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Sobrevida tropical
Enquanto remodelam seus
carros no exterior,
montadoras mantêm gerações antigas no país
Divulgação

Só em 2002: Corsa ganhou uma nova
geração apresentada no Salão de Paris
Rogério Louro
É prática comum nos países desenvolvidos que as pessoas na terceira
idade aproveitem a aposentadoria - bem remunerada. No Brasil, ao contrário, os idosos
precisam continuar trabalhando. Algumas montadoras parecem seguir esta prática também
com os automóveis. Muitas vezes, um carro que completa sua vida útil na Europa ou
Estados Unidos substituído por um novo modelo é mantido em atividade no Brasil. Só este
ano, por exemplo, estrearam no mercado internacional modelos como os novos Corsa, Passat,
Mondeo, Xsara e Scénic. Mas por aqui devem demorar a chegar. As antigas gerações são
mantidas à venda.
Um dos carros mais vendidos do país, o Corsa, por exemplo, ganhou uma
nova geração, apresentada no Salão de Paris, no final de setembro. No Brasil,
reestilização só em 2002. O novo modelo tem visual mais moderno, novas motorizações,
itens de conforto e segurança, enquanto isso os brasileiros vêm nas vitrines apenas o
velho Corsa que até sofreu mudanças estéticas ano passado, mas mantém o projeto
original. E, compreensivelmente, a GM não mostra o novo Corsa em salões e nem aceita
falar no assunto. "No Brasil, as montadoras evitam falar porque o carro fica com uma
imagem ruim quando sai de linha, devido à desvalorização e à possibilidade de falta de
peças", explica o consultor Arnaldo Pelizzaro, diretor da empresa ABIConsult.
Outro modelo exibido em Paris, e que não é comentado pela montadora no
Brasil, é o novo Citron Xsara. O face-lift ele ganhou faróis iguais aos da minivan
Picasso tirou do Xsara o aspecto agressivo. As formas mais arredondadas fazem lembrar até
o anacrônico Ford Escort. As mudanças, porém, não têm ainda previsão de chegar à
linha de montagem no Uruguai, de onde saem os veículos para o país. Já em
comercialização na Europa desde o primeiro semestre deste ano e exibida mundialmente no
Salão de Frankfurt, em 1999, a nova Scénic também não é assunto que gera muitas
palavras da Renault no país.
A mudança da Scénic nacional para ficar parecida com a versão européia
deve ser feita em 2001. Mas, segundo a Renault, a Scénic é um modelo ainda novo no
Brasil e que tem um grande sucesso de vendas, por isso não há motivos para mudar o
veículo. Enquanto os brasileiros esperam, a nova geração da van monovolume faz sucesso
entre os europeus. "As montadoras só mudam os modelos quando estão vendendo pouco
ou para combater uma ação do concorrente", simplifica o consultor Paulo Roberto
Garbossa, diretor da consultoria Jato Dynamics.
Mas até mesmo importados ganham sobrevida no mercado brasileiro. Ford
Mondeo e Renault Laguna, com novas gerações, e o Volkswagen Passat reestilizado começam
a ser vendidos no início do ano na Europa. No Brasil, apenas no final de 2001. Até lá,
nas revendas os estoques dos antigos modelos estarão sendo desovados. Pior: a Renault,
inclusive, ainda vai receber mais um lote do Laguna antigo para distribuir aos
consumidores tupiniquins.
Dar "sobrevida" a modelos antigos no Brasil, porém, não é
unanimidade. Algumas marcas apostam na política inversa e investem em mudar os veículos,
mesmo que estes estejam com as vendas dentro das expectativas. A Honda e a Audi, por
exemplo, fizeram modificações em seus modelos lá fora e já mexeram nas linhas de
montagem nacionais. O novo Civic foi apresentado no Salão de Paris e as mudanças
estéticas e de motorização já estarão nos modelos produzidos no país em dezembro. O
Audi A3, com retoques na grade, faróis e pára-choques, já está à venda. A Volvo
também iniciou as vendas da nova linha V70 no Brasil praticamente junto da Europa.
"É uma questão de respeito ao consumidor e mostra a valorização do mercado pela
montadora", conclui Kazuo Nozawa, diretor comercial da Honda. É bem verdade que
algumas das peças alteradas nos dois modelos são importadas. Ou seja: Honda e Audi não
tinham muita opção, a não ser acompanhar as mudanças no exterior.
Área de preservação
A lista de carros que continuaram a ser produzidos no Brasil depois de
modificados no exterior conta com modelos como Fusca, Passat, Omega, Tempra e Tipo. Mas
ainda há veteranos em atividade até hoje que já foram extintos no mundo todo. Caso de
dois modelos pré-históricos e aparentemente imortais como a Volkswagen Kombi e o jipe
Toyota Bandeirante. A Kombi começou a ser produzida no país em 1957 e, apesar de alguns
retoques estéticos, mantém o projeto original. Enquanto é vendida normalmente no
mercado brasileiro, nos Estados Unidos já se estuda até fazer uma versão retrofuturista
denominado New Kombi, seguindo os passos do New Beetle.
O Toyota Bandeirante também exibe características da época em que
começou a ser produzido no país em 1959. O utilitário, que lá fora se chama Land
Cruiser, é vendido na Europa, Estados Unidos e Japão na quinta geração e não tem
sequer uma vaga semelhança com a versão tupiniquim.
Além deles, outros dois modelos seguem o mesmo caminho: Fiat Mille - que
é o velho Uno - e Ford Escort. O Mille/Uno é um carro lançado na Europa em 1983 e que
chegou ao Brasil em 1984. Atualmente só é feito em solo brasileiro e na Polônia. Mas,
apesar do desenho antiquado, ainda é o terceiro carro mais vendido do país e a Fiat nem
cogita interromper a produção. Já o Escort surgiu em 1980 na Europa e três anos depois
no mercado nacional. Ano passado, deixou de ser produzido na Europa, para dar lugar ao
Focus. E apesar do Focus estar chegando ao país, a Ford pretende manter as vendas do
velho Escort, com preço mais baixo. "Os carros com mais tempo de mercado têm o
preço como atrativo e atendem a quem procura custo/benefício", explica Ricardo
Strunz, diretor de marketing e vendas da Ford.
Instantâneas
No Salão do
Automóvel de 1996, a Volkswagen mostrou o Logus e o Pointer no estande como modelos para
1997, mas era um artifício para diminuir os rumores do fim dos veículos e não
atrapalhar as vendas. Em novembro de 1996, porém, deixaram de ser produzidos.
O Escort ainda
é produzido em uma única versão nos Estados Unidos. Só que no mercado americano o
desenho do modelo é diferente do nacional, que sempre foi baseado na versão européia.
Quando a Scénic
ainda estava em fase de pré-produção no Brasil, na França a Renault já testava a nova
geração da van monovolume.
O novo Civic
ganhará um motor 1.7 16V com duas opções de potência: 115 cv e 130 cv. |
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