Se você acha que "No Limite"
foi light, que tal participar de um raid (corrida de aventura ou rali humano) real? Uma
competição esportiva na qual o prêmio é a satisfação de ter conseguido terminar a
prova. Ter realmente testado todos os seus limites, executando trekkings exaustivos,
rapeis radicais, mountain biking, nadando contra a correnteza, dormindo no chão, remando
dezenas de quilômetros, faça chuva ou faça sol. A modalidade começa a virar moda no
Brasil. Só no mês de outubro são duas, a tradicional Expedição Mata Atlântica e o
Ranger Eco Adventure (corrida para iniciantes), ambas acontecem amanhã. Em novembro há
outra importante, a Rio Eco 2000. E para encarar tantos desafios, já temos a primeira
escola brasileira: a Expedição Mata Atlântica (EMA) Escola, dirigida pela Sociedade
Brasileira de Corridas de Aventura.
Este conceito de corrida de aventura iniciou-se na década de 80, na Nova Zelândia.
Nos anos 90 vários países criaram corridas de aventura como a "Southern Traverse,
Nova Zelândia; Eco-Challenge, EUA; Raid the North, Canadá; o ELF Authentique Aventure,
na França, entre outros. No Brasil, a "Expedição Mata Atlântica" foi a
pioneira nesse gênero esportivo. Organizada pela Sociedade Brasileira de Corridas de
Aventura.
A primeira impressão que se tem quando se aceita fazer este tipo de aventura é de que
você acabou de adquirir uma passe para um autêntico programa de índio, nível 30
flechas vermelhas. Fui chamada a fazer parte da segunda turma da EMA Escola. O desafio era
fazer um trekking de 29 quilômetros, pedalar mais 15 e remar outros 35, em algum lugar de
Bertioga (Litoral de São Paulo), durante dois dias.
O problema maior não era a resistência física e sim saber se orientar usando cartas
geográficas e bússolas; já que cada vez que a equipe, formada por três alunos, se
perdesse, iria andar mais do que o previsto, geralmente o dobro. Por causa das chuvas
intensas, três alunos dos 18 inscritos não chegaram nem a largar.
Apesar de ser um curso, a simulação foi completamente real. Depois de montadas as
equipes, foram distribuídos os mapas, que foram marcados conforme as instruções
(plotar). Dada a largada, cada equipe foi acompanhada silenciosamente por um monitor. Só
em casos extremos de orientação equivocada, o monitor dizia: "Que tal analisar
melhor o mapa?"
DESPENCANDO DO MORRO ITAGUÁ - A largada aconteceu na praia de
Boracéia. A primeira prova era costear o Morro do Itaguá, mas por causa das chuvas, as
equipes tiveram de atravessá-lo. Aos trancos e barrancos subiram, fazendo um trekking no
leito de um riachinho que nasce no cume. Na descida, por causa da intensa garoa,
simplesmente despencaram morro abaixo em direção ao mangue, onde suas pernas afundaram
até a canela, e em alguns locais até o joelho. Depois, atravessaram a nado o Rio
Guaratuba que tem uma corrente considerável, até o PC-1, onde pegaram as bicicletas e
pedalaram 8 km na praia até o PC-2.
Lá começou a prova de remo em canoa para três pessoas, mais 8 km nos quais as
equipes que não tinham muita habilidade em fazer o leme com o remo sofreram bastante,
colidindo diversas vezes com a margem do rio. No PC-3, passaram muita pomada hipoglós nos
pés para evitar as bolhas, e iniciaram um trekking bem radical, que a princípio teria
17km.
Eram 15 horas, e os guias acharam melhor fazer uma única equipe de 15 pessoas.
Afundando os pés no mangue, batendo a cabeça em galhos baixos, tropeçando em cipós, se
arranhando muito, atravessaram córregos em troncos de árvores e tentando encontrar o
caminho certo acabaram por se perder muito, mas muito mesmo. Quando escureceu, os tombos
tornaram-se mais freqüentes, a chuva mais forte e a correnteza dos riachos também. Só
às 19h15 conseguiram chegar no PC4, sendo que o esperado era fazer até o PC-6 em seis
horas. Dali para frente os monitores assumiram a liderança e as equipem os seguiram em
fila indiana, escorregando nas trilhas, até o acampamento às margens do Rio Itapanhaú,
onde chegaram às 22h30, ou seja, com 1h30 de atraso.
O acampamento foi feito numa casa de pedra do século passado do outro lado do rio, o
qual atravessaram andando. Lá não havia luz elétrica, e todos dormiram em um grande
cômodo cheio de goteiras até às 5h30, quando começaria a nova etapa remar 24km,
descendo o Rio Itapanhaú e subindo o Rio Itatinga até a fazenda Vergára. De manhã, a
chuva aumentou muito e esta etapa, rumo ao PC-7, foi muito difícil para a maioria dos
estreantes. Para outras mais experientes, como Vinícius Tugumi, esta etapa de canoa foi
"relaxante".
PAISAGEM EXUBERANTE - No PC-7 iniciaram um lindo trekking no trilho do
trem atravessando a bucólica Vila de Itatinga até o porto, onde, exaustos, foram de
balsa até o outro lado do rio. No PC-8 pegaram as bikes e foram pedalando até a pousada,
que ficava bem próxima ao Sesc de Bertioga. A última equipe terminou a aventura às
15h10. Durante o trajeto, todos comeram muita barra de cereais, chocolates, salgadinhos e
beberam muito isotônico e água, levados nas mochilas pessoais. Em alguns PCs também
foram distribuídos sanduíches e no acampamento fizeram uma deliciosa macarronada.
Durante todo o trajeto, as equipes puderam caminhar contemplando lindas bromélias,
orquídeas e flores maravilhosas. Pássaros supercoloridos, árvores enormes e riachos
cristalinos completavam a paisagem. Atuaram como monitores: Alexandre Freitas (diretor da
EMA), Karina Bacha, Francisco Perez e Flavio Lessa, que mora em Bertioga e criou o
trajeto.