Meio ambiente

Rachel De Queiroz
Um fruto bom já deu esse relativo histerismo que grassa pelo mundo por amor da
ecologia. As jovens gerações tomam consciência aguda da importância da preservação
do meio ambiente e só se escuta garoto falando em floresta, em ar puro, em rio
assassinado, em poluição industrial. Muito diferente das gerações anteriores, os
filhos, netos e bisnetos do "século das luzes", que se fizeram adultos depois
da 1.ª Grande Guerra e só acreditavam em fórmulas radicais, arrasar tudo para construir
de novo, fosse em literatura, em política, em artes plásticas, urbanismos, arquitetura.
Já a minha geração, a chamada "de 30" (que isso seja levado em descontos de
outros pecados), não se deixou arrastar pala onda mais radical. Quando começamos, já se
haviam esgotado os paroxismos do pessoal modernista e não tivemos que nos apurar em
acrobacias lingüísticas e temáticas massacrantes; nós nos aproveitamos das conquistas
do pessoal de 22, sem precisar de brigar por elas, pois as batalhas já estavam ganhas e
os guerreiros vitoriosos mascavam os seus louros.
Ninguém falava mais em Marinetti (no nosso tempo Marinetti já era nome de
microônibus). A nossa tônica era o redescobrimento da terra e do homem com amor e
esperança - mais amor do que esperança, diga-se, porque a fase vivida pelo mundo já era
o começo do desespero. Guerras da Abissínia, guerra da Espanha, o Grande Expurgo
Stalinista, a ascensão de Hitler, o Estado Novo no Brasil. Ninguém de nós fazia parte
dos delirantes adoradores da máquina - máquina de morar, máquina de viver e de matar,
que o nosso amado guru, Mário de Andrade, tão bem satirizou com a máquina-táxi e outra
máquina, no Macunaíma.
Foi mesmo pelo nosso tempo que se descobriu a chamada "memória do Brasil" e
se fundou o Serviço do Patrimônio Histórico, com Rodrigo Melo Franco de Andrade como
arcanjo guardião, a recuperar e salvar o desprezado, demolido e arruinado acervo
artístico e histórico do País. Porque, até Rodrigo e o Patrimônio, salvo um ou outro
maníaco, a lei geral era demolir, abrir avenidas em cima das igrejas antigas e dos
monumentos, botar abaixo as velharias. E a própria reação de Mariano Filho, que sem
dúvida fez trabalho pioneiro na defesa dos nossos valores artísticos tradicional, era
baseado mais no pastiche e na restauração à la Viollet-Le-Duc, e na recriação de um
estilo - no caso, o nosso horroroso e malfadado neocolonial. Aí está como corpo de
delito o que fizeram com a Casa do Trem, virada no que é hoje o Museu Histórico.
Com a 2ª Grande Guerra e a largada da bomba atômica no Japão, e a conseqüente
ameaça de um holocausto geral, despertou-se a atenção do mundo, já não mais para as
relíquias do passado, mas para o planeta propriamente dito, a terra, o mar as águas
vivas, as florestas, os bichos. Já não era sem tempo, porque, segundo se denuncia, foi
violada a camada atmosférica com perda da sua irreparável substância, a poluição do
mar já alcança em certos mares o ponto de irreversibilidade, e a destruição da flora
chega a afetar as perspectivas de sobrevivência de todo o reino animal.
O fundamental, parece, é descobrir-se um ponto de coexistência pacífica que garanta
a sobrevivência do ambiente natural da Terra e a existência do homem civilizado;
civilização essa que depende, em razão direta, da depredação, da alteração, do
saque e do atentado contra o meio natural. Pois as maravilhosas cidades e máquinas e
computadores, e naves espaciais e toda a parafernália da ciência, da técnica e do
progresso, só podem medrar e frutificar se escavando minas para obter metais, se
perfurando a terra e o leito dos mares para extrair o indispensável petróleo, se
arrasando florestas para plantar o grão e criar o gado. E, assim, não se pode levar
longe demais a cruzada pela proteção da Terra, porque então a civilização terá de
perecer para que a ecologia se salve. Será o conflito da humanidade civilizada versus
Terra conservada . E com a população do globo aumentando em bilhões, em progressão
quase geométrica, o saque terá de ser cada vez mais extenso e mais profundo, por uma
questão exatamente de vida e de morte. E nem se pode esperar da arrogância do homem
técnico de hoje que ele renuncie às suas conquistas e volte a viver como o índio, da
caça e da pesca e dos frutos da terra. Mesmo porque, com o números a que já atingimos -
4 bilhões, diz-se, onde é que se iria arranja mato para botar tanto índio? |