Marcelo Picinin
Lixando-se

ARTIGO



Marcelo Picinin
Da Equipe de Colaboradores

Por estes dias, a imprensa deu destaque à revoltante entrevista daquele deputado federal (cujo nome não merece sequer citação) que disse “que está se lixando para a opinião pública”. Fiel retrato dos políticos tupiniquins, o dito cujo nada mais fez do que exteriorizar um pensamento profundamente arraigado nos homens públicos. Inclusive pelas bandas da Bijuteria da Sorocabana.
Lendo e ouvindo as justificativas do presidente da Câmara sobre seu projeto de construção do novo prédio do Legislativo, não dá para deixar de fazer ligação com a infeliz frase do deputado. Lá, como, cá, os detentores do poder presunçosamente acham que não devem satisfações àqueles que lhes pagam os polpudos vencimentos mensais. Na época da ditadura militar, vigorava o nefasto “você sabe com quem está falando?”. Hoje, em tempos de ditadura da hipocrisia, temos o deputado que não se lixa e o vereador que acha que seu umbigo é o espelho da vontade popular.
À parte a beleza do projeto e sua proposta de funcionalidade diversificada, a idéia de construção da nova Câmara — que, por tratar-se de dinheiro público (e bota dinheiro nisso), deveria ser levada à análise e à aprovação dos contribuintes —, gira em torno apenas da primeira pessoa do singular: “eu”. “Eu” quero, “eu” posso, “eu” mando. Tradução: a opinião pública que se lixe com esse absurdo. Ganha um sorvete de amora a leitora que admitir ter sido ouvida ou consultada sobre a obra.
Numa terra onde faltam casas populares, melhorias no atendimento de saúde e tantas outros serviços mais urgentes e de fruição direta por parte da patuléia, somos brindados com a impactante e colossal obra de concreto, carpete e soberba que o presidente do Legislativo insiste em erguer às custas do suor alheio, com direito a inauguração com banda de música, corte da fita, pose para as fotos, entrevistas e — a cereja do bolo — placa com o nome do “responsável” pela obra.
O novo prédio é usado como pretexto para proporcionar melhores acomodações da vereança e da meia dúzia de masoquistas que insistem em assistir às sessões, para eliminar barreiras arquitetônicas e para abrigar outras atividades (dentre outras desculpas). No fundo, no fundo, é um monumento ao ego. E você é quem vai pagar por isso, admirada leitora. O responsável pela conta está pouco se lixando para sua opinião.

Para pensar
“É fácil desperdiçar o que nos sobra. Difícil é viver de restos” (Andra Valladares).