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Sinestesia: a capacidade de ouvir cores

Esta peculiaridade faz com que um em cada 15 mil
habitantes do planeta misture dois ou mais sentidos

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Sean vê bolas coloridas quando ouve o som de guitarra, Patricia sente o gosto dos objetos que toca. Para Eugene, Brasil é amarelo, Argentina é laranja e Canadá é pink. Essas pessoas possuem a capacidade da sinestesia, peculiaridade que faz com que um em cada 15 mil habitantes do planeta misture dois ou mais sentidos. Não se sabe ao certo como os impulsos elétricos que deveriam chegar à área da audição acabam esbarrando no tato, na visão, no olfato. De acordo com a teoria mais aceita, a mente processaria os dados em "módulos" distintos e, no cérebro dos sinestésicos, mais de um "módulo" estaria encarregado de processar a mesma informação.

A americana Patricia Frank, 50 anos, ouve o som das jóias que desenha e, dependendo da textura da peça, ela é capaz de sentir seu gosto. Patricia é dotada da capacidade da sinestesia, uma condição neurológica que transforma a informação real transmitida por um sentido em percepção de outro sentido.

A palavra sinestesia tem origem na soma das palavras gregas "syn", que significa junto, e "aisthesis" (percepção). O termo, portanto, quer dizer junção de sensações. A mistura que ocorre dentro do cérebro é involuntária e não é classificada como doença. De acordo com a maioria dos sinestésicos, essa condição não causa dor e nem atrapalha o dia-a-dia. Eles não perdem as impressões sensoriais normais, apenas sentem, ao mesmo tempo, outras sensações. Além disso, muitos possuem mais de uma forma de sinestesia.

Julia Cochan "enxerga" as vozes das pessoas com quem fala ao telefone. "A imagem formada ajuda-me a entender o humor da pessoa do outro lado da linha", diz. Funciona mais ou menos como um detector de mentiras. Imperceptível aos ouvidos normais, a mais leve mudança no timbre revela à Julia a personalidade do interlocutor.

Segundo estimativas feitas nos Estados Unidos, há uma pessoa sinestésica em cada 15 mil habitantes do planeta, e o número de mulheres sinestésicas é três vezes superior ao de homens. Alguns estudos indicam que a capacidade, transmitida geneticamente, estaria ligada ao cromossomo X que, como se sabe, aparece em dupla nas mulheres, enquanto os cromossomos sexuais masculinos são XY. As estimativas indicam ainda maior freqüência de manifestações sinestésicas entre canhotos do que entre destros.

PERSONALIDADE MARROM - Em razão da baixa ocorrência e pouca divulgação, não raro os próprios dotados acabam demorando a reconhecer e nomear a sinestesia. Assim ocorreu com Patricia, que descobriu possuir a capacidade apenas na adolescência, quando lia o romance "Guerra e Paz" e deparou-se com a expressão "personalidade marrom". "Aquilo falava de coisas que eu sentia", diz. Ela resolveu informar-se sobre o assunto e entendeu muitas outras situações pelas quais passara. A primeira manifestação da sinestesia na sua vida foi no pré-primário. Ela começava a escrever as primeiras letras. Com dezenas de lápis disponíveis, cada criança usava diversas cores para fazer seu alfabeto. Para Patricia, a letra A era necessariamente azul; B era marrom; C, amarelo; D, cinza; E era verde, e assim por diante. "Não entendia porque o menino ao meu lado usava as cores erradas para desenhar as letras", conta.

Há dezenas de modalidades de sinestesia. A mais comum é a visão de cada letra ou algarismo de uma cor diferente. E as cores designadas para cada letra do alfabeto também diferem de pessoa para pessoa. Alguns sinestésicos "vêem" sons, outros sentem o sabor de palavras ou formas, o cheiro dos objetos que tocam, enxergam imagens ao ingerir certos alimentos, e outras misturas de sensações.

Na Inglaterra, um time de psicólogos, psiquiatras e neurologistas comandado pelo psiquiatra Simon Baron-Cohen, do Instituto de Psiquiatria de Londres, estuda há seis anos esse peculiar comportamento da mente. Uma das conclusões do grupo é que o cérebro dos portadores de sinestesia é biologicamente distinto dos demais.

Autor livros como "The Man Who Tasted Shapes" ("O Homem que Sentia o Gosto das Formas") e "Synesthesia: A Union of the Senses" ("Sinestesia, A União dos Sentidos"), entre outros, o neurologista americano Richard Cytowic defende outra teoria: de que o cérebro dos sinestésicos não se diferencia na estrutura, apenas possui problemas com a maneira de hierarquizar os dados. Como alguém que, indeciso entre comer massa ou carne no restaurante, acaba pedindo uma combinação dos dois pratos, o cérebro do sinestésico transmite o mesmo estímulo, simultaneamente, para duas ou mais áreas sensoriais.

BIZARRO - No Brasil, não há estudos sobre o assunto. "Nada consta na literatura médica brasileira sobre sinestesia", afirma o professor Paulo Bertolucci, chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal Paulista/Escola Paulista de Medicina. "A sinestesia é um fenômeno extremamente raro e atrai a atenção por ser bizarro, mas não é uma anomalia, por isso a classe médica brasileira não se interessou pelo tema", justifica o neurologista Daniele Riva, do Hospital Sírio-Libanês.

O teste mais comum para saber se uma pessoa é sinestésica é o da constância. Para aqueles que possuem essa percepção, há correspondências específicas entre um estímulo e sua manifestação, ou seja, quem enxerga a letra E em roxo, verá sempre a letra dessa cor, durante toda a vida. Pede-se, então, para que a pessoa responda, aleatoriamente, a cor que combina com determinadas letras. Depois de alguns meses, o questionário é feito novamente. Os verdadeiros sinestésicos acertam 99% das respostas, enquanto que o percentual de acerto entre os não dotados da condição é de apenas 50%.

O especialista em sinestesia Sean Day enxerga bolas vermelhas, pinks e laranjas quando ouve som de guitarra. Se a música tocada tem acordes de piano, a cor que lhe vem à mente é o azul claro. "Eu realmente gosto de possuir essa habilidade: a sinestesia é para mim como um sentido adicional", afirma. "Tenho 38 anos e, conforme envelheço, a visão começa a ficar menos apurada, e imagino que isso vá ocorrer também com minha capacidade sinestésica, o que lamento muito, porque vou sentir falta dela."

Day, professor de inglês do Departamento de Lingüística da Universidade Central de Taiwan possui a capacidade desde a infância. Há oito anos, começou a estudar as causas e conseqüências da mistura de sensações para a sua tese de doutorado em neurolingüística. Depois de estudar 175 casos, já catalogou 19 tipos diferentes de sinestesia. Ele mantém uma página na Internet sobre sinestesia e comanda uma lista de discussões que reúne 250 pessoas dotadas de diversas modalidades sinestésicas.

Participante da lista de Day, o estudante de pós-graduação em Matemática Eugene Boos, de 28 anos, só descobriu sua aptidão para a sinestesia no ano passado, depois de ler uma reportagem do jornal "The New York Times" sobre o assunto. Além de ver letras e números coloridos, ele enxerga cores particulares para nomes de países, meses do ano e dias da semana. "Brasil é amarelo, Argentina é laranja, Canadá é pink, os Estados Unidos são verde-escuro", exemplifica. "Isso facilita o aprendizado de geografia e história, porque associo imediatamente o lugar à cor correspondente ou o fato ao mês em que ocorreu."

"ORA (DIREIS) OUVIR ESTRELAS!" - Alguns artistas usam aptidões sinestésicas para produzir obras de arte. O pintor russo Wassily Kandinksy (1866-1944), teria sido um deles. Segundo Sean Day, o artista russo não era um sinestésico, apenas sensível. Mas alguns de seus quadros estabelecem correspondência entre as cores e timbres de instrumentos musicais. Na literatura, notadamente na poesia, a figura de linguagem sinestesia é usada para surpreender e gerar frases incomuns. Não há registros de que o poeta Olavo Bilac (1865-1911) fosse portador dessa condição neurológica, mas "Ora (direis) ouvir estrelas!", primeiro verso do "Soneto de Via Láctea", é um dos mais conhecidos na língua portuguesa.

Carol Steen é uma artista plástica que vive em Nova York e afirma aplicar sua sensibilidade adicional nas pinturas e esculturas que cria. A sinestesia está presente em suas lembranças desde a infância. Ela enxerga letras e números em cores e também "vê" alguns sons.

Ao contrário dos outros sinestésicos entrevistados, porém, Carol experimenta algumas sensações desagradáveis em razão da percepção sensorial dupla. Ela descobriu essa faceta quando estava no dentista. O som do "motorzinho", odiado por todos os seres humanos sem tendências para o masoquismo, fez a visão de Carol ser inundada pela cor laranja. "E eu não podia fechar meus olhos, porque eles já estavam fechados".

Outro episódio dentário, no entanto, levou-a a usar sua aptidão sinestésica para fazer um auto-dignóstico. "Eu insistia em que um dente precisava de tratamento de canal, mas o dentista discordava, até abrir o dente e comprovar que, embora ainda muito antes do ponto crítico, a raiz estava morrendo e realmente seria necessário tratar", conta. "Eu sabia: aquele era um dente laranja". Depois que o nervo doente foi retirado, a cor laranja desapareceu da mente de Carol. "Definitivamente, laranja é minha cor para a dor."

Para saber mais:

Páginas na Internet:

http://web.mit.edu/synesthesia/www/synesthesia.html

(Site do MIT sobre sinestesia, com informações sobre as pesquisas feitas sobre o tema)

http://www.ncu.edu.tw/daysa/synesthesia.htm

(Home-page do especialista em sinestesia Sean Day, com definições, compilação de artigos publicados sobre o assunto, explicações detalhadas e acesso à lista de discussões)

Livros:

"Synaesthesia: a Union of the Senses", de Richard E. Cytowic, 1989, New York, Springer-Verlag.

"The Man Who Tasted Shapes", também de Richard E. Cytowic, 1993, New York: Putnam.

"A Natural History of the Senses", de Diane Ackerman, 1990, New York: Vintage.

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