[continuação]
EL – Há um poema de Juan José Saer que diz “Bem-aventurados os que estão na realidade/e não confundem suas fronteiras”. Há, na sua opinião, alguma distinção drástica entre a vida que escritores e leitores vivem nos livros e a vida supostamente real?
TAVARES – Bem, como lhe disse, considero-me um bom leitor – estou atento, tento ler o que é bom, se alguém que eu respeito me fala de um autor que eu não conheço no dia seguinte estou a ler esse autor, mas, apesar disso, estou bem metido no real. Dou aulas numa universidade, o que me faz estar em contato com alunos, com gerações de rapazes e raparigas de 20 e poucos anos e isso é muito bom – obriga-me a não estar fechado. Por outro lado, tenho uma robusta família: tenho três filhos: conhece maior chamamento à realidade do que esse? Aí, não há que inventar, e a imaginação não resolve problemas: é a vida real no seu sentido mais urgente. Os filhos exigem de nós tudo e dependem de nós, desde a comida, às frases que lhes dizemos, aos contatos corporais; tudo é importante e muito real. Felizmente, tenho filhos porque realmente o perigo era ficar como Dom Quixote, louco dos livros e da escrita. Eles são o real, que está mesmo ao pé de mim. Se estão com fome, preciso agir.
EL – Há algo de verdadeiramente novo no panorama da literatura portuguesa, além da pouca idade de alguns de seus praticantes mais recentes? Há ainda a possibilidade do novo em literatura?
TAVARES – Bem, em primeiro lugar só se pode fazer o novo se se conhecer o velho. Como posso saber se estou a fazer algo de novo se não sei o que os outros fizeram? Daí que um escritor, para mim, tenha de ser, primeiro, um leitor. Há escritores que escrevem sem ler nada e depois pensam que fizeram coisas muito novas. Como leram pouco não podem saber que milhares de escritores já fizeram aquilo. Os chineses têm um ditado que é ao mesmo tempo uma maldição: “Não te atrevas a escrever um livro antes de ler mil”, parece-me sensato. Quanto a fazer o novo, acho que é isso: temos de saber o que já se fez e o que se faz, tal como um investigador em física conhece as investigações de física dos séculos passados e também as actuais. Depois, sim, pode-se investigar a sério, tentar algo novo.
EL – Parece surgir uma voga de autores cujas imaginações não se limitam aos limites geográficos de seus países. Você se sente um autor português?
TAVARES – Julgo que o mais importante quando se escreve é a língua e por isso é evidente que me sinto um autor português e, mais importante que isso, um autor de língua portuguesa. Penso que a língua deve ser o mínimo denominador comum. O que julgo não fazer sentido é falar-se em “temas portugueses”. Os temas que me interessam pertencem ao homem, não ao homem português. Interessa-me perceber o medo, o mal, a violência, mas também os gestos surpreendentemente bondosos; interessa-me ainda a lógica da linguagem etc. Não são temas portugueses, são temas humanos. Mas, de qualquer maneira, um escritor ao utilizar a língua portuguesa tem logo uma ligação inatacável à sua origem. Repare que um artista plástico, português ou brasileiro, aí, sim, pode fazer, no limite, obras de que não saibamos identificar a origem ou a nacionalidade. Eu escrevo em língua portuguesa, portanto é fácil identificar a minha origem. E tenho orgulho em escrever nesta língua. |