| Frei Betto |
FREI BETTO*
I
Em Belém, Caleb atende à porta. Ao ver quem bate,
fecha-a de imediato, enquanto o visitante insiste aos murros,
como se quisesse derrubar a parede.
A mulher, Cozbi, indaga quem é. Meu irmão.
O José?, pergunta ela. Sim, teve o descaramento
de engravidar uma jovem de Nazaré sem nem terem se casado,
como manda a nossa lei. Agora vem com a buxuda pedir abrigo em
nossa casa. Como hei de acolher quem viola os preceitos ditados
por Javé a Moisés? Eles que procurem outra freguesia.
II
Eleazar realizou, enfim, seu velho sonho: um pequeno sítio
nas proximidades de Belém. No pasto, misturou vacas, cabras
e cordeiros. Montou um cocho de madeira e armou, em torno, um
toldo de bambu coberto com folhas de palmeira.
De madrugada, Efraim, pastor contratado pelo dono da terra, bate
forte pelo lado de fora da janela. O patrão, sonolento,
parece receber como pesadelo a notícia: Invadiram
suas terras, meu senhor. Tem um casal acampado lá na estrebaria.
Escutei um choro miúdo. Parece que a mulher deu à
luz um menino.
Avise a guarda. Ao despontar do sol cuidaremos de tirá-los
de lá, resmunga Eleazar interessado em retomar o
sono.
Dia seguinte, o Diário de Belém dá em manchete:
Família sem-teto e sem-terra invade propriedade rural
na periferia da cidade. No corpo da notícia: Moça
de Nazaré, engravidada por carpinteiro, teve parto em pleno
pasto. A criança é do sexo masculino.
III
Guiadas pela estrela de Davi, as três rainhas magas, Ada,
Míriam e Sela, chegam à manjedoura. Após
louvarem a Javé, aquecem um caldo de galinha para Maria,
alimentam José com pães ázimos recheados
com grão-de-bico, lavam as fraldas do bebê, varrem
o estábulo. Ao buscar água na fonte, comentam entre
si: O menino em nada se parece com o pai...
IV
A notícia do nascimento do menino não tarda a chegar
ao palácio de Herodes, em Jerusalém. Ele fica alarmado;
afinal, é o rei dos judeus, malgrado o sangue árabe
que corre em suas veias. Sabe, porém, que tem os dias contados,
carcomido pelo cancro. A proximidade da morte o aterroriza tanto
quanto os agouros que lhe ameaçam o trono.
Pede a Corinto, comandante da guarda, convocar reunião
em palácio dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da
lei, os escribas.
O convite trazido por Corinto deixa Anás excitado. No íntimo,
considera-se o verdadeiro rei da Palestina. Comparece em companhia
de duas dezenas de membros do sinédrio o conselho
supremo do poder judaico, integrado por 71 notáveis, e
do qual ele, na condição de sumo sacerdote, é
o presidente.
Herodes é introduzido no salão a bordo de uma liteira
de marfim sustentada por quatro escravos. Anás mal consegue
controlar sua curiosidade por conhecer o motivo de tão
inesperada convocação. O rei quer saber dos sinedritas
onde e quando deve nascer o Messias que tanto aguardam. Gamaliel
cofia sua barba em leque e diz: Nascerá em Belém,
na Judéia, pois está dito pelo profeta Miquéias
E tu, Belém, de modo algum és a menor entre
as cidades de Judá, pois de ti sairá para mim aquele
que deve guiar Israel. Quando isso ocorrerá escusa-se
o doutor da lei , não está ao alcance do
nosso saber.
Herodes não admite que a sua soberania seja desafiada por
rumores em torno de um menino-messias. Ordena que a guarda de
operações especiais, comandada pelo espadaúdo
Tirano, dirija-se a Belém e passe ao fio da espada todas
as crianças do sexo masculino com menos de dois anos de
idade.
Ao amanhecer, as tropas herodianas ocupam Belém. Os batedores
vão de casa em casa. Ordenam que todos os meninos de colo,
e aqueles que ainda não caminham com firmeza, sejam trazidos
à rua por suas mães. As outras mulheres devem permanecer
trancadas em casa, com portas e janelas fechadas, em companhia
de homens e crianças.
Toda a gente de Belém pressente que, desta vez, Azrael,
o anjo exterminador, voltou-se contra ela. As mães ficam
separadas dos filhos que, nus, são deitados lado a lado
ao longo das ruas. Os bebês choram um choro de abandono,
insistente, como se um presságio os movesse a sugar com
avidez o ar que, em breve, já não poderão
respirar. De rostos virados para as paredes das casas e dos muros,
e vigiadas por soldados, as mães riscam as pedras com as
unhas e lavam o musgo com as lágrimas.
Após observar cada criança à procura de algum
traço messiânico, Tirano dá o sinal para a
degola. O carrasco agacha-se, puxa a cabeça da vítima
para esticar o pescoço, ergue o cutelo e, num golpe, separa
o crânio do corpo. Algumas mães, desesperadas, ousam
voltar-se na direção dos filhos; são silenciadas
pela lâmina do punhal que lhes traspassa o coração.
Tirano passa ao fio de sua própria espada as mulheres que
furam o cerco das sentinelas e se abraçam aos filhos como
se quisessem fazê-los retornar ao útero.
Desde essa trágica manhã em Belém, os poderosos
cruéis tornaram-se conhecidos como tiranos.
Frei Betto é
escritor, autor da biografia de Jesus Entre todos os homens
(Ática), entre outros livros.