artigos  
| voltar para índice   Ronaldinho no Maracanã

Acho que sei por que há tão poucos livros e filmes falando de futebol. É que muitas vezes a realidade dribla a ficção.

Imagine um guri convocado para a seleção só por que um craque corintiano se meteu a bôbo numa final contra o Palmeiras. Já no primeiro jogo este gurí faz um golaço com direito a balãozinho e destaque na CNN. Nos jogos seguintes ele arrebenta, parece veterano, dá passes inacreditáveis e faz gols de todos os tipos : de cabeça e cobrando falta. Joga dentro e fora da área. Arma e conclui.

Como roteiro de filme é exagerado. Ainda mais se a personagem carregar o mesmo nome do jogador mais famoso do mundo, como que para deixar explícito que tem gente nova na área.

Mas estava escrito há 10.000 anos : "no fim do milênio os Deuses do Futebol enviarão um craque para o tricolor dos pampas". Um craque!! O que é que a gente vai fazer com isto?? Não poderia ser um xerifão uruguaio, um goleiro briguento ou um número 5 especializado em carrinhos?? Não, do alto de sua ironia, os Deuses do Futebol nos enviaram Ronaldinho!

Nós, gremistas estamos fazendo a nossa parte para não despertar a fúria divina. Colocamos uma faixa no portão do estádio Olímpico dizendo "Não vendemos craques" e estamos tentando nos acostumar a ganhar GreNais com requintes de sadismo que incluem dribles inacreditáveis no capitão Dunga, um ícone colorado e gaúcho.

Neste domingo nosso Ronaldinho passa pelo Maracanã num jogo emblemático contra o Flamengo. Emblemático por que, há pouco tempo, o Grêmio perdeu a classificação na Copa do Brasil para o mesmo Flamengo com Ronaldinho no banco de reservas (achavam que o moleque não estava pronto para jogar). Emblemático também por que do outro lado do campo reina o craque Romário, guri há muito mais tempo.

É bonito ver como as gerações se sucedem nos esportes coletivos. No tênis ou no box é sempre a mesma história : mitos recém chegados aos trinta anos derrubados por garotos de futuro incerto. Mas neste domingo não há passado nem futuro no Maracanã. O tempo pára por noventa minutos. Talvez até as bússolas enlouqueçam e o mengão tenha que jogar futebol gaucho para segurar nosso neguinho.

Ronaldinho gaúcho vai jogar em casa, no maior do mundo: O Maracanã.


Humberto Gessinger
Publicado originalmente no Jornal do Brasil
www.engenheirosdohawaii.com.br © 1996-2009 enghawnet - última atualização - 30|09 02:23 livre acesso