Regina Rheda fala sobre
seu 5º livro e defende o vegano
LITERATURA Escritora
santa-cruzense que publicou o romance Humana festa vai dar palestra
no 12º Festival Vegano Internacional, que acontecerá
no Rio de Janeiro
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Regina
Rheda, escritora, cineasta e roteirista nascida em Santa Cruz,
dará palestra no Rio de Janeiro |
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Ela nasceu em Santa Cruz
do Rio Pardo e mora há dez anos nos Estados Unidos. Formada
em Cinema pela USP, a escritora Regina Rheda sempre teve o seu
nome vinculado à cultura. Foi vocalista e compositora da
Esquadrilha da Fumaça, banda de rock da chamada
vanguarda paulistana; diretora de curtas-metragens entre
eles Fuzarca no Paraíso (melhor curta Jornada da Bahia
e Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado);
Folguedos no Firmamento; A Bicharada da Doutora Shwartz; e Para
Onde Vamos?, documentário bem humorado sobre a passagem
de Fidel Castro pelo Anhembi em 1990. Além disso, trabalhou
como diretora nos programas infantis X-Tudo e Castelo Rá-Tim-Bum,
da TV Cultura.
A compositora e cineasta, que também escrevia roteiros,
se dedicou à carreira de escritora e, em 1994, publicou
o seu primeiro livro: Arca sem Noé histórias
do edifício Copan. Este livro lhe rendeu o Prêmio
Jabuti em 1995. Também recebeu o prêmio Maison de
LAmérique Latine, da Rádio France Internationale,
pelo conto O mau vizinho. Aliás, a editora
Record vai relançar, ainda neste ano, o Arca sem Noé
(3a. Edição). Regina Rheda ainda escreveu o romance
Pau-de-arara classe turística, a coletânea de contos
Amor sem-vergonha e outro romance chamado Livro que vende.
Seus trabalhos têm sido estudados em cursos de literatura
brasileira de várias universidades norte-americanas e analisados
em ensaios acadêmicos nos Estados Unidos.
Um pouco antes do Natal do ano passado, Rheda publicou o Humana
festa, primeiro romance brasileiro a abordar o veganismo e os
direitos animais como tema principal. A escritora ainda está
dando palestras sobre o livro e o movimento vegano.
Ela estará no Brasil para ler alguns trechos do Humana
festa no 12o. Festival Vegano Internacional, que acontecerá
na PUC-Rio entre os dias 22 e 25 de julho.
A autora disse ao DEBATE que o assunto principal do seu livro
é pouco conhecido. É delicado e (ainda) polêmico.
Na entrevista, por e-mail, Regina chegou a confessar, bem-humorada,
que achou a pergunta da anemia preconceituosa, e,
na resposta, deu uma pequena aula e completou: Se você
pensar um pouco, vira vegano.
Segundo Rheda, ser vegana significa não usar animais. Veganos
não consomem produtos de origem animal, como carnes, laticínios,
ovos e mel. Só compram, por exemplo, roupas, sapatos e
bolsas que não sejam feitos de couro, lã ou seda.
Não vão a zoológicos, circos, rodeios, rinhas,
nada disso. Quando precisam de remédios, priorizam uma
medicina natural baseada em plantas. E assim por diante.
Depois de ter participado de passeatas pela democracia nos anos
70, Rheda acha que, no Brasil, conseguiu-se formar um movimento
de base de esquerda que está cada vez mais sólido
e influente. E parece que, nos últimos anos, o governo
brasileiro tem olhado para os interesses da grande maioria da
população, que é pobre e essa população
está mais contente com a vida do que estava antes. É
pouco, mas já é um começo. E é quase
um milagre, dada a tradicional e implacável resistência
da classe dominante brasileira a qualquer mudança que vise
justiça social.
Rheda já não milita politicamente, a não
ser se o assunto for a causa vegana aí ela é
radical. A escritora santa-cruzense disse que pretende visitar
a cidade.
A seguir os principais trechos da entrevista.
Você virou vegana por arrependimento?
Eu me tornei vegana por uma simples questão de justiça.
Não é justo que os animais humanos façam
esses horrores com os outros animais. Só para comer carnes
e outros produtos de origem animal, por exemplo, os humanos maltratam
e matam muitas dezenas de bilhões de animais todo ano.
E sem necessidade! Eu digo sem necessidade porque é possível,
para o ser humano, viver bem, com saúde e prazer, comendo
só alimentos baseados em plantas. Até a American
Dietetic Association, um organismo oficial dos Estados Unidos,
já divulgou que a dieta vegana pode ser saudável
e os médicos americanos já receberam uma orientação
para apoiarem as escolhas dos pacientes que têm uma dieta
baseada em plantas. Eu sou vegana há 9 anos e vivo muito
bem. Conheço gente que é vegana há quase
40 anos e tem mais energia do que os jovens que não são
veganos.
Dizem que as veganas não têm humor. Bom,
você é anêmica?
Você citou dois preconceitos que, por uma lamentável
falta de informação, certas pessoas têm a
respeito dos veganos. Não se esqueça de que há
inúmeros onívoros que sofrem de anemia e inúmeros
onívoros sem senso de humor. Os veganos são tão
capazes de rir e se divertir quanto qualquer outro ser humano.
Um exemplo prático de que os veganos têm senso de
humor é meu novo romance, Humana festa, publicado pela
Record. O Humana festa trata da situação dos animais
de maneira densa e séria, mas com muitos toques de humor
e ironia. Muitas vezes as pessoas que não são veganas
têm razões para rir que são diferentes das
razões dos veganos. Como nossa sociedade é toda
estruturada sobre a exploração dos animais, os não-veganos
acham graça em coisas que, para os veganos, são
lamentáveis...
Fale sobre o Humana festa e o comportamento do homem.
Por que desde o Arca sem Noé você questiona as esquisitices
humanas?
Foi bom você mencionar o Arca sem Noé porque
ele vai ser relançado ainda este ano pela editora Record.
No Arca sem Noé, o que você chama de esquisitices
humanas eu expressei com uma forte perspectiva cômica, mas
também com uma grande empatia em relação
aos personagens e às pessoas em quem me inspirei para criá-los.
No Arca sem Noé há personagens que expressam, de
forma muito criativa, a ansiedade gerada por esses conflitos,
no modo de se vestir, de decorar sua casa, de ganhar a vida, de
se relacionar. Acho que é isso que você quer dizer
com esquisitice. No romance Humana festa, eu faço uma inversão
nessa coisa da esquisitice. Esquisitas são as pessoas que
o mainstream enxerga como as mais normais e apreciáveis.
Eu também ironizo o fato de as pessoas em geral acharem
os veganos esquisitos e faço algumas brincadeiras com essas
supostas esquisitices, aproveitando para rir de mim mesma, o que
é gostoso e saudável.
Em entrevista publicada no Gato Negro, você disse
que ficou durante um longo tempo entre a apatia política
e o cinismo. Quarente anos depois das passeatas pelas liberdades
democráticas, como você, agora no exterior, vê
o Brasil?
Acho que, no Brasil, conseguiu-se formar um movimento de base
de esquerda que está cada vez mais sólido e influente.
E parece que, nos últimos anos, o governo brasileiro tem
olhado para os interesses da grande maioria da população,
que é pobre, e essa população está
mais contente com a vida do que estava antes. É pouco,
mas já é um começo e é quase
um milagre, dada a tradicional e implacável resistência
da classe dominante brasileira a qualquer mudança que vise
justiça social. Mas um problema muito grave do Brasil (e
de tantos outros países) é a economia largamente
baseada na exploração animal. Essa economia já
acabou com muitas áreas florestais para usar como pasto,
e agora está destruindo a Amazônia também.
Mesmo a soja plantada na Amazônia é usada, principalmente,
para fazer comida de animais criados para consumo humano. Isso
tudo representa um desperdício inimaginável de recursos,
destruição ambiental, morte de animais selvagens,
poluição de águas, agravamento da situação
do aquecimento global, epidemias etc. A economia do Brasil está
crescendo, mas o problema é que está crescendo,
em grande parte, às custas da cultura da carne. Eu ilustro
o efeito devastador da cultura da carne sobre o ambiente, nos
capítulos em que trato de uma fazenda no interior paulista,
no meu romance Humana festa.
Poucos santacruzenses sabem que você é
nascida na cidade. Como se chamavam seus pais e o que eles faziam
em Santa Cruz?
Meu pai se chamava Luiz Antonio Rheda, tinha o apelido de
Pacal e era bancário. Minha mãe se chamava
Thereza Rheda, era professora primária e tinha o apelido
de Ninita. Os dois, hoje falecidos, viveram pouquíssimo
tempo em Santa Cruz do Rio Pardo, acho que entre 1956 e 1957.
Mudamos de Santa Cruz para Itatinga, quando eu ainda era um bebê.
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