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Fase azul

Luiz Augusto Mury

Entre incrédulas e divertidas, pessoas comentam o quadro de Picasso "Mulher com os braços cruzados," que foi arrematado recentemente por 55,6 milhões de dólares no leilão da Christie’s, de Nova Iorque.

Em 1902, quando a tela foi concluída, Picasso encontrava-se no início de sua carreira e em plena faze azul. O período que vai de 1901 a 1904 recebeu essa designação pela tendência monocromática da maior parte das obras e pleno clima melancólico e profundamente depressivo que envolvia as figuras retratadas. Nessa época, o artista vivia numa extrema penúria e é muito provável que tenha passado por sérias dificuldades com alimentação e calefação. Segundo críticos de arte, os mendigos, prostitutas, alcoólatras, pessoas velhas e doentes, mães e filhos retratados com tamanha objetividade, só poderiam alcançar tal perfeição se o artista estivesse mergulhado nessa mesma realidade.

Influenciado por Degas e Toulouse-Lautréc, Pablo Picasso carregou a dramaticidade da cultura espanhola nessas pinturas que faz com que o sentido de solidão, pobreza e angústia sejam sublinhados pelo frio dos azuis e negros utilizados em suas pinceladas.

No verão de 1901, seu grande amigo, o pintor Carlos Casagemas, se suicidou deixando Picasso profundamente abalado.. Esse fato provavelmente também contribuiu para o clima lúgubre que envolve a maioria dos trabalhos desse período. Apaixonado pela bela Germaine, que também era amante de Picasso, Casagemas, que sofria com uma fimose que dificultava sua performance sexual, viu-se preterido pela amada. Desesperado, matou-se com um tiro na têmpora. Picasso fez vários esboços e pelos menos três óleos de seu amigo sendo velado em câmara ardente.

Em 1903, pintou o que seria o quadro mais importante da fase azul, senão de toda a sua produção: o célebre "La Vie" ("A Vida"). Essa grande tela é uma das raras às quais Picasso deu um título. Um casal, Casagemas e Germaine, nua, abraçada a ele de um lado, e do outro, uma mãe de pé, com um bebê no colo, numa atitude de reprovação, são retratados numa composição cuja leitura é cercada de elementos filosóficos, pois "La Vie" interroga as origens da desgraça. É como se Picasso quisesse dizer; você não pode fazer nada, você não irá ressucitar Casagemas, mesmo se você pintar Germaine arrependida, toda a miséria do mundo é uma miséria acusadora. Esta injustiça é a vida...

O quadro "Mulher com os braços cruzados"que foi leiloado pela Christie’s é de uma mulher com o semblante ensimesmado. Sua composição leva-nos a imaginá-la frágil, doentia (talvez febril), indubitavelmente melancólica. Os azuis, mais uma vez cercam todo o branco da roupa vestida pela mulher. Apesar de não ser muito conhecido, é uma obra-prima e apesar de não ter sido revelada a identidade da modelo, bem poderia ser um retrato de Germaine.

A fase azul compreende quatro partes distintas: o ciclo da morte de Casagemas, paralelo às obras inspiradas nas prostitutas da prisão de Saint-Lazaire, em que o monocromatismo azul passa a dominar; o ciclo denominado "Azuis de Barcelona" que não é interrompido pela viagem a Paris no fim de 1902 e que é marcado pela estética da miséria; o ciclo da exploração do maneirismo e a redescoberta marginal da cor com a partida definitiva para Paris em abril de 1904; enfim, a passagem para a pintura sentimental em Paris com o quadro "Maternidade rosa", de 1904.

Extremamente valorizadas, essas obra do período da juventude do artista têm alcançado preços estratosféricos no mercado mundial de arte pelo pequeno número de peças existentes, pela qualidade da pintura e, principalmente, por apresentarem a originalidade de uma temática e de uma estética num momento em que a maioria dos pintores ditos "progressistas" optavam pelo estilo fauvista.

Luiz Augusto Mury é professor de antropologia e advogado

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