| Caderno D |
Itamar Rabelo
Da Equipe de Colaboradores
Sexta-feira. Levanto-me às
sete e meia da manhã. O dia amanhece com sol. Um pouco
frio, é outono. Mas é um dia belíssimo e
inspirador. O ritual é o mesmo de toda manhã: arrumar
a cama, tomar um demorado e quente banho, fazer o café,
preparar duas torradas e uma vitamina. Tudo arrumado, fui ao escritório,
apanhei a pasta cheia de peças de coleção
e tomei o rumo da porta. Ao sair, o recado fatal fica na porta
da geladeira: Vou a Marília. Volto à noite!
Chegando à estação rodoviária, pedi
uma passagem para Marília. Primeira surpresa: Não
vendemos passagem até Marília. O senhor tem que
pagar até Ocauçu e lá, pagar de novo.
Perguntei o porquê de tamanha complicação.
Nem resposta. O mistério ficará para a posteridade,
pensei.
A viagem de ida: Buracos...muitos buracos. Imagine um caminhão
bem velho, correndo numa estrada cheia de buracos, com dois ou
três malucos encarapitados na carroceria. Eles pulam como
pipoca, não é mesmo? Pois foi assim que eu me senti.
O ônibus era uma carroça velha, com bancos de fibra
de vidro e suspensão dura. A cada solavanco, uma parte
em mim doía.
Primeira parada: Ribeirão do Sul. Dores. Muitas dores por
todo o corpo. Mas as paisagens são bonitas, pensava eu.
Como não há elevações, pode-se contemplar
as vastas plantações de café, milho e mandioca,
que se estendem no horizonte até onde os olhos podem alcançar.
Segunda parada: Ocauçu. Um velhinho à minha frente
resolve retocar o perfume. Saca um vidrinho com uma água
verde e lava a cara toda. O cheiro se espalha por todos os cantos
do carro. Motorista dá um berro: Quem vai a Marília
tem que pagar de novo! Paguei. Depois de uma volta pela
cidade, retomamos o rumo da estrada. Mais solavancos.
Terceira parada: Lupércio. Agora, um pouco de sossego.
A estrada é tão boa que nem se percebemos que estávamos
num ônibus saltitante. A cidade é pequena, mas bem
cuidada, bonita mesmo. E tem até uma estação
rodoviária!
A chegada: Enfim, Marília. Ao descer do ônibus, as
dores de novo. Cada pedacinho do meu corpo tem uma dor diferente.
Marília tem ares de cidade grande, é muito bonita
e simpática. A estação rodoviária
não fica mais no centro. Em seu lugar, há agora
um sem-número de pequenas lojas. Mas o local ainda conserva
aquele aspecto típico de cidade de interior, que nos dá
uma sensação de antigüidade, como se o tempo
por ali, tivesse parado. De repente, fui tomado pela nostalgia...
Resumo da ida: Levamos três horas para percorrer apenas
90 quilômetros.
A volta: Depois de fazer tudo o que tinha que fazer por lá,
voltei à rodoviária. Pedi uma passagem para Ourinhos.
De novo uma surpresa: o preço é o dobro do da ida.
Ora, mas por quê? Não vendemos passagem de
Marília a Ourinhos. O carro vem de Lins e então,
a passagem é de Lins a Ourinhos! Pronto, paguei por
uma viagem que não fiz.
Mas o ônibus é melhor. Bancos reclináveis!
Tentei reclinar um, não deu. Tentei outro, não deu.
Alguém gritou lá do fundo: Não adianta.
Tá tudo travado! Voltei sentado num banco reclinável
que não reclina...
E de novo, passamos por Lupércio, Ocauçu (sem segundo
pagamento) e Ribeirão do Sul, até chegarmos a Ourinhos.
Dessa vez, levamos duas horas e meia para percorrer os mesmos
90 quilômetros.
Nove da noite. Estou em casa agora, descrevendo essa odisséia,
com os dois pés dentro de uma bacia cheia de água
quente. Pelo menos, restou-me um consolo: o de ter sido bem recebido
pelos marilienses e principalmente, pelo meu amigo Humberto. Valeu
o esforço.