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Diretora não tem sala e só administra cinema

CULTURA — Luciane de Almeida Arruda Campos admite que cinema está “no vermelho” e diz que trabalha “em conjunto” com o secretário Samuel Reis



Para Rui Reis (PV), Luciane é mera "gerente do cinema" com salário de diretora; Luciane admitiu prejuízos
A sabatina da diretora de Cultura, Luciane de Almeida Arruda Campos, antes da sessão ordinária da Câmara na última segunda-feira, 14, não convenceu os vereadores de Santa Cruz. Sem sequer uma sala para trabalhar no município, Luciane — que é proprietária do cinema de Piraju, onde mora — não soube explicar de qual repartição parte a verba de R$ 10,5 mil mensais para a manutenção do cinema do Palácio da Cultura Umberto Magnani Netto e garantiu que trabalha “em equipe” com o secretário da Cultura, Samuel Reis. Este, por sinal, diz o contrário.
Luciane afirmou que conseguiu baixar o preço dos ingressos mediante negociação com a distribuidora Columbia/Tri Star por telefone, para “fomentar o hábito” na população santa-cruzense — embora seu cinema particular, em Piraju, não conte com a mesma possibilidade. Para alguns vereadores, ficou claro que o cinema em Santa Cruz dá prejuízo. O marido Josino José Arruda Campos e o advogado João Benedito Gabriel — assessor jurídico do prefeito — acompanharam Luciane durante a “sabatina”, que durou pouco mais de uma hora.
A diretora foi convocada pela Câmara após o secretário Samuel Reis afirmar que não tinha qualquer contato com a subordinada. De acordo com ele, a diretora teria praticamente poderes de secretária e só prestaria contas ao prefeito Adilson Donizeti (PSDB).
O secretário reclamou, inclusive, que não via Luciane trabalhar — e ela própria admitiu a Rui Reis (PV) que sequer existe uma sala designada para seu trabalho —, sugerindo a sabatina aos parlamentares para saber o que ela faz como diretora de Cultura.
“Mal-entendido” — Interpelada por Leandro Mendonça (PSDB), que questionou o distanciamento entre ela e a pasta à qual é subordinada, Luciane afirmou que o secretário Samuel Reis teria “colocado mal as palavras”. “Nós trabalhamos em equipe. Acho que ele colocou dessa maneira porque sou eu quem cuida da parte dos filmes”, justificou. Segundo ela, com exceção do último mês — quando o projetor foi levado a São Paulo para manutenção —, ela apresenta o balanço mensal do cinema ao secretário. A diretora admitiu que sua principal função no cargo que ocupa é “gerenciar o cinema” e que qualquer outro encargo que não tenha ver com as projeções — como reformas no prédio para teatro ou dança, por exemplo — são de responsabilidade do próprio secretário.
Ao ser questionada sobre a freqüência com que Samuel era informado do caixa do cinema, Luciane garantiu ao presidente Roberto Mariano Marsola (PTB) que, com exceção de abril, em todos os meses ela passou informações ao secretário. “Na entrevista com o Samuel, consta que a senhora não tinha vínculo nenhum com ele. Seria uma funcionária que presta contas direto à prefeitura. Achei muito estranho um diretor de cultura não prestar conta para o próprio secretário e mais estranho ainda é a senhora dizer que deixou apenas um mês de prestar contas”, alertou Marsola.
Ao ser lembrada de que as duas convocações foram gravadas e que havia discrepância entre elas, Luciane disse que, quando ingressou para o quadro da prefeitura, teve dificuldades em prestar contas ao seu superior hierárquico. “Mas todas as semanas o dinheiro da bilheteria é depositado na conta da prefeitura e tenho todos os recibos”, disse.
“No vermelho” — As contas feitas pelos parlamentares apontam que o cinema em Santa Cruz, mesmo antes do projeto “Cinema Para Todos” — de redução de preços, alardeado pelo prefeito Donizeti —, não é lucrativo e só permanece funcionando graças a subsídios da prefeitura.
Segundo a diretora, a verba mensal de R$ 10,5 mil — R$ 126 mil anuais — servem para bancar os gastos com infra-estrutura e com a folha de pagamento do empreendimento estatal. Assim como Samuel Reis, entretanto, ela não soube explicar aos vereadores de onde vem a verba destinada à manutenção do cinema. “Acho que é da secretaria, mas não tenho certeza”, disse. José Basílio Romano (PHS) sugeriu convocar a diretora e o secretário para prestarem esclarecimentos juntos. “Alguém tem que saber de onde vem essa verba”, reclamou.
Luciane Arruda foi evasiva ao questionamento de Basílio, sobre a possibilidade do cinema se sustentar somente com a bilheteria — de acordo com ela, esse tipo de estabelecimento é lucrativo apenas em temporadas —, mas não conseguiu escapar da pergunta de Antônio Ferreira de Jesus, o Teco (DEM, ex-PFL): Luciane admitiu que o cinema está “no vermelho”. Ela tentou justificar o saldo negativo com investimentos no prédio, como a instalação do condicionador de ar e troca do sistema de som.
Luciane explicou que o filme não traz prejuízo ao cinema, uma vez que as distribuidoras cobram 50% da bilheteria de cada semana. Porém, de posse da arrecadação de bilheterias levantada pela própria diretora, da reinauguração até a primeira semana de março, Jorge Araújo (sem partido) considera que o cinema nunca foi lucrativo.
Segundo o levantamento, as 33.686 pessoas que assistiram a filmes no Palácio da Cultura deixaram, no período citado, R$ 149.299. “Se fizer o cálculo, são repassados R$ 126 mil/ano. Mas a receita que ficou para o município foi de R$ 74.469 mil, porque a outra metade da bilheteria vai para a distribuidora. Então, percebe-se que o cinema já vem dando prejuízo desde 2005”, calcula o vereador.
“Para todos” — O vereador Edvaldo Godoy (PPS) estranhou o fato do prefeito anunciar o “programa” Cinema Para Todos — que reduz o valor dos ingressos para R$ 4 a inteira e R$ 2 a meia-entrada para estudantes, idosos e trabalhadores — justamente na época em que Luciane Arruda Campos foi convocada para prestar esclarecimentos à Câmara. “Por que esse preço agora e não lá atrás, já que a inflação faz o preço subir?”, questionou.
Luciane disse que a tentativa é atrair mais público ao cinema e que conseguiu essa parceria conversando “por telefone” com a Columbia, distribuidora dos filmes programados. Para ela, a queda no preço pode promover o aumento no movimento, o que compensaria a arrecadação da bilheteria. Em seu cinema particular em Piraju, entretanto, a redução dos ingressos não será aplicada. “Não vi necessidade de fazer isso em Piraju ainda”, afirma Luciane. O curioso é que o público de Santa Cruz, alardeado pelo prefeito em informativos e em rádios — e confirmado pela diretora — está acima dos 3% da população que vão ao cinema no Brasil. Já em Piraju, de acordo com Luciane, os freqüentadores da sala de projeção particular não ultrapassam a média nacional.
Rui Reis (PV) questionou o fato da diretora trabalhar ao mesmo tempo para um empreendimento particular e para a prefeitura de Santa Cruz. Luciane afirma que nem sempre busca filmes para ambos os cinemas e que suas viagens e gastos com telefonemas são pagos com o próprio salário — de aproximadamente R$ 1,4 mil. “Isso não exclui o fato de que, recebendo pela prefeitura, também trabalhe para interesses particulares”, lembrou o parlamentar, para quem a diretora não passa de “gerente do cinema”.