Humberto Gessinger

Segundo um astrólogo amigo meu, nasci muito velho.

Foi em Porto Alegre no dia 24 de dezembro de 63. Hoje já estou bem mais jovem. Aos 45 anos pretendo chegar à adolescência. Sou filho de uma mistura gaúcha de colonos alemães (por parte de pai) e italianos (lado materno). Depois da morte do marido, minha mãe criou duas filhas e dois filhos com a silenciosa sabedoria que hoje ela passa aos netos. Quando criança, um tio deixou uma montanha de discos lá em casa. Era uma coleção completamente aleatória...discos que ele ganhava por trabalhar numa sociedade arrecadadora de direitos autorais, eu acho. Dois desses discos me fascinavam : Os Incríveis com a música Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones e José Mendes com uma canção sobre um gaúcho cujo cavalo morre dramaticamente. Me lembro de implorar para colocarem estes discos na vitrola . Acabei ganhando um violão quando tinha cinco ou seis anos mas não me animei a fazer aulas.

Meu interesse em tocar algum instrumento só se revelou mais tarde, quando comecei a imaginar canções. Foi no início da adolescência. Eu adorava rock progressivo e MPB, odiava disco music. Me divirto hoje vendo que a música que achávamos descartável está no ar e a que cultuávamos é tratada como chatice. Ondas...fazer o quê? Mais do que música, meu sonho adolescente era ser tenista. Adorava treinar e passava horas no paredão. Borg era o cara. Frio e indecifrável, ele parecia estar conectado com coisas mais profundas do que bater numa bolinha.

Nos primeiros campeonatos que joguei descobri que não gostava de competição, me desinteressava do jogo na primeira meia hora. Minha viagem era superar as próprias limitações, jogar melhor, descobrir meu ritmo. Ganhar de alguém me parecia bobagem. O que eu queria era ganhar de mim mesmo. Pensando bem, acho que eu deveria ter tentado yoga (teria economizado o dinheiro que gastei com equipamento).

Hoje, sou casado com Adriane, que conheci no segundo gráu e comecei a namorar quando estudávamos arquitetura. Já no primeiro encontro vi que era o norte magnético. Temos uma filha (Clara) que me acha infantil e uma cachorra (Laika) que deve me achar um animal. Foi na Escola de Arquitetura que, junto com dois colegas, inventei os Engenheiros do Hawaii em 1985. Vez por outra me arrependo do nome...da música, só sinto orgulho. Escrevo este 3x4 quando estamos lançando o décimo primeiro disco: !Tchau Radar! , o que quer dizer : "Bah, Me Larga".

Sou o único gremista do mundo que não seca o Internacional. No Rio de Janeiro, torço para o Botafogo e, em São Paulo, torço para o time que estiver perdendo. Católico relapso, não sei se há vida em outros planetas. Pra ser sincero, acho que não faz a menor diferença. Mal conheço meu vizinho de porta, imagina ter que lidar com homenzinhos verdes... Gosto de Underberg, prefiro Elvis gordo em Las Vegas do que antes do serviço militar e acho que Zé Ramalho canta melhor do que Ed Motta. Passo madrugadas de insônia ouvindo conversa em rádio AM e acho ler mais fácil e divertido do que ir ao cinema.

Concordo com o filósofo Gil Lopes quando ele diz que o melhor ainda está por vir.

Meus dois maiores sonhos são : aprender a nadar e ser politicamente correto.

Um dia chego lá!

Fora isso, sou inteiramente normal!