| Caderno D |
Itamar Rabelo
Da Equipe de Colaboradores
Imaginem, meus caros amigos,
a seguinte situação: o cidadão sai de casa
tranqüilo, pensando em realizar o trabalho do dia na maior
calma e no fim da jornada, voltar para casa e dar aquele beijo
estalado na cara-metade. Porém, bem no meio do caminho...
plic! ploc! A chuva começa a cair. E o pobre cidadão,
desprevenido, não sabe se corre ou se entra num estabelecimento
qualquer e espera. E na ânsia por decidir o que fazer, começa
a correr.
De repente, numa esquina, ele depara com um bueiro entupido. Minha
santa bactéria!
Pronto, os pés caíram inadvertidamente numa enorme
poça, que começa na sarjeta e abre-se pela esquina
afora, como um rio. Os pés molhados, as meias, os sapatos,
tudo molhado. As calças, até os joelhos, molhadas.
E a alma, toda lavada. De chuva.
Num instante, o cidadão começa a pensar naquele
instrumento estranho, mas útil, que ele escondeu no fundo
do armário, com vergonha de que alguém o veja: o
bom e velho guarda-chuva.
A história do guarda-chuva, como a de muitos objetos comuns,
é um pouco confusa. Para começar, sua origem é
incerta, mas sabe-se que ele é bem velhinho (um vaso grego
de 2.300 anos atrás já mostra que aquele povo o
utilizava com freqüência). Inicialmente não
serviu para proteção contra a chuva, mas contra
os raios solares. Isso mesmo, ele fora, antes, um guarda-sol e
foi inicialmente usado com fins religiosos. Foi na forma de guarda-sol
que ele conquistou o mundo, até ser introduzido na Europa,
pelo inglês Jonas Hanway, no século dezoito, justamente
para proteger os britânicos contra a chuva. Inicialmente
ridicularizado, o acessório acabou por incorporar-se ao
cotidiano dos britânicos, que até hoje não
saem de casa sem carregar um guarda-chuva pendurado no braço.
Agora voltemos para nossa amada cidade e para o nosso cidadão.
Depois de saltitar sobre a poça gerada pelo bueiro entupido
ele alcança o outro lado da esquina e esconde-se sob o
toldo de um bar. Sente alívio, respira fundo. Até
dá uma relaxada.
Mas por pouco tempo. Um motorista sacana aumenta a velocidade
de seu carro e avança contra aquela enorme quantidade de
água acumulada no canto da esquina e o jato vai direto
no peito do cidadão. Agora já não são
mais as calças, os sapatos, meias e pés molhados.
A camisa também. E a auto-estima também. Nosso cidadão
já se sente injuriado, injustiçado, premiado com
toda desgraça do mundo. Só porque esqueceu seu guarda-chuva
no fundo de um armário.
Então ele decide voltar para casa. Não quer chegar
ao escritório naquela situação. Seria humilhante.
E ele volta como veio: correndo. Ao chegar, a surpresa maior:
todos os guarda-chuvas da casa estão abertos na sala. Motivo?
Goteiras.
O filhinho, que estava na escola, decidiu voltar correndo para
casa também. Já vem de longe a história de
que o jovem odeia guarda-chuva. Esse, como não é
exceção, chegou todo empapado, pingando. E ao sentir
um friozinho diferente na espinha, aquele calafrio gostoso, que
faz a gente tremer e balançar... nem vou falar, estragou
o taco novinho.