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Ipaussu: "Cruca" inaugura obras inacabadas

IPAUSSU — Dois dias antes de transmitir o cargo, prefeito entregou obras ainda em construção; Luiz Carlos Souto (PSB) assumiu a prefeitura na quinta-feira


Souto inspeciona a estação de esgoto, “inaugurada” antes de concluída
Nos dois últimos dias de seu governo, o prefeito Paulo Sérgio Correia Leite (PSDB), o “Cruca”, inaugurou pelo menos três obras com direito à cerimônia, rojões, discursos e placa. Detalhe: elas estão francamente inacabadas. O CEL — Centro de Educação e Lazer —, por exemplo, é um prédio que sequer tem piso e o material de construção e máquinas no interior da obra denunciam uma construção em andamento. O novo prefeito, Luiz Carlos Souto (PSB), que tomou posse na quinta-feira, 1º, avalia a hipótese de entrar na Justiça para arrancar as placas alusivas à inauguração. Cruca não foi encontrado pela reportagem.
“Luizão” sempre teve um relacionamento difícil com o ex-prefeito, mas aparentemente a vitória eleitoral de outubro dificultou ainda mais a possibilidade de um entendimento. Cruca se negou a fazer a transição administrativa e não forneceu ao eleito todas as informações sobre a administração pública. Segundo o ex-prefeito, o motivo seriam “ofensas morais” que Souto e seu grupo teriam feito durante a campanha eleitoral de outubro. Para o novo prefeito, Cruca não estava respeitando o resultado das urnas.
No início da semana, Souto — que era vereador na legislatura anterior — e seu grupo foram surpreendidos com convites de inauguração de várias obras no final do governo de Cruca. As cerimônias foram marcadas para os dias 30 e 31, véspera da posse do novo prefeito.
No dia 30, por exemplo, Cruca “inaugurou” o Centro de Lazer do bairro Cônego Nazareno, onde o campo de futebol ainda não está pronto. Mas não faltaram rojões e placas. No dia seguinte, foi a vez do CEL (Centro de Educação e Lazer), onde sequer há piso e as paredes ainda estão sendo rebocadas. As marcas da construção são visíveis, com areia e terra na calçada e máquina de fazer cimento no interior. Mas nem por isso uma reluzente placa deixou de ser colocada na parede da frente, anunciando a “inauguração” do prédio na antiga avenida da Saudade.
Ainda no dia 31, Cruca anunciou a inauguração da Estação de Tratamento de Esgoto de Ipaussu, obra que ainda está incompleta. Falta, por exemplo, “apenas” interligar o esgoto da cidade e concluir algumas lagoas.
“É uma atitude impensada de uma pessoa que não pode estar em sã consciência”, disse, irritado, Luiz Carlos Souto, dois dias antes de assumir o governo de Ipaussu.

O prédio do CEL, totalmente inacabado, recebeu placa de inauguração
“Qualquer ser humano percebe que as obras estão inacabadas, mas serão concluídas no nosso governo. Não podemos aceitar alguém colocar uma placa numa obra que tem 3 ou 4 meses de construção”, disse o novo prefeito.
Para Souto, Cruca ainda não percebeu que foi derrotado nas eleições. “A cidade inteira sabe que o CEL ainda terá 4 ou 5 meses de obras até sua conclusão”, exemplificou. Segundo o novo prefeito, a placa de inauguração deve ser colocada quando a obra estiver terminada, momento em que a participação de Cruca certamente será lembrada. “Todo mundo viu que no final do governo ele fez loucuras para tentar, com o apoio da máquina, eleger seu candidato. Mas nós vencemos e ele não pode, no final do governo, entregar obras que não estão realizadas”, protestou Souto.
Para o novo prefeito, a atitude desmoraliza a administração de 8 anos de Paulo Sérgio. “Numa cidade pequena como Ipaussu, a vaidade não pode passar por cima do ego. Estas emoções precisam ser administradas”, protestou.

Providências — Como prefeito desde quinta-feira, Luiz Carlos Souto bem que poderia retirar as placas e fazer novas inaugurações no segundo semestre. No entanto, ele explicou que pretende recorrer à Justiça. “Nós vamos demonstrar que as obras não foram acabadas e quero a determinação da Justiça para tomar alguma providência. Se simplesmente arrancasse a placa, poderia ser visto como uma atitude pessoal”, afirmou.
Couto lembrou que vai ter dificuldades no início do governo justamente por causa da atitude do ex-prefeito de se negar a fazer a transição administrava. Ele contou, por exemplo, que o contrato de limpeza das ruas — que é terceirizado — terminou no dia 31 e o novo prefeito foi obrigado a negociar com a empresa uma prorrogação emergencial. Também há convênios, como a distribuição de leite, que podem sofrer falhas nos primeiros dias do governo por conta da falta de diálogo na transição.