Entrevista com Humberto Gessinger - Comunidade Orkut
05.abr.2008
Humberto, quais são suas expectativas em relação ao time do Grêmio para esse ano? Manuela – São Paulo / SP
Manuela : estou no Rio ouvindo o Grêmio ser derrotado pelo Atlético-GO no mesmo computador em que teclo esta resposta... tomara que este não seja um julgamento definitivo.
Como foi a experiência de escrever um livro sobre o Grêmio? Quais foram suas inspirações?
Foi legal escrever para o público infanto-juvenil. Quanto ao Grêmio, não é uma narrativa oficialista. Quis mostrar algumas memórias afetivas minhas ligadas ao clube. Achei que era a contibuição que eu podia dar. A história factual do Grêmio já tá escrita em alguns livros e sites.
Tenho uma tattoo em homenagem à banda no meu braço. Como você vê estas atitudes de carinho pela banda? Hugo Oliveira - Goiânia / GO
O que eu posso dizer, Hugo? Apesar de ter certeza de que não mereço, não resisto e fico lisonjeado. A capacidade de se engajar, de se apaixonar, é uma virtude que deve ser cultivada. Anda muito rara hoje em dia.
O quão surreal (ou não) é pra você ver fãs que viajam até para outros estados para estar no show dos Engenheiros? Como é encontrar em estados com culturas tão específicas um público igualmente fiel? Carol Braga – Niterói, Níslei Araújo – Gandu / BA
É maravilhoso e sempre me surpreende. Já faz parte da cultura EngHaw. O fato do meu trabalho ser tão mal divulgado acaba reforçando este caráter de confraria. Fidelidade é uma palavra muito bonita, graficamente parecida com felicidade.
Se não me engano, no Estúdio Transamérica de 1992, você disse que tudo que Roger Waters fazia era justo com os fãs. Pois então, no tocante à obra dos Engenheiros e no choque de opiniões entre fãs, você acha que HG é justo com os fãs? Rafael - Patos de Minas / MG
A única forma de ser justo com os fãs é não pensar neles, Rafael. Não quero que os artistas que eu curto pensem em mim. Não quero que os políticos que eu respeito pensem em mim. Deve rolar uma ética impessoal por parte de quem cria. Com muito respeito. Sem ficar puxando saco e indo pelo caminho mais fácil. Pra mim esta é a relação justa.
O retorno ao baixo teve alguma influência dos fãs, foi conseqüência de ocorridos internos da banda ou só uma decisão espontânea mesmo? Eduardo Paulo – Florianópolis /SC
Eduardo : acho que , no momento, os instrumentos nos quais eu sou mais pessoal são o baixo e a viola caipira. É o instinto que pretendo seguir. Não sei o que os fãs pensam a respeito. Acho mesmo que a palavra “fã” é uma simplificação grosseira, como se houvesse uma forma homogênea de ser fã.
O que este hipotético fã da banda quer? Só Lado B e música na abertura da novela das 9? Um disco de inéditas que já foram gravadas? Shows de graça em lugares maravilhosos? Moicano com franja? Um ancião de 16 anos? Um Rickenbacker headless? Um Steinberger fabricado em 1959? Não sei...
Eu tenho visões bem particulares sobre minha trajetória. Os experimentos que tenho feito com piano e baixo synth, por exemplo, acho muito similares ao uso do violão com as harmônicas.
Não sei o que os fãs pensam da discografia EngHaw. Eu não sinto a cronologia de forma linear. Meu relógio não é mecânico, é um daqueles relógios derretidos do Salvador Dali.
Reúno os discos em trincas, assim:
1- LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS
SURFANDO KARMAS & DNA
DANÇANDO NO CAMPO MINADO
2- FILMES DE GUERRA, CANÇÕES DE AMOR
ACÚSTICO MTV
NOVOS HORIZONTES
3- A REVOLTA DOS DÂNDIS
OUÇA O QUE EU DIGO : NÃO OUÇA NINGUÉM
GESSINGER TRIO
4- SIMPLES DE CORAÇÀO
MINUANO
! TCHAU RADAR !
5- O PAPA É POP
VÁRIAS VARIÁVEIS
GL&M
6- ALÍVIO IMEDIATO
10.000 DESTINOS
10.001 DESTINOS
Mas , quem sou eu para afirmar que minha visão é mais relevante do que outra qualquer? A irradiação foi feita, ainda não é fóssil. As frequências foram emitidas. Quisera eu ter forças para determinar como reverberarão.
Humberto, o que podemos esperar da continuação dessa turnê agora que a banda tem 'cabeça elétrica e coração acústico'? Você vai continuar revisitando canções guardadas pelo tempo? Se sim, pretende tocá-las na íntegra? O que é possível revelar sobre planos daqui pra frente no que diz respeito à abordagem de repertório, shows, sonoridade e membros da banda? Valdemar Barbosa – Fortaleza / CE, Eduardo Paulo – Florianópolis / SC
Novos Horizontes é uma matriz muito generosa, Valdemar. Será muito provavelmente o último disco EngHaw.
Agora, na segunda parte da tour, pretendo buscar algumas promessas do projeto. Vou tocar mais músicas de viola caipira, num ambiente mais delicado, com Aranha no violão de nylon. Essa combinação dos dois instrumentos mais brasileiros que existem soa muito bem.
Ao mesmo tempo, quero plugar a guitarra em músicas como Luz, Vertical e Toda Forma/Chuva de Containers. Elas têm jogo nesse formato.
Na verdade, quero juntar o que fiz de melhor em termos de show, que talvez tenham sido as turnês do Várias Variáveis e dos Acústicos. Pode ser muita ambição, mas há que combater o bom combate.
Você pretende fazer um novo disco ou continuar com a tour Novos Horizontes? Como será essa dinâmica e por quanto tempo? Larysse Mendonça – Fortaleza / CE
Estou compondo muito nestes últimos meses, Larysse. E reescrevendo algumas coisas. Só não sei o que farei com este material. Ele é acústico, para ser tocado em duo. Vejam o Jim Croce tocando ao vivo no YouTube.
O que você acha da desvinculação de gravadoras? Você acredita que artistas independentes possam “acontecer” em todo Brasil sem a ajuda das grandes gravadoras? Luiz – São Paulo / SP
Luiz : sempre fui muito burro nestas questões estratégicas. Minha trajetória é a maior prova desta falta de inteligência. Não entendo nada de gravadoras, midia, empresários. A palavra “mercado” me dá sono. Eu sou apenas um rapaz latinoamericano sem dinheiro no bolso sem parentes importantes e vindo do interior.
Nunca cuidei nem encontrei quem cuidasse disso que chamam de imagem. Acho que assim as surpresas de quem, inacreditavelmente, entra em contato com meu trabalho tendem a ser positivas. Só não aconselho ninguém a seguir meu exemplo pois é solitário e cansativo demais.
Há alguns meses houve fortes especulações sobre o fim do contrato com a Universal e, mais intensas ainda, sobre o fim da banda. Por que você acha que surgiram esses dois boatos? Diego – Rio de Janeiro / RJ
Diego : já tenho dificuldade para falar de fatos, imagina então falar sobre boatos! Especulação é a mesma palavra usada pra quem quer ganhar grana sem trabalhar, né?
A internet poderia se tornar um meio oficial de divulgação do seu trabalho, e não apenas contato com os fãs? Carol Braga – Niterói / RJ
Pode ser, Carol. Temos que ter cuidado para não confundir o meio com a mensagem, pois este tempo já passou. Se a coisa mais interessante a respeito do novo disco do Radiohead é a forma como ele é comercializado, estamos vivendo num mundo muito chato.
As músicas acabam achando seu caminho e o público acaba achando seu artista... espero não estar sendo muito ingênuo quando digo isso. Tocar no chão da praça ou na abstração dos megaultragigabites pra mim dá na mesma. Em qualquer lugar dá pra se conectar com A Fonte.
O enghaw.net já teve e agora a comunidade Engenheiros do Hawaii, do orkut, está tendo a oportunidade de sabatiná-lo. Gostaria de saber se ações como os chats recorrentes do dia 11 têm chance de voltar a acontecer?
Eu adoro conversar com quem se interessa. Só assim paro pra pensar sobre o que eu faço. Mas o anonimato das vias virtuais me cansa um pouco. A tendência é tudo se diluir e ficar superficial, numa ilusão de proximidade.
De qualquer forma, o que devo emitir, faço principalmente através da música. O que eu digo é 80% bobagem e 20% obscuro. É muita generosidade de vocês prestar atenção.
Humberto, é comum você fazer audições da obra dos Engenheiros, mas claro, de forma integralmente desvinculada do trabalho (tal como você escuta seus artistas prediletos)? Como é esse processo? É possível se posicionar como um simples ouvinte ou inevitavelmente há um olhar analítico? Ocorrem muitas (re)descobertas? Higor Mozart - João Monlevade / MG
É impossível ouvir com objetividade e é impossível ouvir com abandono, Higor. Ultimamente, Clara tem me feito ouvir algumas coisas... acho que está envelhecendo muito bem o que eu escrevi. O compositor de 2008 já estava lá em 1963.
Tenho muito carinho pelo meu trabalho como instrumentista. Talvez eu tenha perdido a mão em alguns momentos como arranjador pois nunca quis ser band leader e tenho dificuldade em comunicar, de forma técnica, minhas visões.
Quanto aos ouvintes, fico com a impressão de que o cerne do trabalho raramente é tocado. Por quem gosta e por quem não gosta.
As maiores obras-primas da banda segundo a maioria dos fãs, são os discos "Gessinger, Licks e Maltz" e "Filmes de Guerra, Canções de Amor", justamente na pior fase de relacionamento entre os integrantes. Na sua opinião, qual a razão disso? Coincidência, ironia do destino, acaso ou mesmo que de forma inconsciente, cada um fez o seu melhor por estar justamente ali pelo amor à música? Moisés – Rio de Janeiro / RJ
Não concordo que estes discos sejam os melhores, Moisés, mas esta é uma questão subjetiva . Tenho certeza de que não foram feitos num momento de crise nas relações. Isto é fato. A não ser que todos os dias, desde o início, tenham sido de crise. Mas aí, não seria “crise”, seria “vida normal”, né?
Reconheço que estes dois trabalhos têm uma alma forte e acho maravilhoso que tenham encontrado seu público.
Perguntei ao Maltz se "temos" esperança de ver ao menos uma apresentação da formação GLM e ele respondeu "temos!". E você, acredita numa possível volta? Já houve algum contato com o Augustinho e com o Maltz sobre isso? Você tem vontade de voltar àquela formação, mesmo que seja num evento comemorativou e/ou beneficente? Gustavo - Pouso Alegre / MG
Sobre Carlos e Augusto, só tenho coisas boas a dizer. Sou fã de ambos, foi um privilégio ter convivido com eles. Quanto a tocar junto, quem sabe? Pra ser sincero, cada dia que passa fica mais improvável.
Na última vez que falei com Augusto, ele tocava numa banda chamada Engenheiros do Hawaii. Puxa, lá se vão 15 anos... Com Carlos falo com mais frequência.
Quando ouço algumas pessoas se referindo a esta ou aquela formação, me parece que estão transformando um time de futebol num time de botão. De qualquer forma, quem disse que as músicas acabam? Quem disse que o tempo é linear?
Humberto, o que você pensa a respeito da disponibilização de arquivos raros como o 1° show na Faculdade de arquitetura? Você concorda com isso?
Ton Lucas – Fortaleza / CE
Ton : se eu concordasse eu mesmo teria buscado a veiculação. Mas não me importo. Para mim não é uma questão.
Estamos vivendo sob o signo de Big Brother. Parece que tudo deve ser exposto, né? A palavra “véu” soa como palavrão para nós ocidentais.
Existem planos de lançar oficialmente arquivos que, por enquanto, vemos como raros (demos, shows históricos)?
Ainda não é o momento de ficar cultuando o passado. Sinto que algumas pessoas estão sempre 5 discos atrás. Reclamam quando sai o HG3 e quando sai o SK&DNA pedem Freud Flintstone.
Você sempre teve uma postura esquerdista, principalmente com a sua admiração por Brizola. Você ainda apóia a esquerda? Você aprova o atual governo? Este ano foi marcado pela renúncia de Fidel, considera um ponto importante para a história de Cuba e do mundo?
Hoje acompanho a política institucional (esta dos partidos e das eleições) de forma tão superficial quanto acompanho futebol. Tudo me parece propaganda de refrigerantes. Os publicitários tomaram conta e devastaram também esta área.
As questões que, no momento, valem a pena são religiosas e científicas. Ali está a ação nesse início de século. Religião e Ciência.
Como você lida com o interesse que os fãs têm por seus gostos musicais, filosóficos e suas opiniões políticas? Erick Bruno – Fortaleza / CE
Viver é fazer escolhas, Erick. Eu faço as minhas… mas não gostaria de influenciar ninguém.
Qual a maior besteira que já fez em sua carreira? Alex – Curitiba / PR
Nenhuma grande besteira, Alex…
Se eu tivesse gravado ARDD como guitarrista, teria vendido 10 vezes mais , mas a banda teria terminado ali, no segundo disco.
Talvez fosse melhor não ir para o Rio depois de gravar o OOQED:NON. Sinto que meu artesanato SemiPro perdeu um pouco o foco no pretenso cosmopolitismo da ex-capital. Mas muitos fãs e fãs de fé gostam muito do Várias Variáveis e do GL&M… então, 0x0, bola ao centro. Se eu fosse um cara diferente, sabe lá como eu seria?
Humberto, suponho que como entrevistado, às vezes, você se sinta um tanto quanto indefeso. Mas, se este jogo fosse invertido e lhe fosse dado a oportunidade de entrevistar seus fãs. A entrevista seria a mesma para todos e restrita a uma ou duas questões. Dados como nome, idade e cidade dos entrevistados já seriam de seu conhecimento. Qual ou quais perguntas você faria?
Higor Mozart - João Monlevade/ MG
Obrigado pela oportunidade, Higor. Não tenho perguntas a fazer. Se eu pudesse tomar um café e bater um papo descontraído e fraternal com todos, seria um prazer...
Alguma vez você já deu uma espiadinha no Orkut, em especial nesta comunidade? Você fica sabendo de alguma forma o que discutimos aqui? Se não, não sente curiosidade? Alex – Curitiba / PR
Nunca espiei, Alex. Não sei do que se trata Orkut. Que otário que eu sou, né? Já disse na MTV que não gosto de clipe, já falei em Rádio FM que só ouço AM e agora falo isso... mas acho que vocês me entendem, né?
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Gostaria de agradecer a paciência de vocês fazendo estas perguntas e lendo as respostas. Engenheiros do Hawaii é só uma banda estranha, artesanal e semiprofissional. Não percam tempo comigo. Abraços, HG
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