• Frei Lourenço M. Papin
Beleza física não é um valor absoluto

Frei Lourenço M. Papin, OP
Da Equipe de Colaboradores

Uma das características da sociedade moderna consumista é certamente o excesso de cuidados pela estética ou beleza do corpo. Estamos diante do fenômeno de um indevido culto ou devoção ao corpo, que denominaria de esteticomania.
Não desmereço a beleza física feminina e masculina, que deve ser cuidada e preservada. Aliás, o homem e a mulher, obra-prima do Criador, são um reflexo de sua infinita beleza.
Todavia, sinto-me no direito e com a liberdade de discordar dos exageros e da falta de racionalidade e bom senso relativos à beleza do corpo.
Fala-se até demais em academias de ginástica, em musculação, em “malhação”, em cirurgias plásticas, em uso de sofisticados cosméticos e por aí afora...
Constata-se também uma desvirtuada e bastante generalizada preocupação pela magreza física que, quer me parecer, está entre as causas da anorexia nervosa. A propósito, é de lamentar-se a morte recente da jovem modelo, Ana Carolina Reston Marcan, 21, vítima dessa doença que, em entrevista concedida em abril deste ano, declarou que já tinha perdido o controle e parado de comer, e confessou: “Às vezes ainda me acho gorda. Tenho uma imagem distorcida de mim”.
Segundo o psiquiatra Fabio Salzano, do ambulatório de transtornos alimentares do HC: “Pesquisas internacionais mostram que a anorexia atinge mais pessoas ligadas ao mundo da moda, mas não é um problema exclusivo dessa área. A anorexia afeta de 2% a 4% da população em geral”.
Sensata a declaração da top Gisele Bünbchen: “Infelizmente, com a competição que existe no nosso meio, muitas meninas dão mais importância ao trabalho e a certos ideais de beleza do que à saúde. O que é um erro”.
Cuidar da beleza física é preciso, mas sem fazer dela um valor absoluto, como que um “rito” de culto corporal. “É preciso ter muita responsabilidade e estrutura emocional”, afirma a jornalista Vivian Whiteman.
Cuidar do corpo e da mente é uma exigência do mais sagrado dos direitos humanos, que é o direito à vida com dignidade; é uma exigência do amor para consigo mesmo, como critério de amor ao próximo. “Amarás ao próximo como a ti mesmo” reza o sábio mandamento bíblico.
O livro do Eclesiástico, no seu poema à mulher virtuosa, apresenta uma constatação realística a ser refletida e meditada por toda mulher (e por que não, pelo homem também?): “O encanto é enganoso e a beleza física é passageira”.
Ao contrário, nem enganosa e nem fugaz é a beleza moral e espiritual que consiste na prática das virtudes humanas e cristãs e na retidão do ser, do pensar e do agir.
A beleza moral e espiritual, merece o mais esmerado cuidado e cultivo. Ela não envelhece, é permanente, não perde a atração e desconhece as rugas, não obstante a idade, os percalços da vida, as limitações e as fragilidades físicas da criatura humana.
Sem a beleza moral e espiritual, a beleza física se banaliza e se esvazia, perde sua dignidade e seu sentido humano.
A beleza moral e espiritual se contrapõe a essa sociedade injusta, egoísta e consumista geradora da miséria, da pobreza e a da fome que desfiguram o homem e a mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, destroem ou diminuem sua natural beleza física, impedindo, tantas vezes, sua beleza moral e espiritual.
Nessa sociedade deparamos com rostos desfigurados de multidões de crianças, de jovens, de indígenas, de camponeses, de operários, de subempregados e desempregados, de marginalizados de nossas cidades e de anciãos cada dia mais numerosos. São rostos que lembram o rosto do Cristo sofredor que nos interpela e nos questiona.
O rosto do Cristo sofredor transfigurou-se, pela ressurreição, num rosto luminoso e glorioso. Sua ressurreição é garantia e inspiração para um processo de transfiguração física e espiritual da pessoa humana.
Importa tomar consciência de que sobre cada um de nós pesa uma parcela de responsabilidade pessoal e social na promoção dessa transfiguração.