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edição 29 - Setembro 2007
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Entrevista: Gonçalo M. Tavares “Ler para ter lucidez”
por Joca Terron
[continuação]

EL – Qual a importância dos exercícios lógicos em sua obra? Gonçalo M. Tavares seria um leitor de Lewis Carroll e Georges Pérec?

TAVARES – Sou leitor desses autores,como de autores completamente diferentes, Jünger ou Musil ou Thomas Mann. Acho que o que me caracteriza como leitor é partir para um livro para receber o que ele me quer dar e não para exigir que ele me dê o que eu quero receber. Se eu ler Borges, por exemplo, é evidente que ele não me dá coisas que me dá Dostoiévski. Da mesma forma,se eu ler Dostoiévski à espera que ele me dê coisas que Borges ou Calvino dão, vou sair frustrado. Nenhum autor dá tudo o que precisamos na nossa vida, em todos os momentos. O maior dos autores não nos dá tudo, e ainda bem. Por isso, tento receber o que o livro quer dar. Mas em relação à lógica e aos paradoxos, julgo que isso é uma das linhas que me interessam, apenas uma das linhas. A esse nível, é um pouco como se investigássemos os limites do mundo e da linguagem. E, por exemplo, os paradoxos lógicos são muito importantes a esse nível: mostram-nos as limitações da nossa forma de ver o mundo.

EL – Há em Um homem: Klaus Klump uma cena de violação sexual (no capítulo 11) de extrema violência e ao mesmo tempo narrada de forma poética. A poesia pode ser violenta? Quais são os poetas contemporâneos que o agradam?

TAVARES – O que eu julgo importante é não ver o mundo como se fosse claro/escuro. O mal e o bem são coisas que estão misturadas e muitas vezes se confundem. Tal como a beleza e o horror. Julgo que a lucidez passa muito por chamar a atenção de que a beleza esconde por vezes coisas terríveis e que no terrível há por vezes coisas que merecem ser olhados com atenção e que nos ensinam muito.

EL – Não há nos senhores de O Bairro uma relação direta de seus nomes (o senhor Brecht, o senhor Kraus, o senhor Juarroz, o senhor Valéry) com suas biografias. São as idéias que conformam esses personagens ou eles seriam apenas homônimos?

TAVARES – O Bairro, no seu conjunto, e quando estiver todo pronto, é um projeto enorme. Vai durar toda a minha vida. Acho que no final vai ficar algo como se fosse uma história da literatura, mas em ficção. É, se calhar, a minha forma de fazer ensaios. São personagens que, embora guardando um pouco o espírito do nome que levam – quer seja pelo tema, pela lógica de pensamento, escrita etc. –, são ficcionais, autônomas, personagens que fazem o seu caminho.

EL – A recepção crítica ao seu trabalho tem sido formidável, apesar dos matizes inegavelmente experimentais nele presentes. Como se dá isso? E a recepção do público, acompanha a da crítica?

TAVARES – É bem agradável ser bem recebido por críticos; é fundamental para um escritor ser acompanhado no que vai fazendo e críticas inteligentes permitem que o escritor por vezes esclareça na sua cabeça coisas do seu próprio trabalho. Uma crítica de qualidade é fundamental; considero, no geral, não falando no meu caso pessoal, que os críticos são muito, muito importantes. E é assim com muita pena que vejo em Portugal a diminuição drástica do espaço que os jornais dão à crítica literária. Cada vez há menos espaço, os críticos, agora, têm dois parágrafos para escrever sobre um livro. Isso é terrível. Não sei se está a acontecer o mesmo no Brasil, espero que não, mas em Portugal os suplementos literários dos grandes jornais estão a desaparecer e o espaço para a reflexão pensada está também a evaporar-se. Quanto à recepção do público é também bastante simpática, mas tenho a consciência absoluta de que os meus livros não são best-sellers, nada disso. Mas o relevante é que entre os leitores há belos leitores e há ainda outros criadores. Das coisas mais agradáveis é ver artistas plásticos, pessoas do teatro, do cinema etc. fazerem obras a partir dos meus livros. Isso é muito bom. É a sensação de que há uma corrente eléctrica que me ligou antes a outros autores e continua agora ligando outros autores aos meus livros.
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