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Artigos |
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| edição 22 - Fevereiro 2007 |
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| É tudo versão, diz o pai da história |
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| por Oscar Pilagallo |
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| Minhas viagens com Heródoto, Ryszard Kapuscinski, Companhia das Letras, 312 págs., R$ 49 |
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A constatação da impossibilidade de contar uma história objetiva, embora não admitida por leitores ingênuos, é tão antiga quanto a própria história. A noção está presente já em Heródoto, que viveu no século V antes de Cristo, durante o período áureo da civilização grega.
Considerado o pai da história, Heródoto (485a.C.-425a.C.) dedicou-se à tarefa com entusiasmo e esmero, mas não permitiu que tal atitude o fizesse perder de vista a precariedade da empresa. Assim, ouvia relatos com um misto de interesse e desconfiança, ciente de que suas fontes carregavam uma memória coletiva, fruto de fatos recontados intencionalmente.
O método de trabalho do grego, baseado em saudável ceticismo, é revisitado por Ryszard Kapuscinski, em Minhas viagens com Heródoto - entre a história e o jornalismo (tradução de Tomasz Barcinski).
Kapuscinski nota que Heródoto em nenhum momento se deixou dobrar pela dificuldade identificada. Se "a subjetividade e sua presença deformadora sempre farão parte da história," comenta o autor, "o nosso grego, ao se dar conta disso, toma algumas precauções retóricas". Em vez do definitivo "aconteceu assim", prefere o mais cuidadoso "como me foi dito". A ressalva faz toda diferença. "Num sentido ideal, jamais lidaremos com uma história real - ela é sempre recontada, fantasiada, forjada e criada", afirma Kapuscinski. "É bem possível que essa verdade seja a maior descoberta de Heródoto." |
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 | Oscar Pilagallo é jornalista e autor de A História do Brasil no século 20 (em cinco volumes), O Brasil em sobressalto e A aventura do dinheiro, todos pela Publifolha. |
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