• Caderno D
"Desprezo com caipira é tentativa de negar raízes"

CULTURA — Para Romildo Sant'Anna, assim como as modas caipira, a música sertaneja também retrata a realidade do povo e não deve ser desprezada


A seguir, a continuação da entrevista com o professor-doutor Romildo Santa’Anna, da Unesp de Rio Preto e do curso de Jornalismo da Unimar de Marília.

DEBATEHá alguma semelhança de conteúdo entre a música sertaneja e a música caipira?
Romildo — A música caipira tradicional é muito triste. Podemos reparar que, nela, os romances têm um fundo de tragédia, refletem uma perda. Fala do português desterrado, do indígena que perdeu a sua terra pelo invasor português, do africano que deixou a África e toda a família, amigos, costumes e cultura. A grande característica contida nas letras das músicas caipiras é que elas refletem a falta da terra, falta de uma coisa fundamental que é o simbolo da mãe. Assim como ela, a música sertaneja também mostra a falta de alguma coisa. É sempre a mãe, a mulher que foi embora, que se casou com outro, é a diferença social, um que é pobre outro rico, enfim, o desencontro amoroso. Dessa maneira a mulher, também mãe e criadora, substituiu a ‘mãe terra’ cantada na música caipira. É claro que isso tem um caráter mais banal. É a banalização da própria falta de educação formal no Brasil, no sentido de se ter maiores aprofundamentos filosóficos. Assim, a música sertaneja banaliza símbolos da música caipira, a qual reserva símbolos tradicionais que perduram séculos e até milênios. A música caipira fala de valores muito antigos, já a sertaneja reflete valores mais ordinários, coisas mais passageiras desse mundo sem raízes. Há essa diferença, mas não podemos ter preconceitos em relação a nenhum dos dois gêneros, já que ambos refletem uma realidade da qual o povo é a grande vítima. A população que consome a música sertaneja não é culpada. A culpada é a escola institucional de baixo nível, a desvalorização do professor.Zezé di Camargo e Luciano: música sertaneja
DEBATE Já que são reflexos da cultura popular, por que esses dois estilos musicais são amplamente discriminados?
Romildo — As pessoas sempre se espelham no superior a elas. No mundo da roça é comum o neto ter vergonha do avô, muitas vezes dos filhos terem vergonha dos pais porque não sabem comer direito ou seguir demais costumes importados da Europa. Por negar as raízes, elas tacham a música de brega, de sentimentalóide, porque na verdade trata-se de símbolos que estão nela e que a pessoa se nega a aceitar. Nós recusamos esses símbolos, queremos ser outros. Na verdade, a gente ouve essas músicas e gosta, fica emocionado, mas tem vergonha de admitir para alguém que gosta: acha que será tachado de brega. O que vejo lampejando no futuro é o neoliberalismo capitalista dos Estados Uniados, aquele que faz a nossa cabeça no cinema, na TV. É esse modelo que as pessoas almejam sinceramente. Então, quando vemos tudo aquilo que faz parte do passado, recusamos a aceitar. Isso é um fator de infelicidade, pois a gente nega a nossa própria identidade, nega que pertencemos a uma terra, o nosso Brasil. Tanto o Zezé di Camargo e Luciano quanto o Tião Carrero e Pardinho cantam os nossos símbolos de pertencimento, antes do campo, hoje da cidade.
DEBATEHá uma diferenciação por parte da sociedade sobre a qualidade da música caipira e da música sertaneja. Hoje em dia o sertanejo é mais discriminado que o caipira?
Romildo — O caipira não é discriminado em termos. Aqui no Brasil eles ainda são desprezados porque nós não preservamos nossas raízes. Quando você vai à Espanha, irá ouvir música Flamenca; na Itália, tarantela. Nós, brasileiros, nos recusamos a ouvir baião, xaxado ou música caipira. Há regiões mais desenvolvidas do país em que não há tanta rejeição. O gaúcho, por exemplo, gosta muito da sua música tradicional, mas nós, paulistas, somos metidos a besta; nosso caipirismo é uma face negada da nossa cultura. Enquanto o gaúcho bate no peito e tem orgulho de ser gaúcho, o paulista não tem orgulho de ser caipira porque a gente confunde o caipira com o Jeca Tatu, o analfabeto. Mas é o caipira quem fez São Paulo ser a potência que é hoje.