• Caderno D
BR-153: Oh, doce viagem...

Itamar Rabelo
Da Equipe de Colaboradores

Sexta-feira. Levanto-me às sete e meia da manhã. O dia amanhece com sol. Um pouco frio, é outono. Mas é um dia belíssimo e inspirador. O ritual é o mesmo de toda manhã: arrumar a cama, tomar um demorado e quente banho, fazer o café, preparar duas torradas e uma vitamina. Tudo arrumado, fui ao escritório, apanhei a pasta cheia de peças de coleção e tomei o rumo da porta. Ao sair, o recado fatal fica na porta da geladeira: Vou a Marília. Volto à noite!
Chegando à estação rodoviária, pedi uma passagem para Marília. Primeira surpresa: “Não vendemos passagem até Marília. O senhor tem que pagar até Ocauçu e lá, pagar de novo”. Perguntei o porquê de tamanha complicação. Nem resposta. O mistério ficará para a posteridade, pensei.
A viagem de ida: Buracos...muitos buracos. Imagine um caminhão bem velho, correndo numa estrada cheia de buracos, com dois ou três malucos encarapitados na carroceria. Eles pulam como pipoca, não é mesmo? Pois foi assim que eu me senti. O ônibus era uma carroça velha, com bancos de fibra de vidro e suspensão dura. A cada solavanco, uma parte em mim doía.
Primeira parada: Ribeirão do Sul. Dores. Muitas dores por todo o corpo. Mas as paisagens são bonitas, pensava eu. Como não há elevações, pode-se contemplar as vastas plantações de café, milho e mandioca, que se estendem no horizonte até onde os olhos podem alcançar.
Segunda parada: Ocauçu. Um velhinho à minha frente resolve retocar o perfume. Saca um vidrinho com uma água verde e lava a cara toda. O cheiro se espalha por todos os cantos do carro. Motorista dá um berro: “Quem vai a Marília tem que pagar de novo!” Paguei. Depois de uma volta pela cidade, retomamos o rumo da estrada. Mais solavancos.
Terceira parada: Lupércio. Agora, um pouco de sossego. A estrada é tão boa que nem se percebemos que estávamos num ônibus saltitante. A cidade é pequena, mas bem cuidada, bonita mesmo. E tem até uma estação rodoviária!
A chegada: Enfim, Marília. Ao descer do ônibus, as dores de novo. Cada pedacinho do meu corpo tem uma dor diferente.
Marília tem ares de cidade grande, é muito bonita e simpática. A estação rodoviária não fica mais no centro. Em seu lugar, há agora um sem-número de pequenas lojas. Mas o local ainda conserva aquele aspecto típico de cidade de interior, que nos dá uma sensação de antigüidade, como se o tempo por ali, tivesse parado. De repente, fui tomado pela nostalgia...
Resumo da ida: Levamos três horas para percorrer apenas 90 quilômetros.
A volta: Depois de fazer tudo o que tinha que fazer por lá, voltei à rodoviária. Pedi uma passagem para Ourinhos. De novo uma surpresa: o preço é o dobro do da ida. Ora, mas por quê? “Não vendemos passagem de Marília a Ourinhos. O carro vem de Lins e então, a passagem é de Lins a Ourinhos!” Pronto, paguei por uma viagem que não fiz.
Mas o ônibus é melhor. Bancos reclináveis! Tentei reclinar um, não deu. Tentei outro, não deu. Alguém gritou lá do fundo: “Não adianta. Tá tudo travado!” Voltei sentado num banco reclinável que não reclina...
E de novo, passamos por Lupércio, Ocauçu (sem segundo pagamento) e Ribeirão do Sul, até chegarmos a Ourinhos. Dessa vez, levamos duas horas e meia para percorrer os mesmos 90 quilômetros.
Nove da noite. Estou em casa agora, descrevendo essa odisséia, com os dois pés dentro de uma bacia cheia de água quente. Pelo menos, restou-me um consolo: o de ter sido bem recebido pelos marilienses e principalmente, pelo meu amigo Humberto. Valeu o esforço.