discos oficiais  
 
O Papa é Pop
BMG | 1990

1. o exército de um homem só, I audio cifras letra
2. era um garoto que, como eu, amava os beatles e os rolling stones cifras letra
3. o exército de um homem só, II cifras letra
4. nunca mais poder cifras letra
5. pra ser sincero audio cifras letra
6. olhos iguais aos seus cifras letra
7. o papa é pop audio cifras letra
8. a violência travestida faz seu trottoir cifras letra
9. anoiteceu em porto alegre cifras letra
10. ilusão de ótica cifras letra
11. perfeita simetria cifras letra



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ficha técnica

Humberto Gessinger: letras, voz, baixo, piano rhodes, midi pedalboard
Augusto Licks: guitarra, violão, teclados, midi pedalboard
Carlos Maltz: bateria

produzido por Engenheiros do Hawaii
gravado nos estúdios BMG - RJ, inverno de 1990

técnicos de gravação: Flávio Sena, Ronaldo Lima, Ricardo Essucy, Franklin Garrido, Luis Carlos, Dalton Rieffel e Mário Jorge
auxiliares: Cássio Araújo, Cezar Delano, Luiz, Júlio Cezar e Dalmo
músicas mixadas por: Engenheiros do Hawaii, Flávio Sena, Ronaldo Lima e Ricardo Essucy

O poster do Papa João Paulo II tomando chimarrão em sua visita à Porto Alegre é de propriedade de Leonel de Moura Brizola. A ele e a Carlos Contursi, autor da foto, agradecemos por sua cessão

projeto gráfico: Engenheiros do Hawaii, André Teixeira e JC Mello
fotografias: Dario Zalis

O Papa foi digitalizado por JC Mello e Levindo Carneiro com Pixel Paint Pro e Adobe Photoshop.


release

por Arthur Dapieve

Os Engenheiros do Hawaii têm o dom de ir contra a corrente. Mesmo quando não querem. É uma coisa de berço: Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarra e teclados) e Carlos Maltz (bateria), se formaram longe demais das capitais e do movimento punk, excursionaram não pelos isteites e sim pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, votaram em Brizola e não no Lula no primeiro turno, e foram os outsiders dos outsiders, mas nem por isso insiders. Isso lhes deu o distanciamento: a juventude sempre periga ser uma banda numa propaganda de refrigerantes. E quando todo mundo se rói com a preocupação de ser moderno, eles dão uma meia trava no tempo. O papa é pop. Um questionamento sobre os seus próprios meios e mensagens.

Pra começar os Engenheiros se autoproduziram em grande estilo. "Não dá mais pra querer ser uma banda de garagem", dizia Maltz numa das pausas das gravações. Ele, por exemplo, só usou bateria eletrônica. Em algumas faixas Gessinger e Licks arriscam os dedos num piano Fender Rhodes. E a audição do LP com headphones remete, implicita e explicitamente, a Roger Waters: são duas vozes justapostas, uma calma e alta, outra desesperada e baixa, ou vice versa; são trechos de programas radiofonicos; são pequenos detalhes instrumentais. Gessinger lembra o que o alegrou no "do it yourself" punk: "Oba! Serei o Steve Howe!" como se o punk nunca tivesse acontecido os Engenheiros são extemporâneos.

Daí sua preocupação com o tempo, o tempo que ao final dos gráficos é igual a movimento, a velocidade. Ó tempos, ó costumes... Eles estão preocupados com a obrigação de serem rebeldes. "Quando eu falo nós, eu falo nós três e não a juventude brasileira", avisa Gessinger. "O disco não é um panfleto." Até porque não reflete somente sobre o sistema mas também sobre o anti-sistema. Escute-se a faixa O exército de um homem só, que tem direito a duas partes: "Não interessa o que diz o ditado/Não interessa o que o estado diz/Nós falamos outra língua/Moramos em outro país". Os Engenheiros estão maduros o suficiente para saber que depois de Longe Demais das Capitais (86), A Revolta dos Dândis (87), Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém (88) e Alívio Imediato (89, ao vivo, com duas faixas em estúdio, a título e Nau à Deriva), depois de se firmarem como uma das quatro principais bandas do BRock, já encontraram a própria levada no rock-balada bem pessoal.

Com a regravação de Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones, já estourada nas rádios, O papa é pop guarda muitas cartas na manga. A faixa-título escacara a discussão. "O pop não poupa ninguém", canta o refrão, com direito a corinho jovem guarda dos Golden Boys, enquanto outros versos exemplificam: "Toda catedral é populista/ É pop/ É macumba pra turista/ E afinal? O que é rock´n´roll/ Os óculos do John ou o olhar do Paul?"

Nunca mais poder vem no mesmo mote, tentando entender "por que esse medo de ficar pra trás, de não ser sempre mais, de nunca mais poder?" E mais adiante: "Todo mundo é moderno/ Todo mundo é eterno/ O papa é moderno/ O pop é eterno."

Até mesmo as baladas apianadas como Pra ser sincero e Olhos iguais ao seus se atormentam diante da estranheza entre as pessoas tão parecidas. "Somos suspeitos de um crime perfeito/ Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos" , enuncia a primeira. Está armado o paradoxo dos Engenheiros. Ele reaparece na letra de A violência travestida faz seu trottoir em um dos versos mais elucidamente cruéis da história da música popular brasileira, o camusiano "todo suicida acredita na vida depois da morte". A capacidade da banda de aprofundar sem complicar é impressionante. Todas as faixas podem ser escutadas no meio de um engarrafamento, para arejar, ou serem estudadas na biblioteca, para encucar. Veja-se (o verbo não é casual) Anoiteceu em PoA: um épico urbano, cinematográfico, gremista, que vara a madrugada da capital gaúcha com um porre de uísque paraguaio. Tudo bem, todo mundo pode ser moderno e todo mundo pode ser eterno, mas só os Engenheiros do Hawaii podem ser os Engenheiros do Hawaii. Só eles surfam ao contrário da onda.

Arthur Dapieve

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