A americana Patricia Frank, 50 anos, ouve o som das jóias que desenha e, dependendo da
textura da peça, ela é capaz de sentir seu gosto. Patricia é dotada da capacidade da
sinestesia, uma condição neurológica que transforma a informação real transmitida por
um sentido em percepção de outro sentido.
A palavra sinestesia tem origem na soma das palavras gregas "syn", que
significa junto, e "aisthesis" (percepção). O termo, portanto, quer dizer
junção de sensações. A mistura que ocorre dentro do cérebro é involuntária e não
é classificada como doença. De acordo com a maioria dos sinestésicos, essa condição
não causa dor e nem atrapalha o dia-a-dia. Eles não perdem as impressões sensoriais
normais, apenas sentem, ao mesmo tempo, outras sensações. Além disso, muitos possuem
mais de uma forma de sinestesia.
Julia Cochan "enxerga" as vozes das pessoas com quem fala ao telefone.
"A imagem formada ajuda-me a entender o humor da pessoa do outro lado da linha",
diz. Funciona mais ou menos como um detector de mentiras. Imperceptível aos ouvidos
normais, a mais leve mudança no timbre revela à Julia a personalidade do interlocutor.
Segundo estimativas feitas nos Estados Unidos, há uma pessoa sinestésica em cada 15
mil habitantes do planeta, e o número de mulheres sinestésicas é três vezes superior
ao de homens. Alguns estudos indicam que a capacidade, transmitida geneticamente, estaria
ligada ao cromossomo X que, como se sabe, aparece em dupla nas mulheres, enquanto os
cromossomos sexuais masculinos são XY. As estimativas indicam ainda maior freqüência de
manifestações sinestésicas entre canhotos do que entre destros.
PERSONALIDADE MARROM - Em razão da baixa ocorrência e pouca divulgação, não
raro os próprios dotados acabam demorando a reconhecer e nomear a sinestesia. Assim
ocorreu com Patricia, que descobriu possuir a capacidade apenas na adolescência, quando
lia o romance "Guerra e Paz" e deparou-se com a expressão "personalidade
marrom". "Aquilo falava de coisas que eu sentia", diz. Ela resolveu
informar-se sobre o assunto e entendeu muitas outras situações pelas quais passara. A
primeira manifestação da sinestesia na sua vida foi no pré-primário. Ela começava a
escrever as primeiras letras. Com dezenas de lápis disponíveis, cada criança usava
diversas cores para fazer seu alfabeto. Para Patricia, a letra A era necessariamente azul;
B era marrom; C, amarelo; D, cinza; E era verde, e assim por diante. "Não entendia
porque o menino ao meu lado usava as cores erradas para desenhar as letras", conta.
Há dezenas de modalidades de sinestesia. A mais comum é a visão de cada letra ou
algarismo de uma cor diferente. E as cores designadas para cada letra do alfabeto também
diferem de pessoa para pessoa. Alguns sinestésicos "vêem" sons, outros sentem
o sabor de palavras ou formas, o cheiro dos objetos que tocam, enxergam imagens ao ingerir
certos alimentos, e outras misturas de sensações.
Na Inglaterra, um time de psicólogos, psiquiatras e neurologistas comandado pelo
psiquiatra Simon Baron-Cohen, do Instituto de Psiquiatria de Londres, estuda há seis anos
esse peculiar comportamento da mente. Uma das conclusões do grupo é que o cérebro dos
portadores de sinestesia é biologicamente distinto dos demais.
Autor livros como "The Man Who Tasted Shapes" ("O Homem que Sentia o
Gosto das Formas") e "Synesthesia: A Union of the Senses"
("Sinestesia, A União dos Sentidos"), entre outros, o neurologista americano
Richard Cytowic defende outra teoria: de que o cérebro dos sinestésicos não se
diferencia na estrutura, apenas possui problemas com a maneira de hierarquizar os dados.
Como alguém que, indeciso entre comer massa ou carne no restaurante, acaba pedindo uma
combinação dos dois pratos, o cérebro do sinestésico transmite o mesmo estímulo,
simultaneamente, para duas ou mais áreas sensoriais.
BIZARRO - No Brasil, não há estudos sobre o assunto. "Nada consta na
literatura médica brasileira sobre sinestesia", afirma o professor Paulo Bertolucci,
chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal Paulista/Escola
Paulista de Medicina. "A sinestesia é um fenômeno extremamente raro e atrai a
atenção por ser bizarro, mas não é uma anomalia, por isso a classe médica brasileira
não se interessou pelo tema", justifica o neurologista Daniele Riva, do Hospital
Sírio-Libanês.
O teste mais comum para saber se uma pessoa é sinestésica é o da constância. Para
aqueles que possuem essa percepção, há correspondências específicas entre um
estímulo e sua manifestação, ou seja, quem enxerga a letra E em roxo, verá sempre a
letra dessa cor, durante toda a vida. Pede-se, então, para que a pessoa responda,
aleatoriamente, a cor que combina com determinadas letras. Depois de alguns meses, o
questionário é feito novamente. Os verdadeiros sinestésicos acertam 99% das respostas,
enquanto que o percentual de acerto entre os não dotados da condição é de apenas 50%.
O especialista em sinestesia Sean Day enxerga bolas vermelhas, pinks e laranjas quando
ouve som de guitarra. Se a música tocada tem acordes de piano, a cor que lhe vem à mente
é o azul claro. "Eu realmente gosto de possuir essa habilidade: a sinestesia é para
mim como um sentido adicional", afirma. "Tenho 38 anos e, conforme envelheço, a
visão começa a ficar menos apurada, e imagino que isso vá ocorrer também com minha
capacidade sinestésica, o que lamento muito, porque vou sentir falta dela."
Day, professor de inglês do Departamento de Lingüística da Universidade Central de
Taiwan possui a capacidade desde a infância. Há oito anos, começou a estudar as causas
e conseqüências da mistura de sensações para a sua tese de doutorado em
neurolingüística. Depois de estudar 175 casos, já catalogou 19 tipos diferentes de
sinestesia. Ele mantém uma página na Internet sobre sinestesia e comanda uma lista de
discussões que reúne 250 pessoas dotadas de diversas modalidades sinestésicas.
Participante da lista de Day, o estudante de pós-graduação em Matemática Eugene
Boos, de 28 anos, só descobriu sua aptidão para a sinestesia no ano passado, depois de
ler uma reportagem do jornal "The New York Times" sobre o assunto. Além de ver
letras e números coloridos, ele enxerga cores particulares para nomes de países, meses
do ano e dias da semana. "Brasil é amarelo, Argentina é laranja, Canadá é pink,
os Estados Unidos são verde-escuro", exemplifica. "Isso facilita o aprendizado
de geografia e história, porque associo imediatamente o lugar à cor correspondente ou o
fato ao mês em que ocorreu."
"ORA (DIREIS) OUVIR ESTRELAS!" - Alguns artistas usam aptidões
sinestésicas para produzir obras de arte. O pintor russo Wassily Kandinksy (1866-1944),
teria sido um deles. Segundo Sean Day, o artista russo não era um sinestésico, apenas
sensível. Mas alguns de seus quadros estabelecem correspondência entre as cores e
timbres de instrumentos musicais. Na literatura, notadamente na poesia, a figura de
linguagem sinestesia é usada para surpreender e gerar frases incomuns. Não há registros
de que o poeta Olavo Bilac (1865-1911) fosse portador dessa condição neurológica, mas
"Ora (direis) ouvir estrelas!", primeiro verso do "Soneto de Via
Láctea", é um dos mais conhecidos na língua portuguesa.
Carol Steen é uma artista plástica que vive em Nova York e afirma aplicar sua
sensibilidade adicional nas pinturas e esculturas que cria. A sinestesia está presente em
suas lembranças desde a infância. Ela enxerga letras e números em cores e também
"vê" alguns sons.
Ao contrário dos outros sinestésicos entrevistados, porém, Carol experimenta algumas
sensações desagradáveis em razão da percepção sensorial dupla. Ela descobriu essa
faceta quando estava no dentista. O som do "motorzinho", odiado por todos os
seres humanos sem tendências para o masoquismo, fez a visão de Carol ser inundada pela
cor laranja. "E eu não podia fechar meus olhos, porque eles já estavam
fechados".
Outro episódio dentário, no entanto, levou-a a usar sua aptidão sinestésica para
fazer um auto-dignóstico. "Eu insistia em que um dente precisava de tratamento de
canal, mas o dentista discordava, até abrir o dente e comprovar que, embora ainda muito
antes do ponto crítico, a raiz estava morrendo e realmente seria necessário
tratar", conta. "Eu sabia: aquele era um dente laranja". Depois que o nervo
doente foi retirado, a cor laranja desapareceu da mente de Carol. "Definitivamente,
laranja é minha cor para a dor."
(Site do MIT sobre sinestesia, com informações sobre as pesquisas feitas
sobre o tema)
(Home-page do especialista em sinestesia Sean Day, com definições,
compilação de artigos publicados sobre o assunto, explicações detalhadas e acesso à
lista de discussões)
"Synaesthesia: a Union of the Senses", de Richard E.
Cytowic, 1989, New York, Springer-Verlag.
"The Man Who Tasted Shapes", também de Richard E. Cytowic,
1993, New York: Putnam.
"A Natural History of the Senses", de Diane Ackerman, 1990, New
York: Vintage.