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Ouça o que eu digo: não ouça ninguém
BMG | 1988

1. ouça o que eu digo, não ouça ninguém audio cifras letra
2. cidade em chamas audio cifras letra
3. somos quem podemos ser audio cifras letra
4. sob o tapete cifras letra
5. ?desde quando? cifras letra
6. nunca se sabe cifras letra
7. a verdade a ver navios cifras letra
8. tribos e tribunais cifras letra
9. pra entender cifras letra
10. ?quem diria? cifras letra
11. variações sobre um mesmo tema cifras letra



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ficha técnica

Humberto Gessinger: voz, baixo, guitarra
Augusto Licks: guitarra, violão, piano, e-bom, guitarra, synth, voz
Carlos Maltz: bateria

produzido por Maluly
gravado nos estúdios BMG Ariola - SP
mixado nos estúdios Som Livre - RJ

direção artística: Miguel Plopschi
engenheiros de gravação: Reinaldo de Souza, Walter Lima e Stélio Carlini
engenheiro de mixagem: Jorge Guimarães
assistente de estúdio: Cláudio Bernardes
assistentes de mixagem: Ivan, Sérgio Rocha e Julinho
corte: José Oswaldo Martins, Paulo Torres e Orlando Leme
supervisão de áudio: Gunther Kibelkstis
capa: Carlos Maltz, Imageria
fotografia: Leopoldo Plentz

"as coisas mudam de nome mas continuam sendo religiões"


release

por Sonia Maia

UM DISCO URGENTE

Este é um disco urgente. Se faz urgente. Um disco que corre, deixa poucos espaços entre uma faixa e outra, não dá nenhum fôlego. Abre com uma sonoridade já familiar ao rock Brasil. Se impõe - "Ouça o que eu digo" - e se anula - "Não ouça ninguém".

Engenheiros do Hawaii sempre pareceu um estranho no ninho. Já saíram em primeiras páginas de jornais, tocam regulamente nas rádios, aparecem no Globo de Ouro com freqüência, mas até agora alguns ainda têm dúvidas se é o baixista ou o guitarrista que canta. E não é difícil que já tenham perguntado ao Carlos Maltz por que suas letras são tão céticas etc. Nunca, em toda minha carreira de jornalista de rock, vi uma banda tão evidente e tão misteriosa ao mesmo tempo. Nunca uma banda conseguiu exatamente o que queria - o anonimato, embora mergulhados no confuso mar de sucessos em que vive nossas paradas. Já os identificaram como uma possível Jovem Guarda dos anos 80. Não estão longe disso - apesar de não serem uma Legião, como aqueles dos anos 60.

Mas vamos ao disco. Melhor é ouvir que falar sobre ele, já disseram. Mas sem juiz não há jogo que se realize. Enfim, estamos na entrada das Olimpíadas Rock 89 e a questão é sempre quem chegará ao Olimpo, quem levará a medalha de ouro. Quando ouvi Ouça o que eu digo; não ouça ninguém pela primeira vez, pensei: parece música para acompanhar quadrilha de festa junina. É a "Toda forma de poder" (do primeiro disco) deste LP que, seja no início, no meio ou no final das canções, conta com interferências como as usadas nos jogos de azar: dados que se atiram, cartas que voam, charadas vocais e musicais. "ouça o que eu digo..." é a partida: "O que nos devem/queremos em dobro/queremos em dólar/o que nos devem/queremos em dobro/queremos agora". Cidade em chamas já era minha preferida, desde que recebi a primeira fita demo em fevereiro passado e continuaria sendo, caso o Lp não tivesse ficado tão bom. Vale ressaltar aqui a grande e heróica produção de Maluly, e as dificuldades pelas quais passou para realizar seu trabalho. "Cidade em Chamas", além de trazer um tema comum, contado de forma inusitada, cresce musicalmente até atirar o ouvinte contra a parede. Uma atenção especial para a parte da letra que foi composta/incluída de última hora, porque coisas de última hora sempre dão mais uma chave. "Não basta ter coragem/é preciso estar sozinho/é preciso trair tudo/trazer a solidão". E na seqüência: "Eu sei que eles tem razão/mas a razão é só o que eles tem". Estes dois versos são da música "Filmes de Guerra, canções de Amor", um funk de baixo e bateria do LP anterior e para os quais Humberto Gessinger faria um LP inteiro cantando apenas: "Eles tem razão/mas a razão é só o que eles tem/Eles tem razão/mas a razão é só o que eles tem/Eu sei que eles tem razão..." como Jack Nicholson em O Iluminado. SOMOS QUEM PODEMOS SER parecia uma canção para crianças. Será que não se tornou muito triste para tanto? É a "Terra de Gigantes" deste LP. SOB O TAPETE é uma música de amor heavy embalada por uma melodia e backing vocals "tchap tchura". Canção de desamor, também composta ou no quarto onde Humberto se tranca após as viagens ou num quarto de hotel mesmo.

Desgosto atrás de desgosto que convive de forma cruel - mas literalmente funcional - com o estilo de vida do autor: sua solidão, seus amores, sua guitarra, seu baixo, uma máquina de escrever quebrada (de propósito), seus livros, seu escritor predileto, Jean Genet. "Há mais de um motivo/há mais de uma razão/havia um romance/ao alcance da mão/mas o cigarro apagou/e me ensinou o macete/ de esconder as cinzas/sob o tapete". É assim desde o primeiro LP. NUNCA SE SABE é outra canção triste de doer e toca por si só. "sei que parecem idiotas/as rotas que eu traço/mas tento traçá-las eu mesmo/ E se chego sempre atrasado/se nunca sei que horas são/é porque nunca se sabe até que horas os relógios funcionarão...Sem dúvida, a dúvida é um fato/sem fatos não sai o jornal/sem saída ficamos todos presos/e aqui dentro faz muito calor".

A VERDADE A VER NAVIOS abre o lado dois e reverbera versos e músicas já feitas: "desde quando poesia é verdade?/Desde quando verdade vicia?". Auto-repetição, auto-negação. Podem levar dez audições para achar todas as referencias e influencias do LP, mas os que primeiro os influenciam são eles mesmos. Este abre com a mesma linha melódica de "Terra de Gigantes" do disco anterior. TRIBO E TRIBUNAIS: muitos lamentam Pink Floyd sem Syd Barrett. Aqui eles lamentam a ausência de Roger Waters. Dá para entender? Então, vamos à próxima canção. PRA ENTENDER: "Basta uma noite de insônia/um sonho que não tem fim... Um filme sem muita graça/uma praça sem muito sol/Seis cordas pra guitarra/seis sentidos na mesma direção/seiscentos anos de estudo/ou seis segundos de atenção". QUEM DIRIA (SE NÃO FOSSE PAIXÃO) é mais uma canção de amor e lembra aquelas feitas na curva de uma estrada, enquanto a amante, solitária, chora a partida de seu homem. VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA fecha o disco - ou melhor, tenta. É a que mais foge da sonoridade dos Engenheiros e melhor expressa o que eles pretendem musicalmente, muitas vezes camuflado, embutidos nas outras canções. E quando se pensa que a música acabou, ela diz, um pouco antes: "E ai de nós se o disco acabar/se o rastro ficar invisível a olho nu/pois nossos olhos não usam black-tie". A guitarra lamenta por mais dois acordes até ficarem só os teclados soprando um inferno celestial.

A voz de Humberto lembra um Caetano Veloso "romântico" e, de repente, quando parece que a música vai finalmente acabar, entra um clichê de heavy metal, uma cumplicidade que os Engenheiros fizeram questão de deixar explicita. "Variações..." termina e parece nunca ter existido.

Augusto Licks, o novo integrante desde o vinil anterior, apontado como um dos melhores guitarristas do Sul, viveu intensamente o período de gravação do novo LP. Humberto lhe deu três letras para criar, arranjar, co-compor. Se forem observar a sonoridade das guitarras do segundo LP e a sonoridade do primeiro, verão que Augusto sofreu grande influência de Humberto: da guitarra de Humberto no primeiro LP e daquelas que acompanharam as fitas demo. Aqui, Licks as acumula com a força e singularidade. Carlinhos Maltz, o batera, pegou tudo nas sessões de gravação e é quem acompanha Humberto desde o primeiro ensaio da única banda que ambos tiveram até agora. Numa das entrevistas por aí afora, Carlos fala assim do parceiro: "Não me identifico com ele até hoje. Nossa convivência pessoal é conturbada. Mas ele é o grande cara da minha geração. Sou tiete condicional. Ele pode não ser o melhor, mas é o que chega mais longe. A clarividência é uma grande virtude. Já disseram lá no sul que suas letras são como um espelho quebrado: ele mostra pedaços de ti, mas também te corta. E eu assino em baixo disso". Carlos também comentou, certa vez, que era muito difícil tocar bateria nos Engenheiros.Ao contrario do que acontecia na maioria das bandas, onde o diálogo mais evidente era entre o baixo e a bateria, aqui ele se fazia entre o baixo e a guitarra e ele, Carlos, ficava responsável por preencher o espaço criado entre os dois. Por tudo isso a bateria é um dos fragmentos musicais quer personifica os Engenheiros.

No mais o disco vai causar a velha sensação de sempre: amor e ódio. Como Jean Genet: incomoda, é desagradável, mas poucos conseguiram criar, como ele, imagens tão belas, tão oníricas e tão bem escritas para um contexto tão ultrajante.



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