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| Lisboa, onde mora Tavares, vista de Almada |
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[continuação]
ENTRELIVROS – Qual era a sua disciplina para escrever no período que antecedeu a publicação de seus primeiros 14 livros, vindos à luz incrivelmente em apenas três anos?
GONÇALO M. TAVARES – Escrevo desde muito cedo, mas as coisas ficaram sérias a partir, talvez, dos 20 anos. E publiquei o meu primeiro livro só aos 31. Sempre foi meu desejo não publicar antes dos 30; uma fixação como qualquer outra. Queria ter um percurso anterior que me desse grande confiança. Bem, nesses dez, 11 anos – entre os 20 e os 30 – levantava-me muito cedo, uma obsessão, e normalmente às 6h30 da manhã já estava a ler e a escrever. Esses dois atos estavam e estão ainda muito ligados: lia-escrevia. Fazia isto todas as manhãs, com uma ou outra exceção, mas rara. E o que aprecio mais no meu percurso é mesmo este período; foi necessário muita disciplina, autodomínio. Às vezes pergunto-me como fui capaz de seguir essa disciplina. Agora é bem mais difícil.
EL – E havia tempo para viver? Como você concilia o mergulho na escrita com o convívio com os seus?
TAVARES – Sim, havia e há muito tempo para viver. Mas antes de continuar, deixe-me dizer-lhe que a pergunta pressupõe que ler-escrever não é viver; mas acho que é viver sim, e muito, de uma forma muito intensa. Ler e viver são experiências de vida claramente, e experiências humanas. Não são experiências de extraterrestre ou exteriores à vida. Não saímos da vida para ir ler, e depois voltamos. Não sei por exemplo se é possível hierarquizar a experiência de fazer uma viagem importante e a experiência de ler um livro como O homem sem qualidades, de Musil, ou Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski. São coisas diferentes, mas ambas fortes. Voltando à sua pergunta: como me levantava muito cedo, às 11 h, 11h30 estava no resto da vida, por assim dizer, e mergulhava nela por completo. Fiz o que tinha a fazer nessa idade, viajei bastante, sofri o suficiente – não quero mais disso, tenho a minha dose.
EL – Você era um ávido leitor na infância? Ainda é na mesma proporção?
TAVARES – Sempre li bastante, mas na infância não era daqueles meninos que ficam de lado a olhar para os outros. Passei a minha infância, parte dela, na rua a jogar a bola com amigos, ao soco por vezes, nos namoricos, vivi muito no exterior. Comecei a ler cada vez mais e a certa altura percebi que a leitura era um eixo central na minha vida. Li e leio constantemente, e sinto, tal como para a escrita, falta de alguma coisa quando não leio um único dia. Tornou-se uma coisa muito biológica, orgânica. Preciso de ler. Tal como necessito de escrever. Por vezes, quando não escrevo fico irritado como se não tivesse ainda almoçado e já tivesse passado a hora para isso. É algo muito fisiológico. Mas não se deve romantizar a coisa: claro que posso passar sem escrever ou ler; mas se o fizer sinto falta. |