• Caderno-D
E por falar em saudade


“Onde anda você,
Onde andam seus olhos que a
gente não vê...”
(Vinícius de Moraes)

Geraldo Machado*
Da Equipe de Colaboradores

Penso, existo e vejo o tempo que resvala como desce a areia da ampulheta, sem me dar confiança. Com ele, a abstração dos meus dias desinspirados, quase ou como se fosse a alegria de ver abrir no céu da pátria (neste instante) uma fresta nas nuvens, com mais sol na terra lavrada e na colheita plantada. De boa mente — embora neste sedentarismo que me amola — faz falta um insulto, um desafio à vontade de escrever. Foi assim até domingo, 22 de outubro manhoso, quando José Augusto Dias, na crônica: “O álbum”, deu-me um beliscão nas costelas e fez um chamado à vida e ao passado: “Quem se lembrará agora de retirar do fundo do baú o precioso relicário para uma leitura evocativa?” Antes já trazia consigo uma questão, quase um apelo: “Fico imaginando qual foi o destino dessas dezenas de coletâneas colhidas com tanto empenho e preenchidas com tanto esmero e boa vontade”.
Fui ao meu baú de ossos (qual o Nava), e lá estava — eu sabia — o álbum da Nelly, já ida, já vivida. Isso me fez lembrar Vinícius à procura do “onde”, do “quem sabe”, fora e além do baú e da gente, onde mal cabe a lembrança dos olhos que a gente não vê. “Lembranças” é o título do álbum com 41 páginas. Começa a abertura com o professor J. Nelo em 1º/12/1942, e termina em 9/8/1945, com a colega Priscilla Holland, da Escola de Educação Física e Desportos do Estado de São Paulo. São professorandos de 1945, privilegiados pelo paraninfo, o governador Prestes Maia.

Cenas de baile (J. Nelo)

“Tonico vai dançar. Tonico é um moço
Levado, buliçoso, brincalhão...
A dama – um hipopótamo de saia,
Dos muitos que se encontram num salão...
O fox que o jaz resmunga, neurastênico,
Embaraça-a de um modo singular...
— Cavalheiro! Diz ela, perturbada,
Não me acha mui pesada pra dansar?
— Pesada? Estou dansando com uma pluma!
Responde-lhe Tonico, sem demora,
E creia-me: acho-a, até, bem “leviana”...
O “pesado”sou eu, minha senhora...”
Ao fim, ao pé da página, a caricatura do professor a meio rosto, e a mensagem final, carinhosa: “Até a volta, Nelly!”
Na página 10, em 30/3/1943, Margarida (Sampaio?) transcreve outro soneto do professor J. Nelo. Vale ser lembrado pelos seus alunos:

Julgamento do coração

“O coração está sendo julgado:
A consciência é juiz, assiste o Amor,
E, sendo o Ódio elevado a promotor,
A constância defende o réu culpado:
— “Condenai-o, juiz, por ter roubado
um beijo!” eis que assevera o acusador.
A constância repele: — “Ouvi, senhor,
Dar beijo a quem se adora é algum pecado?”
Um silêncio se faz na sala imensa
E o juiz, muito calmo sabiamente,
Olha o réu e profere esta sentença:
“Pelo crime de amor que praticou,
Eu condeno este réu tão inclemente
A devolver o beijo que roubou!”
“O tempora! O mores!” Vejam a preciosidade do beijo do tempo do Nelo — nosso também — sem dúvida. Hoje em dia é promoção; não se rouba, não se furta — nem é furtivo, ilícito ou clandestino. O beijo, amigo, nos versos de Augusto dos Anjos, era a véspera. Hoje e por diante ele é e será momento e clímax simultâneos, tradicional ou transgênico.
De 1943 a 1945 eu vivi em Santa Cruz uma transitoriedade feliz e romântica. Nelly era amiga de minhas irmãs, Lúcia e Odette. Tinha só 17 anos e iniciava o seu curso de Educação Física em São Paulo, na USP. Eu tinha 23 e nos víamos com bons olhos de admiração platônica. Eu tive a página 9 do álbum (17/10/1943). Por respeito ao José Augusto Dias, rendo-me à pieguice. Nesta idade da licença concedida sem pecado, estou no rol desses “Alguns, mais inspirados ou mais ousados”... “como no meu caso, porque jovens e sonhadores”. Não fujo à regra:
Nelly: Para deixar alguma coisa que assinale a minha existência entre as suas amizades; algo que avive a lembrança — quase sempre vaga e fugaz — não me vejo em dificuldade. Não necessito prolongar-me em extenso palavreado. Em questão sentimental, a extensão cede à intensidade e as coisas breves são as mais lembradas. Outro motivo existe e é, talvez, toda a razão que me anima e entusiasma. É a admiração que tenho por você. Falar nela, dela, não é fácil. Sinto sem liberdade neste pouco de espaço que chega a ser quase uma censura. Contenho-me, com discrição. Creia que farei por ser, sempre, um seu bom amigo – Geraldo.
Ela perdoou, com o tempo, o lugar comum e o paladar insosso dessa página 9 do relicário. Em 8/9/1947, veio a sentença: “Pelo crime de amor que praticou / Eu ordeno este réu tão inclemente / A devolver o beijo que roubou”. E então o juiz (que era de paz) casou num só acróstico o nome do casal sem exigir, como resposta, o amém. “Vão daqui os dois embora em paz! Para isso, basta que se amem”.
Hoje — ou melhor, agora — eu me lembro dos versos de Cesário Verde, os mais surpreendentes do poema Arrojos:
“Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o sol como desfaço
Às bolas de sabão das criancinhas”.