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edição 18 - Outubro 2006
A polêmica em torno das cotas para negros
Em livro corajoso, Kamel se posiciona e provoca leitores a refletirem sobre discriminação.
por Ilana Seltzer Goldstein
NÃO SOMOS RACISTAS - Ali Kamel, Nova Fronteira, 144 págs., R$ 22
Nas últimas décadas, "o mito das três raças", que pretende explicar a formação da sociedade brasileira, vem sendo alvo de debates acalorados. Enquanto alguns defendem que a mistura biológica e cultural teria levado a uma sociedade mestiça e aberta, em que pessoas de diferentes origens étnicas convivem sem grandes confrontos, outros denunciam que se trata de uma ideologia perigosa: a idéia da "democracia racial" encobriria as mazelas da escravidão e o racismo ainda presente em nosso dia-a-dia.

Dentre as análises estatísticas agudas e originais, destacam-se também as do mercado de trabalho. Os dados do IBGE não permitiriam concluir que um branco e um preto ganham salários diferentes no mesmo cargo. O que se comprova, por meio do censo, é que um branco ganha cerca de 50% a mais que um negro com o mesmo número de anos de escolaridade. A explicação mais provável para a diferença salarial é que o negro tenho cursado uma escola pública em condições precárias, enquanto o branco freqüentou uma escola particular. Aliás, os "amarelos" ganham, em média, mais do que o dobro dos brancos. Kamel provoca: seria essa diferença fruto de racismo dos empregadores "amarelos" contra os brancos? Em um dos únicos casos em que os dados do IBGE permitem efetivamente comparar salários de pessoas de cores diferentes, desempenhando exatamente a mesma função, os números desmentem mais uma vez o senso-comum: entre os empregados domésticos, o salário médio dos brancos é igual ao dos negros.

Para comprovar a hipótese de que não se pode atribui à cor da pele qualquer diferença de condição socioeconômica no Brasil, Ali Kamel encomendou a um estatístico que criasse, a partir das amostras do censo de 2004, três grupos - brancos, negros e pardos - comparáveis entre si, ou seja, todos residentes em áreas urbanas, com um filho e renda total de até dois salários mínimos. Os resultados para os três grupos são muito semelhantes quanto à proporção de pessoas que sabe ler e escrever e quanto ao número médio de anos de estudo. O autor demonstra, assim, que a vida é igualmente difícil para brancos, negros ou pardos pobres. E conclui que instituir cotas para negros seria beneficiar apenas uma pequena parcela entre os desafortunados, o que poderia, ao invés de remediar, desencadear ódio "racial".

Nas palavras do autor, no Brasil, "a pobreza vem acompanhada de baixíssimo nível de educação formal e informação, o que torna o nosso pobre, em geral, mais submisso, menos consciente de seus direitos." Num capítulo mais controverso, o autor não hesita em dizer que "entre os pobres, cor não é privilégio nem demérito de ninguém". Ora, que o racismo por si só não explique desigualdades socioeconômicas é uma coisa, afirmar que não há discriminação baseada no fenótipo entre os brasileiros é outra. A primeira idéia é brilhantemente comprovada por Ali Kamel ao longo de seu livro, mas a segunda não convence tanto.
Essa lacuna talvez se deva, sim, ao fato de o autor ser branco e nunca ter sofrido a discriminação velada e difusa típica do brasileiro. E de tampouco ter levado em conta depoimentos de sujeitos concretos, pardos ou negros, sobre situações em que sua cor foi motivo de insulto ou chacota. Não que isso fosse alterar a validade da argumentação do autor contra a instituição de cotas "racias" no Brasil, mas talvez trouxesse mais simpatia e mais humanidade a seu livro.

Os últimos capítulos, que servem como alento ao leitor, sugerem alternativas e soluções. Para minimizar a pobreza no Brasil, o governo poderia realocar parte dos R$ 19,5 bilhões reservados para programas assistencialistas como o Bolsa-Família, para poder investir mais do que os 8,5 bilhões previstos para a educação, em 2006, em bibliotecas e computadores para as escolas, em valorização e qualificação do corpo doDois grandes livros que, apesar da distância no espaço, fazem vôos intelectuais paralelos, e marcam a história das grandes interpretações da América Latina. Em 1936, o historiador Sérgio Buarque de Holanda lança, no Rio de Janeiro, o seu Raízes do Brasil, ensaio fundador da historiografia brasileira. Catorze anos depois, a quase 8 mil kms de distância, na Cidade do México, o pensador e poeta mexicano Octavio Paz lança O labirinto da solidão, outro livro chave na interpretação filosófica e antropológica do continente americano. O confronto das duas interpretações rende ao escritor e crítico literário Silviano Santiago o seu As raízes e o labirinto da América Latina. Ensaio cauteloso, pontuado de finas digressões, em que Santiago leva os dois grandes clássicos a dialogar, em um trançado de idéias que abre novas portas para a compreensão do continente. Holanda e Paz, nos lembra Santiago, estiveram, desde a primeira hora, ligados ao modernismo. Entre 1924 e 25, Holanda foi co-editor da revista Estética, que sucedeu a lendária Klaxon. Em 1931, Paz cente. Só que esse caminho, infelizmente, rende menos votos a curto prazo e exige muito mais reflexão e planejamento.

Por fim, é preciso dizer que estamos diante de uma notável peça de retórica. Suas páginas são recheadas de argumentos e seus capítulos bem amarrados e auto-referentes. Essa estratégia narrrativa, que impressiona e prende o leitor, merece apenas uma ressalva: poderiam ter sido cortadas as repetições das idéias centrais, que aparecem em vários capítulos em formulações quase idênticas.

São antigas e variadas as raízes dessa idéia de democracia racial no país. Começa com o alemão Von Martius, em 1840; passa pelo crítico literário Sílvio Romero, cinqüenta anos depois; chega a Gilberto Freyre, que, nos anos trinta do século passado, efetuou uma releitura particularmente positiva da fusão das "três raças" em Casa grande & senzala. Ao mesmo tempo, essa tese vem sendo criticada desde a década de 50. Florestan Fernandes, Clóvis Moura e Kabengele Munanga acreditam que nosso "mito fundador" é prejudicial.
Esse conjunto de interpretações de nossa mestiçagem fornece o pano de fundo sobre o qual se pode compreender a importância e o potencial explosivo de Não somos racistas, de Ali Kamel, que acaba de ser publicado pela editora Nova Fronteira. A polêmica recente em torno da política de cotas, que perpassa o livro todo, apenas reavivou um debate extenso e espinhoso.

Ali Kamel, formado em ciências sociais pela UFRJ e diretor de jornalismo da Rede Globo, acaba de lançar um livrinho corajoso, em que se posiciona politicamente e provoca os leitores a refletirem para além da superficialidade midiática e da cegueira militante que envolvem o tema. O autor reuniu, adaptou e atualizou artigos seus já publicados no jornal O Globo, o que resultou numa espécie de libelo político, como revela o subtítulo "uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor".

É provável que vozes iradas do Movimento Negro se insurjam em breve contra o autor, acusando-o de emitir suas opiniões contra as cotas para negros a partir de uma posição confortável e "suspeita": ele não é negro e ocupa um cargo importante dentro da imprensa. Mas Ali Kamel será salvo pelas inúmeras evidências e estatísticas de que lançou mão, pela inteligência de seu raciocínio e pelo desejo, que transparece o tempo todo, de que o Brasil efetivamente melhore por meio de uma reestruturação na educação pública.

Cada capítulo do livro fornece uma nova peça para o leitor encaixar no quebra- cabeça geral. O primeiro - e o mais longo de todos - faz um resgate histórico do governo FHC, que contradiz a famosa frase do ex-presidente: "esqueçam tudo o que escrevi". Durante seu governo, FHC esforçou-se em imprimir uma maneira de abordar a questão "racial" brasileira em sintonia com a sociologia das décadas de 50 e 60 (FHC é discípulo de Florestan Fernandes), pautada na descrição de uma sociedade bicolor, em que brancos e negros são antagônicos.
Um outro capítulo questiona o conceito de "raça" com base em pesquisas genéticas recentes, que revelam que a diversidade interna dentro de um mesmo grupo é tão grande quanto a diversidade entre dois grupos diferentes, desautorizando qualquer indivíduo esclarecido a dizer que existam várias raças humanas. Argumenta ainda que, em todos os momentos históricos em que se usou o conceito de raça politicamente, os resultados foram terríveis.

Há uma série de capítulos revirando do avesso as estatísticas divulgadas pela imprensa. Um deles discute a categoria "pardos", ora usada para "engrossar o caldo" da população afrobrasileira, somando-se à categoria "negros", ora excluída. De acordo com Kamel, há 5,8% de negros no Brasil e não 48%, pois este segundo número englobaria os "pardos". Da mesma maneira, os pretos não representam 65,8% dos pobres, mas somente 7,1%. No entanto, as comissões de avaliação das universidades que oferecem cotas para negros têm pedido fotos dos candidatos, que são selecionados com base no fenótipo tipicamente negro: lábios grossos, nariz largo e cabelos crespos. Resultado: os pardos tendem a ser barrados, sobretudo se seus cabelos forem ondulados e seus narizes afilados.
ALI KAMEL
É formado em ciências sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). É diretor de jornalismo da Rede Globo. Começou a escrever sobre a política de cotas numa série de artigos publicados no jornal O Globo a partir de 2003.
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