energia elétrica, dos transportes e da mídia. A música sertaneja reflete, portanto, o desenraizamento do indivíduo em busca de uma nova raiz, tanto que ela busca como modelo um ritmo que não é brasileiro, o country e a Jovem Guarda — que é o rock and roll. Deste modo, ela é um misto dessa cultura tradicional de 450 anos de índole rural com um Brasil urbanizado, que se deu nos últimos 50 anos. É um novo modelo que mistura uma simbologia tradicional e uma nova, uma colcha de retalhos que reflete a pressa do mundo contemporâneo dos aviões, dos meios de comunicação e da internet. De modo algum estou falando isso para desqualificar a música sertaneja. Afinal, são artistas que se comunicam com facilidade com milhões de pessoas, que têm os mesmos símbolos. São pessoas procedentes da roça: se não são filhos, com certeza são netos de roceiros. A música sertaneja reproduz essa nova identidade brasileira que se deu com o choque entre os valores da tradição e os novos valores anti-tradicionais. Transportou aquele catolicismo ferrenho do mundo da roça, mundo em que os símbolos da existência eram muito místicos, o mundo da palavra empenhada e do fio de bigode, para o mundo da escritura, do cartório. A música sertaneja reflete isso — e, inclusive, alguns artistas com muito talento.
DEBATEA mistura desses elementos gera alguma semelhança entre os dois gêneros musicais?
Romildo — Alguns elementos persistem. Por exemplo, você pega cantores como Zezé di Camargo e Luciano. Eles têm a voz muito aguda, quase que feminina e isso acontecia também na música caipira, para caracterizar o dueto entre uma voz feminina e uma masculina. Há uma voz grossa, tipo Tião Carrero, e outra feminina que representa a voz da mulher cantada por um homem, porque naquela época lugar de mulher era na cozinha e elas não podiam cantar. Quando o Zezé di Camargo canta com aquele agudo, ele não sabe disso, não tem noção, mas a voz dele está substituindo uma mulher.

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