• Caderno-D
Benzeduras

Euclides Rossignoli
Da Equipe de Colaboradores


Os entendidos em simpatias e benzeduras são capazes de identificar os males que podem e os males que não podem ser curados por meio dessas artes. Nas cidades do interior e no meio rural, as pessoas costumam saber quem benze isso e quem benze aquilo.
Uma noite, num sítio em Ipaussu, acabei participando de uma conversa que tratava do assunto.
— Pra curar mau-jeito é a dona Amelinha lá da Ponte Pequena. Ela costura. Costura três dias e não precisa mais.
— É, mau-jeito, só costurando mesmo.
— Pra terçol é a dona Perpétua.
— É, mas o terçol não é com benzedura. É com simpatia. O que a dona Perpétua faz é simpatia. O que ela benze, e é tiro e queda, é cobreiro.
— É verdade. Minha mulher teve um cobreiro feio que dava até medo. Ela benzeu sete dias e limpou tudo.
— Lá em Caporanga tem uma preta velha, a dona Serafina, que benze tudo o que é doença de criança: mau-olhado, tosse comprida, lombriga. Se não fosse ela, muita criança tinha morrido lá.
— E mordida de cobra, vocês já viram alguém benzer?
— Lá em Ourinhos, dizem que tinha um sujeito que benzia mordida de cobra. Mas ele já morreu.
— É, eu também ouvi falar. Mas um velho estava falando outro dia, lá na venda, que pelo menos uns três ou quatro morreram, mesmo com o benzimento dele.
— Mas aí é quando o veneno é muito forte. Tem cobra que tem um veneno danado de forte. Aí não tem jeito.
— Ah, mas se o sujeito é bom mesmo de benzedura, ele tem que curar.
— Não é assim não. Às vezes a pessoa não tem fé. Porque se não tiver fé...
— Lá em Bernardino de Campos tem uma mulher que até desfaz namoro e casamento.
— Isso aí não é benzimento. É feitiço.
— Mas feitiço eu acho que não existe não.
— Feitiço é a mesma coisa que bruxaria?
— Acho que é.
— Eu acredito em feitiço. Feitiço é uma reza forte. Eu conheci um sujeito, lá na Fazenda dos Bugres, que a mulher largou dele, diz que foi por causa de um feitiço que mandaram fazer.
— O Zuzinha benze bicheira. É uma semana e o animal fica livre dos bichos.
— Sabe essa dor de cabeça que a gente pega de ar? Essa aí o Ditão preto benze.
— Torcicolo ele também benze. Uma vez ele benzeu pra mim. Foi uma beleza.
— E chuva? Vocês já viram alguém que benze tempo feio de chuva? Eu não sei, mas dizem que existe benzedura pra chuva.
— Eu também já ouvi falar. Dizem que está armando aquele temporal, a pessoa benze e o temporal espalha. Só vem chuva mansa.
— Mas tem gente que não acredita em benzedura nenhuma. Um compadre meu, lá de Timburi, não acredita em nada. Um dia a gente tava falando em benzedura de chuva e ele deu risada. Disse que só vai acreditar em benzedura de chuva o dia que aparecer alguém pra benzer sol quente e vento frio.
— Sol quente, eu nunca ouvi falar que tem benzimento.
— Nem eu.
— Nem eu.
— Nem eu.
Eu também nunca ouvi.