Quem é

Eder SAntos ?


A trajetória como vídeo-artista teve início em 1983, quando são realizados os primeiros trabalhos sobre obras e processos criativos de artistas plásticos de Minas Gerais. Já nessas realizações, era de interesse aproveitar artisticamente as imperfeições e os ruídos do formato vídeo, sistematicamente eliminados no mundo limpo e bem-acabado da televisão comercial.

Mas o contato com a imagem, com o enquadramento dos pedaços do mundo através da imagem, começou antes, no centro da década de setenta através do Super-8. Os primeiros trabalhos num novo suporte (video) buscavam adjacências nas artes plásticas: temas-pretexto para experiências com a nova técnica pretendendo uma nova estética. A imagem pedia um tratamento, a tela plana televisiva escondia uma espessura possível.

Em 1985, o último trabalho em formato VHS - INTERFERÊNCIA - exibia de modo absolutamente claro, e levado às últimas conseqüências, os erros, desacertos, deficiências e limitações da linguagem do vídeo. As imperfeições da obra emergiam como uma tentativa de ruptura, desapontando as expectativas por um produto artístico tão moderno e limpo quanto a tecnologia que o engendra.

Dessa contingência emergiram trabalhos como INTERFERÊNCIA e UAKTI que, pela qualidade da imagem, uso e abuso dos efeitos e defeitos eletrônicos, estabelecia diferenças abismais em relação à televisão. A partir de 85 o esforço de criação ganha o suporte da produtora Emvideo, que seria responsável pela realização dos posteriores trabalhos em videoarte.
Em 86 o Super-8 desperta, ronda a obra videográfica e se associa à imagem do vídeo na condição de reflexo de experiências remotas, como espectro, paródia do olhar: EUROPA EM 5 MINUTOS, MENTIRAS & HUMILHAÇÕES.
A partir de então, já trabalhando com equipamento de 3/4 de polegada, mais moderno e avançado do ponto de vista tecnológico, são agregadas a essas preocupações uma tentativa deliberada de "borrar" as definições entre as linguagens do cinema e do vídeo, usando imagens pré-filmadas em cinema, "falsificando" imagens de vídeo, para que passassem por imagens cinematográficas, e salientando os erros e imperfeições do fazer e projetar cinema. Essas questões encontram-se trabalhadas nos vídeos EUROPA EM 5 MINUTOS, NÃO VOU À ÁFRICA PORQUE TENHO PLANTÃO, ESSA COISA NERVOSA, MENTIRAS & HUMILHAÇÕES e JANAÚBA.

A partir de 88 a obra ganha maior autonomia, viaja e constata a barreira das línguas. Ela se reconstrói no deslumbre da opulência do 1º mundo, ostentada e traduzida em legendas apressadas. Legendas que migram da condição de mera informação para a condição de elemento intrínseco da imagem: retrato da nossa condição de receptores colonizados. Estes conceitos estão presentes nos vídeos NÃO VOU À ÁFRICA PORQUE TENHO PLANTÃO e ESSA COISA NERVOSA.

A temática místico-religiosa, em particular, pode ser verificada também em outros trabalhos como as vídeo instalações RITO & EXPRESSÃO (Brasil, 1990) e A SANTÍSSIMA TRINDADE (Brasil, 1991). A aridez da paisagem e a comtemplação das imagens do I Ching orientam novas propostas de video instalações: THE DESERT IN MY MIND (Brasil, 1992) e O LAGO E A MONTANHA (Holanda, 1996).

ENREDANDO AS PESSOAS (longa-metragem, Brasil/Dinamarca, 1995) inscreve-se nessa confluência de preocupações criativas e existenciais - mostra uma série de depoimentos pessoais, por meio de parábolas visuais, colhidos no Brasil e na Espanha. As relações dos homens com as instituições políticas, os meios de comunicação, a sociedade de consumo, as formas abandonadas de amor e com a natureza constituem o foco e a matéria-prima desses depoimentos, tendo como pano de fundo a intersecção do misticismo religioso com as manifestações da loucura.

Se em JANAÚBA o tratamento dado à imagem do vídeo é propositalmente aproximada à imagem do filme, em ENREDANDO AS PESSOAS esta relação se inverte. O que era para ser puro cinema se vê "agredido" por estocadas videográficas. Novas "interferências".

As videoinstalações tomam seu lugar no conjunto da obra, novas possibilidades tecnológicas, formas e suportes de projeção ampliam as possibilidades artísticas. MEMÓRIA DE FERRO é apresentada na Bienal Internacional de Artes de São Paulo em 1996 e o ambiente de minério sugere aos participantes a presença virtual. Performances intermídia reúnem distintas formas de expressão artísticas em função de temas poéticos. Texto, som e imagem. POSCATIDEVENUM (Brasil, 1994/1995), PASSAGEM DE MARIANA (Brasil, 1996/1997) e PINCÉLULAS (Brasil, 1998) formam o conjunto de espetáculos que reafirmam a parceria com o músico Paulo Santos,
os poetas Marcus Nascimento e Sandra Duarte Penna e o fotógrafo Evandro Rogers.

Após ENREDANDO AS PESSOAS a video arte volta ao seu estágio primeiro: TUMITINHAS (1998), um réquiem contemporâneo que por breves momentos traz a lembrança de MENTIRAS E HUMILHAÇÕES. O tempo das imagens e o tempo das sensações. Passados permeando o presente e a tênue linha divisória entre experiências vivenciadas, nostalgia e lembranças esparsas.