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Um Roqueiro na Terra da Perestroika
Não se assuste se você ouvir o som de uma bateria ou de uma guitarra elétrica, ao ler esse texto. É que estou escrevendo no estúdio, enquanto os outros Engenheiros do Hawaii refazem alguns rolos e solos do disco que estamos gravando. Guitarras elétricas, samplers, máquina de escrever elétrica, sabe como é...
Talvez a guitarra saia no jornal, talvez o texto pinte no disco. Coincidências: o disco vai se chamar O Papa é Pop, e me pedem pra escrever sobre pop Moscou. O que é que eu tenho a ver com isso? Ah, já estive em Moscou, e tocando música pop, deve ser por isto.
Acho que quem assiste o jogo pela televisão pode dizer com mais exatidão se foi pênalti ou não. Mas, para passar uma impressão pessoal do jogo, é melhor ter estado lá. Só sei falar sobre Moscou de ouvido. Não entendo muito bem a matemática do que aconteceu lá. Tudo bem, pop é assim mesmo: de ouvido. Lá vou eu, Back to USSR.
Quando nos avisaram, em agosto de 1989, que tocariamos em Moscou e Leningrado, em outubro, achamos que era engano. Talvez algum telex de Moscou chamando alguns engenheiros de Havana tivesse chegado por engano à gravadora, coisa de multinacionais... Mas, para nosso espanto e alegria, não havia engano nenhum. Nossa gravadora havia mandado material de todo o seu cast para um pessoal que trabalhava na gravadora estatal soviética, Melódia, e esses caras, que estavam partindo para a iniciativa privada, nos convidaram pra tocar lá, junto com uma banda soviética que eles empresariavam e que deveria vir tocar no Brasil.
Tratamos logo de retribuir a gentileza: aprendemos algumas palavras em russo (o suficiente para ficar calado), buscamos algumas roupas de inverno em Porto Alegre e traduzimos algumas letras e um histórico da banda para distribuir nos shows. Foi no vôo Copenhague-Moscou, olhando as traduções, que tive pela primeira vez a noção da distância que estávamos tentando transpor. Tive a impressão de que traduzir algumas letras só iria dificultar as coisas. O que um russo pode entender de uma frase como "a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes" ? Nonsense. O que dizer de três caras que largam um curso de arquitetura e, sem nenhuma experiência musical, montam uma banda chamada Engenheiros do Hawaii? Para um cara que vive numa sociedade planejada, puro nonsense. E se esperassem do nosso show o Brazil-Carmen-Miranda? mais nonsense. Se há alguma coisa que dá sono num Engenheiros do Hawaii, esta coisa é nonsense. Será que eu teria que passar dormindo os 20 dias que ficaríamos por lá?
Nas primeiras horas em Moscou nossa cabeça se transforma numa miniatura de um programa de debates na televisão. Desses que falam em "vários segmentos de uma sociedade" e "meus direitos começam onde acabam os seus". Pelo menos comigo foi assim. Como num desenho animado, aparece sobre o ombro direito um diabinho com a cara do Amaral Neto, sobre o ombro esquerdo um anjinho com a cara do Jair Menegheli (se for possível um anjo com aquela cara). Entre os dois rola uma discussão "deja vu" sobre as abobrinhas do folclore guerra fria. Comida versus Liberdade, KGB versus BMW, etc...
Ou então, mais recentemente, abobrinhas do folclore Perestroika. Liberdade versus Fila, Gorbachev versus Yeltsin. Mas bastam algumas horas de realidade soviética (que já não quer dizer a mesma coisa que realismo socialista) para que se mande pro espaço quaisquer comparações, e para que se jure, pelo que há de mais sagrado, que não tentaremos levar caviar para o Brasil. Nem BigMacs.
A princípio deveríamos fazer três shows em Moscou e três em Leningrado, mas no fim das contas acabamos ficando só em Moscou, onde fizemos cinco shows num teatro com capacidade para aproximadamente 1500 pessoas. Foi durante os shows, assistindo os russos nos assistirem, que descobri que havíamos subestimado a capacidade deles de ouvir coisas diferentes. Pela simples razão de que nós já não temos esta capacidade. Ouvir, simplesmente ouvir, sem nenhuma especulação é uma coisa que já não fazemos aqui. Dez segundos de introdução numa música já é uma eternidade, nosso dedo corre e procura outra estação. Roxo, lilás e verde-limão já são tons pastéis. É impossível perdoar ao capitalismo frutos como o Passat Surf e o Chevette Jeans. É overpop. Até o papa é pop.
Robin, o menino prodígio diria: "Santo Wahrol, POPMAN, estamos ficando popsurdos e popcegos."
Não acho que Moscou tenha ficado à margem do pop. A troca da guarda em frente ao túmulo de Lenin talvez não tenha muito efeito para os russos, mas foi a mais emocionante macumba pra turista que eu já vi. E nada mais pop que o realismo socialista. Aliás, se Stalin tivesse que combater outros Stalins sem usar a força, garanto que também chegaria ao verde limão e ao rosa shocking. Mas ele limpou a área de outra forma e não precisou ir tão longe esteticamente. Por falar em Stalin, outro dia eu estava em São Paulo, hospedado no mesmo hotel que um coral soviético. Por coincidência (mais uma), eu estava usando uma camiseta com uma estampa do Stalin. Era muito engraçada a cara que os russos faziam ao passar por mim. Pareciam dizer: "Êta paísinho atrasado, ainda acham que Stalin é o cara."
Sem querer voltar a 1968, tive a sensação, tocando em Moscou e assistindo algumas bandas soviéticas tocarem, de que a energia que os caras lá não gastam tentando descobrir a diferença entre uma calça Levi's e uma calça Lee é gasta em coisas mais interessantes, como ouvir ou fazer música.
Havia menos ansiedade e histeria no ar.
A banda que dividia a noite com a gente se chamava Tchorni Kofe, o que quer dizer "café preto". É uma banda típica de Heavy Metal que vende um bocado de discos lá. O som pesado e classicoso, tipo Yngwie Malmsteen e Iron Maiden é a grande paixão da garotada soviética. Punks, da forma como conhecemos, não existem. A impressão que se tem é que os caras conheceram Scorpions antes dos Beatles. O interessante é que esse tipo de música fica muito melhor cantado em russo do que em inglês. A arte russa, assim como sua história política, sempre foi de grandes gestos, épica, grandiloqüente. Guerras, catedrais, revoluções estão no sangue deles. No caminho do aeroporto para Moscou a gente passa por um monumento que marca o ponto até onde as tropas do exército alemão chegaram na segunda guerra. Algums estações de metrô, construídas durante a mesma guerra, são completamente decoradas com motivos bélicos. Há também a guerra fria, o medo da águia, a luta contra o inverno. Junte essas visões e sensações a um pouco de vodca e fica deliciosao ouvir Heavy Metal russo. As letras falam muito pouco de amor ou do cotidiano. De cotidiano basta o próprio. Um dos integrantes do Tchorni Kofe diz: "O tema da nossa obra é bem definido: saudamos a vitória do bem sobre o mal", e acredita piamente nisso. É só ligar os amplificadores, e lá vão alguns garotos soviéticos, netos ou bisnetos da revolução, saudando a vitória do bem sobre o mal. Excelentes músicos tecnicamente, com péssimos instrumentos e equipamentos, como comida no estômago, alguns disco contrabandeados na cabeça, um pouco de álcool, quase nada de drogas. Engraçado, quando muito pouco é possível, tudo é possível.
Será coincidência? Eles começam a ter acesso à cultura pop americana num momento em que ela já não pensa mais nada, e já sente muito pouco. Como será ouvir Metallica sem saber da existência de Elvis Presley, depois Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e Iron Maiden? Deve ser esquisito. O pop star anti-herói, tipo do cara que infesta a cena mundial há algumas décadas (aquele divino, cheio de chiliques, que não aparece na hora do show, e que, quando aparece, toca de costas, e sonha em morrer como James Dean), não faz o menor sentido na União Soviética. Da dúzia de bandas que eu vi tocar, nem mesmo as mais violentas faziam o gênero anti-entertainer.
Essa maneira de ver a arte, basicamente como ofício, apesar de, a primeira vista, parecer careta, deixa tudo mais claro. Espana o pó (Pop?) que há em qualquer gesto nesse lado da cortina. Se por um lado, não parece haver diferença entre tocar numa banda de Heavy Metal, dançar no Bolshoi, ou jogar na seleção soviética de futebol, por outro fica explícita a diferença entre profissionais e diletantes.
Em todo o mundo, a garotada usa a música pop da mesma forma que usa as gírias, o tipo de roupas ou a marca do tênis. Além da sua função óbvia, essas coisas fazem parte de um código que permite a união em tribos bem diferenciadas. É necessário ser diferente (falar diferente, ouvir diferente) de certas pessoas. E é necessário ser igual a outras pessoas. Sei lá o que vem antes... É engraçado pensar que a massificação pode ser fruto da necessidade que as pessoas têm de ser diferentes umas das outras. Esperávamos em Moscou um público muito homogêneo, com reações estandardizadas.
Mais uma vez fomos driblados. Me lembro da surpresa de ver pessoas de várias idades nos shows. Mesmo a forma de dançar é menos padronizada. Fomos colocados novamente diante de um espelho. Pra ver que, apesar das "trocentas" marcas de cigarro e xampu, somos nós que fumamos do mesmo jeito, pelos mesmos motivos. Somos nós que queremos todos o mesmo tipo de cabelo. Aqui, a produção musical nunca foi tão diversificada quanto agora. Além de todos os sabores, todas as misturas são permitidas. A produção musical de massa fica cada vez mais específica. Mas, por contraditório que pareça, significa cada vez menos. Parece que a possibilidade de abrir todas as portas faz com que ninguém entre em nenhuma delas de corpo e alma.
E agora, que a guerra fria se transporta para o mundo dos negócios, e liberou geral, o que é que vai acontecer? Eu pensava sobre isso no metrô, enquanto olhava fascinado a simplicidade desconcertante do desing de algumas carteiras de cigarro soviétivo que havia comprado, mesmo não sendo fumante. Não sei por que razão, a sensação de que o império Vermelho seria esmagado por neons de cores berrantes foi superada pela ilusão de que o ocidente seria invadido por tons pastéis. Era segunda feira, nosso último dia em Moscou. Havíamos recebido toda a grana dos shows no domingo à noite. Isto nos transformava em milionários por algumas horas, já que o dinheiro não era convertível. O mais grave de tudo é que não tínhamos o que comprar. Nossos olhos capitalistas reviraram Moscou atrás de qualquer coisa que valesse a pena ser comprada, e nada. Foi essa a viagem dentro da viagem: se quiséssemos levar alguma coisa para o Brasil, para nós mesmos, teria de ser algo que não pudesse ser empacotado. Só poderíamos levar de Moscou uma impressão. Estávamos no lugar, onde, no início do século, um bando de malucos tinha tentado, pela primeira vez, botar ordem na bagunça e só poderíamos levar para casa algumas impressões: o cheiro do cigarro, o gosto da cerveja, a impressão de que é fácil mudar o mundo.
Ao meu lado, no metrô, um senhor de meia idade começa a falar comigo num português surpreendente e bem-vindo. Ele explica que aprendeu com amigos brasileiros, entre eles Luís Carlos Prestes. Ele faz perguntas sobre qual a melhor maneira de viajar pelo Brasil, dizendo que pretendia vir para cá um dia. Tive vontade de dizer que a melhor maneira de viajar pelo Brasil é montando uma banda de rock, mas não levei fé no seu senso de humor. Um pouco antes de se despedir e descer na sua estação, ele pergunta pela eleição presidencial (era outubro); e, por duas ou três vezes, chama Lula de "Lulu". Quando ele desceu, ri muito. Lulu... Coincidências: Lulu Santos tá gravando no estúdio ao lado.
Se você leu até aqui deve ter ouvido a guitarra dele. Estúdios e metrôs são muito parecidos.
Humberto Gessinger
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