• Caderno D
Como combater o mau hálito?

Da Agência Jornal do Brasil

O seu parceiro evita te beijar e as pessoas mantêm distância durante uma conversa? É possível que você sofra de halitose, a exalação de odores desagradáveis provenientes da boca ou da respiração. O mal, que atinge 30% da população, é desconhecido pela maioria dos portadores, e pode causar danos psicossociais. Causado principalmente pela higiene bucal deficiente, inclusive má escovação da língua, o mau hálito pode ser controlado pelo paciente com um aparelho que mede o grau do distúrbio. A doença é caracterizada pelo cheiro de enxofre, e tem como principal fonte o ambiente bucal.
Segundo a Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas de Odores da Boca (ABPO), 90% do casos da doença têm origem na própria boca. A precária limpeza oral leva à formação da saburra lingual, substância viscosa esbraquiçada que fica no dorso da língua. É nela onde se acumulam alimentos e restos de células que servem de cultura para as bactérias. Estas, quando fermentam, liberam substâncias ricas em enxofre, o que provoca o mau hálito.
No entanto, a gengivite, doença periodontal, cáries extensas, presença de próteses mal confeccionadas e feridas cirúrgicas também são causas de patologia bucal da halitose. Além da amigdalite, que também estimula a formação do muco no dorso da língua. Outra causa comum associada à halitose é a xerostomia, diminuição do fluxo salivar, o que favorece a formação da placa bacteriana na parte posterior da língua. A falta de ingestão de líquido também contribui. Por isso é fundamental tomar de 2 a 3 litros de água por dia.
“Desde adolescente tinha mau hálito, o que me atrapalhou muito socialmente, cheguei até a perder um namorado. Os médicos diziam que o mau cheiro vinha do estômago, mas só fui descobrir a causa exata, que é a baixa salivação, aos 32 anos”, confessa a contadora Marina (nome fictício), de 37 anos. Cerca de 5% a 10% dos casos de halitose têm causas sistêmicas, quando é proveniente da circulação sanguínea, e o odor vem pela via pulmonar. Aparecem quando há jejum prolongado, estresse, hipoglicemia e alterações hormonais. “Três dias antes das mulheres ficarem menstruadas, elas apresentam um hálito diferente, devido à queda de hormônio progesterona”, relacionou o dentista Celso Senna.
Deficiência renais ou hepáticas e diabetes também podem causar mau hálito. Um diabético, por exemplo, costuma eliminar odor cetônico por via pulmonar. Com mais de 50 causas de halitose, deve-se ter cuidado ao diagnosticar a doença para excluir as possibilidades fisiológicas, como o mau hálito ao acordar — presente em 100% da população, devido a redução do fluxo salivar durante a noite — e as ocasionadas pela ingestão de determinados alimentos. “Quando a pessoa come cebola, o alimento é absorvido pelo intestino, cai na corrente sanguínea e chega aos pulmões. Nem adianta ficar escovando os dentes”, avisa Senna.
Num estudo realizado na Universidade de Toronto, no Canadá, os pesquisadores mergulharam os pés dos pacientes numa pasta com alho, e horas depois o odor foi eliminado pela boca. Isso prova que a halitose por ingestão de alimento não procede do estômago e sim dos pulmões. O hálito pode ser alterado também por alimentos embutidos e gordurosos, leite e derivados integrais em excesso, bebidas alcoólicas e refrigerantes, além de medicamentos, como para hipertensão, antidepressivos, antibióticos e antialérgicos. “Tive mau hálito quando estava tomando antibiótico. Eu nem percebi. Foi meu irmão que me avisou”, conta o advogado Ricardo Villela, 30 anos.
Ao contrário do que muitos pensam, alterações estomacais, como gastrite e úlcera, raramente causam halitose. O mal pode ser atribuído ao estômago em apenas duas situações: eructação gástrica — arroto — e refluxo gastroesofágico. Existem válvulas esfíncteres gastrintestinais que não permitem a passagem dos odores estomacais para o meio externo.

Como descobrir

Opinião
— Peça a uma pessoa de sua intimidade ou a uma criança — que geralmente é bem sincera — para sentir o cheiro do ar exalado por você.

Halímetro — Use um medidor de halitose, como o halímetro. Numa escala de zero a quatro, o aparelho mede o grau do distúrbio.

Fio dental — Passe o fio dental, sem sabor, nos espaços intradentes, cheire e examine a coloração. Se estiver vermelho, amarelado ou marrom, está na hora de procurar um profissional.

E-mail — No site na ABPO existe um serviço que você pode denunciar um amigo que tenha mau hálito, por mensagens automáticas e anônimas via e-mail.

Alimentação — Hidratação e alimentação rica em fibras ajudam. A prevenção é a medida mais importante no caso de mau hálito e acaba sendo também a principal forma de tratamento. Os cuidados englobam uma alimentação adequada e, principalmente, uma eficiente higiene bucal. Mas antes de tudo, é preciso buscar um dentista para descobrir se a halitose é bucal ou sistêmica.
Neste último caso, o paciente será encaminhado ao profissional da área. “Suspeitando do mau hálito, deve-se fazer o teste do enxofre, de preferência em jejum, e verificar se é positivo ou negativo”, adianta o gastroenterologista José Pentado. No caso de uma halitose bucal, deve-se iniciar uma tratamento de limpeza completo. Como a escova de dente não é capaz de remover os restos de bactérias no dorso da língua, o paciente deve usar um raspador lingual — vendido em farmácias. Em formato de U, o raspador consegue recolher os resíduos desde a raiz da língua.
Para quem tem halitose, é recomendado usá-lo pelo menos três vezes ao dia, e à população em geral, apenas uma vez. Além de remover a saburra, é necessário escovar os dentes três vezes por dia, e usar fita — mais eficiente que fio — dental diariamente. “A escova de dente deve ser renovada todo o mês. Tem que ser macia, ter o cabo reto, e não ter a cabeça muito larga”, sugeriu o dentista Celso Senna.

Álcool — Já a dentista Fernanda Neder alerta para não usar bochechos de soluções alcoólicas. “É importante também evitar refrigerantes e álcool, e deve-se beber muita água para manter a boca úmida”, explica. Fumar também causa péssimo hálito. A alimentação tem que ser rica em fibras, que ajuda na limpeza do dorso da língua e aumenta o fluxo salivar. “Passei a comer melancia, limão e maçã, e mascar chiclete dietético durante 15 minutos depois das refeições para estimular a salivação. Comecei também a tomar vitamina D”, diz Marina, que desenvolveu halitose a partir de uma xerostomia.
A dentista Fernanda Freitas aconselha aos que sofrem da doença a tentarem reduzir a salivação bucal: “O ideal é organizar uma alimentação em intervalos regulares, sempre sob supervisão de um nutricionista”.