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A melhor do mundo

Silvia Morbi
Especial para o DEBATINHO

A professora entrou na sala com um sorriso iluminado. Pendurou a bolsa no ombro da cadeira, colocou a pasta em cima da mesa, recolheu algumas figuras que se espalharam e depois de escrever a data na lousa, sentou-se e olhando cada criança disse-lhes que naquele dia a aula seria especial.
Começou contando que tinha sonhado, coisa que não acontecia há muito tempo, e que nesse sonho voltara a ser criança. Sentia seu corpo ágil e os cabelos compridos e finos caindo nos olhos. Sentia o cheiro gostoso do doce de banana que a vó mexia sem parar na panela que iria raspar até o fim pra não precisar lavar, sentia os pés descalços na terra do quintal, ouvia o latido da Laika no portão e vozes... vozes que jamais ouviria quando adulta.
O sonho relatado pela professora, cujos olhos agora se perdiam na distância do tempo, a transportara há um dia qualquer da infância, mas que só agora ela percebia, de incomum felicidade. Felicidade de sentar-se à mesa com as irmãs e dividir um copo de guaraná, de brincar de casinha na calçada, de gemer de dor quando a mãe penteava-lhe os cabelos, de andar na garupa da lambreta do pai, de repetir as orações que as avós ensinavam... e sobretudo das histórias que ouvia no colo do Zéca, o avô-menino. Os dias que tinham sido passado, agora presente, a fizera ver - e transmitir às crianças que a olhavam com afeto – a importância da simplicidade das coisas para a vida de uma criança: improvisar um brinquedo quando o dinheiro não dá pra comprar o melhor e mais moderno; o prazer depois da longa espera por aquele tênis; o passeio de mãos dadas entre os pais; o almoço de domingo, risadas, gritos e brigas entre os irmãos; a tarefa escolar assinada pela mãe com um bilhetinho de muito bem; o lençol cheiroso na hora de dormir; a lágrima enxuta com um beijo; um conselho amigo; ouvidos e braços abertos. Ela continuava a contar sobre seus dias de alegria, vividos ao lado das pessoas que a ensinaram a não ter medo do escuro, a não falar de boca cheia, estudar a tabuada, ler, mas sobretudo, ser honesta consigo mesma e acreditar que ninguém nunca está só. A professora encerrou a história e seus alunos iniciaram outra. No alto da página lia-se o título: Minha Família...