• Coluna de Pascoalino S. Azords

Salim e a bomba atômica

Pascoalino S. Azords
Da Equipe de Colaboradores

Inicialmente, este era o título da minha crônica da semana passada que acabou sendo publicada como “O médico e o vereador”. A homenagem a Robert Louis Stevenson foi uma idéia de última hora. Stevenson, como todos sabem, é o escritor escocês do século XIX que, embora tenha morrido aos 44 anos de idade, deu à humanidade clássicos como “O médico e o monstro”. Para quem gosta de boa literatura, recomendo a excelente tradução para o português feita por Adriana Lisboa (Ediouro). Para quem não tem tempo a perder, existem versões resumidas na internet.
Resumir Stevenson é algo tão difícil como traduzir bons poetas, mas se eu tivesse que resumir em uma única linha “O médico e o monstro”, diria que é a história de duas pessoas completamente diferentes que convivem dentro de um mesmo homem. Mais ou menos como um pediatra que cerra as portas de sua clínica às 6 da tarde e, duas horas depois, na tribuna do parlamento municipal, recomenda a explosão de uma bomba atômica na cidade onde vivem as crianças que ele clinicou durante o dia — e as demais crianças e adultos do lugar.
Na última sessão da Câmara de Ourinhos, o vereador Salim Mattar (PSDB) usou a tribuna para externar a felicidade que lhe proporcionou a publicação da crônica “O médico e o vereador”. Ele mal conseguia disfarçar a satisfação por ter seu nome lembrado em página de um jornal regional. Ora, se eu soubesse que lhe daria tanto prazer, teria colocado o seu nome no título e não no corpo da matéria, erro que reparo com a presente publicação. Afinal, se eu posso dar essa alegria a alguém, por que não fazê-lo — não me custa nada.
O vereador Salim Mattar estava tão feliz, mas tão feliz, que acabou se transformando em motivo de riso entre seus pares e a platéia. Fez tanto sucesso que o presidente da casa precisou apelar para a campainha com que se pede silêncio aos presentes no parlamento. Que ele não precisa de dinheiro, que tem uma boa clínica e é vereador desde o século passado, a gente já sabia. O que se desconhecia era essa veia cômica, essa capacidade de fazer rir demonstrada por Salim na última segunda-feira. Ele já tinha se arriscado como comediante há 15 dias quando assumiu que “talvez explodir uma bomba atômica (em Ourinhos) seja um pouco de exagero”. Na oportunidade, colheu os primeiros risos. Agora foi a sua consagração!
Vamos refletir sobre a performance do vereador Salim Mattar. Afinal, ele nos custa R$ 4.566,00 por mês, afora despesas de viagem, xérox, telefone, assessor parlamentar, motorista, porteiro, guarda-noturno, recepcionistas, cafezinho, água mineral, fitas de vídeo e o escambau que cada vereador custa, proporcionalmente, aos cofres públicos.
Além de se reafirmar como orador de segunda (talvez por força da segunda-feira), o vereador se revela um péssimo leitor. Conseguiu errar até o nome da crônica composto apenas de duas palavras com o correspondente artigo definido. Para consertar a primeira deficiência o vereador podia, ao invés de falar de improviso, apelar para um “improviso escrito”. Como não respondeu objetivamente a nem uma só linha da minha crônica anterior, podia, por exemplo, encomendar um discurso a seu assessor parlamentar Rodinei José Geraldi (salário mensal de R$ 2.189,00). Para aprender a ler (o que está escrito, e não o que imaginou ter lido), existem livros e cursos específicos. O vereador podia aproveitar o próximo recesso parlamentar e começar pelo sugestivo “A ilha do tesouro”, outro clássico de Robert Louis Stevenson. Ou, já que o meu texto o deixou tão alegre, reler a crônica “O médico e o vereador” (DEBATE de 10/5/2009), onde, em nenhuma linha se diz que o nobre edil rouba e tampouco reivindico parte dos seus proventos.
Não quero polemizar com quem quer que seja. Não vou procurar sete erros na fala de ninguém. Salim disse que “como médico é um herói, fantástico, maravilhoso”. Pode ou deve ser mesmo. Não é isso que se discute. O que eu quero é tentar trazer de volta ao mundo dos sensatos, à realidade, alguém que se permite prescrever uma bomba atômica para o que quer que seja.
Como se vê, o paciente é o vereador e não a cidade. Se estiver interessado em se recuperar, Salim poderia começar respondendo às minhas colocações, quais sejam: o vereador recomendou ou não a explosão de uma bomba atômica em Ourinhos? O vereador admitiu ou não que “talvez explodir uma bomba atômica seja um pouco de exagero”? Por que nos concede esse misericordioso “talvez”? Qual a dosagem a ser ministrada: quantas bombas ou de quando em quanto tempo elas seriam detonadas? Se ficar claro que o paciente (a cidade) pode se curar com medicação menos exagerada, o que o vereador-médico prescreve abaixo de uma bomba atômica? O que o prefeito Toshio Misato achou da idéia de prorrogar até o fim do mandato o castigo de não receber o vereador em audiência em represália à atitude de fazer piada com a memória de 120.000 japoneses torrados vivos em Hiroshima e Nagasaki?
Conselho de graça eu até dou, mas voltar a tratar de destempero verbal de vereador, isso eu não faço mais — em respeito à inteligência e paciência do leitor. Minha cota pessoal de sacrifício com essa gente eu pago em dia, na tesouraria da prefeitura, na forma de imposto. Pago resignado, certo de que só uma parte desse dinheiro se gasta com vereador — como que joga fora o primeiro gole da cachaça e diz que “foi pro santo”.