Mas o contato com a imagem, com o enquadramento
dos pedaços do mundo através da imagem, começou
antes, no centro da década de setenta através do Super-8.
Os primeiros trabalhos num novo suporte (video) buscavam adjacências
nas artes plásticas: temas-pretexto para experiências
com a nova técnica pretendendo uma nova estética.
A imagem pedia um tratamento, a tela plana televisiva escondia uma
espessura possível.
Em 1985, o último trabalho em formato VHS
- INTERFERÊNCIA - exibia de modo absolutamente claro, e levado
às últimas conseqüências, os erros, desacertos,
deficiências e limitações da linguagem do vídeo.
As imperfeições da obra emergiam como uma tentativa
de ruptura, desapontando as expectativas por um produto artístico
tão moderno e limpo quanto a tecnologia que o engendra.
Dessa contingência emergiram trabalhos como
INTERFERÊNCIA e UAKTI que, pela qualidade da imagem, uso e
abuso dos efeitos e defeitos eletrônicos, estabelecia diferenças
abismais em relação à televisão. A partir
de 85 o esforço de criação ganha o suporte
da produtora Emvideo, que seria responsável pela realização
dos posteriores trabalhos em videoarte.
Em 86 o Super-8 desperta, ronda a obra videográfica e se
associa à imagem do vídeo na condição
de reflexo de experiências remotas, como espectro, paródia
do olhar: EUROPA EM 5 MINUTOS, MENTIRAS & HUMILHAÇÕES.
A partir de então, já trabalhando com equipamento
de 3/4 de polegada, mais moderno e avançado do ponto de vista
tecnológico, são agregadas a essas preocupações
uma tentativa deliberada de "borrar" as definições
entre as linguagens do cinema e do vídeo, usando imagens
pré-filmadas em cinema, "falsificando" imagens
de vídeo, para que passassem por imagens cinematográficas,
e salientando os erros e imperfeições do fazer e projetar
cinema. Essas questões encontram-se trabalhadas nos vídeos
EUROPA EM 5 MINUTOS, NÃO VOU À ÁFRICA PORQUE
TENHO PLANTÃO, ESSA COISA NERVOSA, MENTIRAS & HUMILHAÇÕES
e JANAÚBA.
A partir de 88 a obra ganha maior autonomia, viaja
e constata a barreira das línguas. Ela se reconstrói
no deslumbre da opulência do 1º mundo, ostentada e traduzida
em legendas apressadas. Legendas que migram da condição
de mera informação para a condição de
elemento intrínseco da imagem: retrato da nossa condição
de receptores colonizados. Estes conceitos estão presentes
nos vídeos NÃO VOU À ÁFRICA PORQUE TENHO
PLANTÃO e ESSA COISA NERVOSA.
A temática místico-religiosa, em particular,
pode ser verificada também em outros trabalhos como as vídeo
instalações RITO & EXPRESSÃO (Brasil, 1990)
e A SANTÍSSIMA TRINDADE (Brasil, 1991). A aridez da paisagem
e a comtemplação das imagens do I Ching orientam novas
propostas de video instalações: THE DESERT IN MY MIND
(Brasil, 1992) e O LAGO E A MONTANHA (Holanda, 1996).
ENREDANDO AS PESSOAS (longa-metragem, Brasil/Dinamarca,
1995) inscreve-se nessa confluência de preocupações
criativas e existenciais - mostra uma série de depoimentos
pessoais, por meio de parábolas visuais, colhidos no Brasil
e na Espanha. As relações dos homens com as instituições
políticas, os meios de comunicação, a sociedade
de consumo, as formas abandonadas de amor e com a natureza constituem
o foco e a matéria-prima desses depoimentos, tendo como pano
de fundo a intersecção do misticismo religioso com
as manifestações da loucura.
Se em JANAÚBA o tratamento dado à
imagem do vídeo é propositalmente aproximada à
imagem do filme, em ENREDANDO AS PESSOAS esta relação
se inverte. O que era para ser puro cinema se vê "agredido"
por estocadas videográficas. Novas "interferências".
As videoinstalações tomam seu lugar
no conjunto da obra, novas possibilidades tecnológicas, formas
e suportes de projeção ampliam as possibilidades artísticas.
MEMÓRIA DE FERRO é apresentada na Bienal Internacional
de Artes de São Paulo em 1996 e o ambiente de minério
sugere aos participantes a presença virtual. Performances
intermídia reúnem distintas formas de expressão
artísticas em função de temas poéticos.
Texto, som e imagem. POSCATIDEVENUM (Brasil, 1994/1995), PASSAGEM
DE MARIANA (Brasil, 1996/1997) e PINCÉLULAS (Brasil, 1998)
formam o conjunto de espetáculos que reafirmam a parceria
com o músico Paulo Santos,
os poetas Marcus Nascimento e Sandra Duarte Penna e o fotógrafo
Evandro Rogers.
Após ENREDANDO AS PESSOAS a video arte volta
ao seu estágio primeiro: TUMITINHAS (1998), um réquiem
contemporâneo que por breves momentos traz a lembrança
de MENTIRAS E HUMILHAÇÕES. O tempo das imagens e o
tempo das sensações. Passados permeando o presente
e a tênue linha divisória entre experiências
vivenciadas, nostalgia e lembranças esparsas.